As sequelas da bebida alcoólica

Se você vira o copo só de vez em quando, que mal há? Eis uma notícia de causar ressaca: para a sua saúde, a quantidade é mais prejudicial que a frequência.

Beber pouco, mas com mais frequência é menos prejudicial que encher a cara de vez em quando
Foto: Getty Images

 “Depois da euforia e da desinibição inicial, a capacidade de tomar decisões sensatas desaba. Quem é impulsivo, por exemplo, fica ainda mais”, alerta a psicóloga Neliana Buzi Figlie, diretora da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas da Universidade Federal de São Paulo. Claro, você não precisa abandonar de vez a cervejinha de que tanto gosta. Desde que fique esperta sobre a diferença entre consumo moderado e abusivo, a fim de não acabar no prejuízo. E não é tarefa fácil, pois o efeito de cada bebida varia de amiga para amiga, pois depende de peso, altura, genética e processos químicos, entre outros fatores. Mas uma coisa é certa: nós, mulheres, somos mais vulneráveis aos danos causados pela bebida que os homens. E mais: nosso corpo tem mais gordura, que retém o etanol, e menos água, o que reduz sua diluição. Ou seja, se você bebe tanto quanto os amigos do sexo oposto, pode se dar mal.

Abuso sorrateiro

Um dos culpados por fazer a gente passar do ponto na balada é a crença de que apenas quem sofre de dependência alcoólica corre perigo. Mas a verdade é: quanto mais bebemos, mais tolerante nosso organismo se torna à bebida, fazendo com que a gente avance sem perceber. “O consumo excessivo é uma porta de entrada para o alcoolismo”, ressalta Patrícia Hochgraf, psiquiatra e coordenadora do Programa de Atenção à Mulher Dependente Química do Hospital das Clínicas de São Paulo. Se as informações quanto aos efeitos nocivos imediatos e em longo prazo estão aí, para todo mundo ver, por que viramos um cálice atrás do outro de livre e espontânea vontade? Segundo a psicóloga Jussara Almeida, do Rio de Janeiro, é um dos custos da emancipação feminina. “Como não dependemos mais do dinheiro do marido, nos sentimos à vontade para gastar com o que bem entendermos. Essa liberdade, muitas vezes, nos leva a agir de modo similar ao dos homens a fim de afirmar a igualdade”, diz. “Ademais, hoje é socialmente aceitável que uma mulher beba, o que não ocorria no passado”, acrescenta.

Pistas antirressaca

Usar o bom senso, então, é fundamental. Quando ele falha, o corpo se encarrega de avisar. Vomitar nada mais é do que uma defesa natural do organismo para expulsar o álcool em excesso. E, quando seu corpo não consegue mais metabolizar o etanol, simplesmente “desliga” algumas atividades, como a retenção de memória. “A amnésia alcoólica é uma constatação de que houve abuso”, diz a psicóloga Neliana Buzi. E, vale lembrar: a mulher que bebe além do próprio limite corre mais risco de ser estuprada, fazer sexo desprotegido, sofrer prejuízos financeiros ou acidente de carro.

E não adianta tomar só um tipo de bebida. O senso comum de que misturar fermentados com destilados é que potencializa o efeito ruim não passa de mito. Segundo Neliana, o que interessa é a quantidade de álcool ingerida. “Existe essa falsa percepção porque o teor alcoólico da bebida fermentada, como vinho ou cerveja, é menor do que o de uma destilada, tipo uísque”, diz. Dos 38,40% da população que admitiram já ter dirigido alcoolizada, 43% o fizeram em baladas e festas antes de pegar na direção, segundo o Levantamento Nacional sobre os Padrões de Consumo de Álcool na População Brasileira, realizado pela Secretaria Nacional Antidrogas e pela Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas, de São Paulo. Não existem estatísticas recentes que relacionem o uso do álcool com mortes no trânsito no Brasil, mas uma pesquisa feita pelo Instituto Médico Legal de São Paulo, em 1999, apontou que cerca de 50% dos casos de morte em acidentes de carro estão relacionados à ingestão de bebidas alcoólicas. Então, é bom pensar nisso antes de pedir mais daquela margarita inocente na balada, concorda?

Hora de parar

Nem sempre é fácil perceber quando a gente anda passando do ponto. A psicóloga carioca Ana Cristina Souza, especializada em dependência química, lista aqui os indicadores mais comuns:

Você acordou com dor de cabeça, enjôo, boca seca e náusea? Cuidado! Essas reações são mensagens que seu corpo envia para avisar que precisa pegar leve na balada seguinte.

Depois da festa, vem o remorso. Ok, arrepender-se de ter dormido com um cara acontece com várias mulheres, mas, se isso acontece sempre depois de uma bebedeira, é provável que o álcool esteja diminuindo sua capacidade de julgamento.

Seus amigos e familiares dizem que você bebe demais e, não raramente, seu chefe reclama das faltas ao trabalho por causa da ressaca.

Se a balada perde completamente a graça sem algumas taças de prosecco, alerta vermelho. Somente sentir-se bem sob o efeito do álcool é um indício de dependência. Melhor procurar ajuda.

Álcool x Espelho

PELE RESSECADA

Como o álcool desidrata o organismo, você pode ganhar rugas precoces. E, como as veias se dilatam, causam vermelhidão nas áreas onde a pele é mais fina – como bochechas, nariz e olhos – e podem, inclusive, se tornar permanentes.

AUMENTO DE PESO

Uma latinha de cerveja tem 147 calorias; uma caipirinha, 360. Sentiu o drama? Para piorar, a ingestão de álcool costuma aumentar ainda mais a sensação de fome no período pós-consumo.

CABELO EM PERIGO

Além de unhas e dentes. O álcool interfere na absorção de nutrientes, mesmo que você tenha uma alimentação saudável.

CARA DE DOENTE

Hipertensão e problemas cardíacos, além de gastrite, síndrome da má absorção, pancreatite, infertilidade, câncer e danos cerebrais, entre outras, são os males mais comuns.

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