Você se acha gorda?

Dez entre dez mulheres perdem o sono por causa do peso. A repórter da NOVA foi entender esse mal

Por que sofremos tanto com a ditadura do corpo perfeito?
Foto: Getty Images

Todo verão o mesmo dilema: vestir biquíni. A insatisfação com a silhueta atormenta toda mulher. E eu sou uma delas, com bumbum e coxas avantajadas. Sempre quis ter um corpo fininho, mas, não faço parte desse time. Certa vez, decidi fechar a boca: cortei tudo o que ultrapassasse 100 calorias. Passei a entrar em manequins nunca antes experimentados, como o 38, até o 36. O problema é que por eles tinha deixado de fazer o que mais gostava, como ir tomar açaí e paquerar. Resultado: fiquei magra, mas doente e triste. Ganhei peso de novo e nunca mais encararei um cardápio tão enxuto. Sem falar que os rapazes pareciam curtir minhas formas naturais. Tenho amigos que garantem que sou “gostosa” e ponto final. Mas eu não deito no travesseiro tranquila.

O mundo diz que as brasileiras são as mulheres mais bonitas do mundo. E cadê a nossa autoconfiança? Essa reportagem me encheu de coragem para entender esse dilema e fazer as pazes com as minhas formas. Para isso, ouvi uma endocrinologista, uma nutricionista e duas psicólogas. Não quero mais perder o sono e a felicidade pelo jeans 38, mas preciso de ajuda.

“VOCÊ NÃO É GORDA”, GARANTE A ENDOCRINOLOGISTA

Deu frio na barriga tirar os sapatos e subir na balança de precisão da endocrinologista Anete Abdo, do grupo Prato (Projeto de Atendimento ao Obeso) do Hospital das Clínicas de São Paulo. Também fiquei tensa quando ela mediu minha circunferência abdominal. Acabei descobrindo que o que existe é uma faixa de peso saudável. Como se calcula isso? Fazendo o índice de massa corpórea, o IMC: peso em quilos dividido pela altura em metros ao quadrado. Só precisa se preocupar quem apresenta resultado superior a 25. “Para você, Paula, as notícias são boas. Você mede 1,73 metro e pesa 66 quilos. Seu índice está em torno de 22,6. E a circunferência abdominal, 70 centímetros. Ele revela o tanto de gordura intraabdominal que você está estocando. Ela fabrica substâncias maléficas para o coração, pois faz com que as taxas de insulina no sangue aumentem demais”, explica. Segundo a médica, a faixa segura para as mulheres é de no máximo 88 centímetros. O que me dá uma bela folga. Em resumo: sou uma pessoa magra e saudável para os parâmetros médicos. O único puxão de orelha que tomei foi por não praticar atividade física.

“OLHO NAS FRITURAS”, ACONSELHA A NUTRICIONISTA

“O desjejum é uma excelente oportunidade para consumir fibras, vitaminas e cálcio, elementos que sua dieta praticamente ignora e são essenciais para o corpo”, avisa. Já o almoço está ok. Quando a conversa chega ao capítulo doces e frituras, ela me lembra que venho de família com histórico de obesidade e diabete. Por isso, meu cuidado deve ser redobrado. Gordura em excesso aumenta o peso e também os riscos de colesterol, pressão alta e até enfarte. Portanto, pé no freio pelo bem da minha saúde.

“CORPO PERFEITO NÃO É PASSAPORTE PARA A FELICIDADE”, ALERTAM AS PSICÓLOGAS

Perguntei a psicóloga Rejane Sbrissa o que havia de errado comigo. Como ainda queria emagrecer 5 quilos se a endocrinologista dizia que eu era magra e saudável? “Paula, provavelmente quando atingir esse objetivo chegará à conclusão de que precisa perder mais 2”, disparou Rejane. Foi um choque, mas… até que 7 quilos a menos não seriam má idéia. “Não adianta buscar no ideal de corpo perfeito o passaporte para ser aceita e amada. Esse sentimento está mais ligado a ser uma pessoa digna e gentil do que a ter um corpo magro.” Trocando em miúdos, sentir-se livre e confiante não é algo que se possa medir na balança. Está dentro da nossa cabeça.

Fomos condicionadas a buscar um aval externo e, como estamos na era do culto ao corpo, essa aprovação vem atrelada à forma física. Querer que alguém diga que você está linda é mais prático do que buscar a razão dessa fraqueza em traumas ou bloqueios psicológicos”, explica Rejane. Outra especialista no assunto, a psicóloga do Hospital das Clínicas Marília Salgado, vai mais longe. “Sem dúvida, é bom sentir-se bem com o próprio corpo. Mas essa busca tem de levar em conta a estrutura anatômica de cada pessoa. O problema é que quando há relutância em entender algum sofrimento emocional torna-se comum transferir as expectativas para um projeto de curvas perfeitas”, fala.

Mas não caia na armadilha de colocar a culpa no padrão. “Só compra essa idéia quem se sente insegura”, diz a expert. A solução para se livrar dessa ditadura do peso-pluma, segundo Marília, é encontrar maneiras de enfrentar os reais dilemas – a carreira estagnada, o saldo bancário apertado, o príncipe que não vem. Acredite: ser mais magra não vai trazer alívio a essas situações. Ao mesmo tempo, tente perceber elementos bacanas no seu corpo. Um colo provocante, pernas suculentas, bumbum de parar o trânsito… Que homem não gosta disso? É preciso aceitar que o que você tem é bonito.

Bem, eu, depois dessas orientações, saí disposta a abrir o peito e dar uma chance verdadeira ao meu corpo como ele é. Por um motivo: nem sempre é possível pesar míseros 50 quilos e ser saudável e feliz ao mesmo tempo. Fora que ficar trancada em casa tomando sopinha de dieta não é a melhor maneira de mostrar ao mundo todo o meu potencial. E você, como pretende explorar o seu?

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