Os ingredientes que fazem o chef André Mifano

Irônico e cheio de surpresas, Andre Mifano volta à TV e ao comando de um novo restaurante

Conseguimos que Andre Mifano deixasse a cozinha por duas horas para falar com a COSMO — mas com seu subchef levando ingredientes para ele experimentar entre as fotos. Estamos em seu novo restaurante, o Lilu, no bairro de Pinheiros (São Paulo). Andre, 40 anos, encarou por 20 dias 12 horas de gravação diárias da terceira temporada do reality show gastronômico The Taste Brasil, que estreou dia 6/4 no GNT. “Foi infernal desapegar do restaurante neste início.” A ideia do Lilu (sem preços exorbitantes, com espaço e cardápio enxutos) surgiu em 2016. Andre conta que faz TV porque seu restaurante enche quando está no ar. Irônico e desbocado, o chef tem suas surpresas: coleciona kits de primeiros socorros, é judeu e do candomblé. Confira o papo com o enfant terrible da cozinha:

 

O assédio aumentou desde que você estreou na TV?

É impressionante. Mas de quem você está falando?

 

Das mulheres.

Não, não. Sou assediado por crianças, acredite! Elas piram, pulam no colo. Quando o programa está no ar, meu restaurante enche e por isso faço TV. Não tem assédio feminino pois sou feio e muito bem casado [Alessandra Corte, produtora de cinema]. A gente se conhece há 15 anos, ficamos oito sem nos ver, nos reencontramos há dois e casamos há um em Las Vegas. Ser chef é diferente de ser ator, DJ… Ninguém vai na cozinha e diz: “E aí, gatão?”. O que rola é ouvir das pessoas no mercado: “O que você está levando?”. Só tenho vergonha de foto, e digo: “Estou com mais vergonha que você. Vamos fazer logo”.

 

Você cozinha em casa?

Sempre. Minha mulher tá p*** da vida porque no ano passado [quando Andre ainda não tinha aberto o Lilu], tinha almoço e jantar em casa todo dia, eu ia sempre ao supermercado… Reclamou que faz cinco dias que ela está comendo carpaccio. Vem comer aqui, pô! [Risos]

 

O que sempre tem na sua geladeira?

Shoyu, missô, kimschi [acelga fermentada coreana]. À noite cozinho arroz na máquina elétrica com uma conserva, um peixe seco. De manhã, coloco uma gema, um pouco de alga e furikaki [condimento japonês].

 

O que a gente não sabe de você?

Sou judeu e do candomblé. Meus pais nasceram no Egito e tenho ascendência italiana. Coleciono canivetes de bolso e kits de primeiros socorros — sempre alguém se corta. Só tenho duas calças e quatro camisetas. A única coisa que tenho muito é tênis porque uma marca esportiva me apoia. Mas gosto de peças legais — uma mala boa, um terno bom —, nisso sou meio gastão. Nasci numa família humilde. Dinheiro não era uma questão porque entrava, comíamos e saía. Não tenho um centavo guardado, nunca tive. Tenho o dinheiro pra terminar o mês. Minha mulher é o contrário, guarda.

 

Qual foi sua primeira tatuagem?

Só fiz a primeira aos 21 anos, um tribal.

 

E a última?

Acho que foi um lobo, mas têm porco, peixe… Nem sei quantas tenho.

 

Como você se descobriu cozinheiro?

Aos 17 anos, decidi parar de estudar e comuniquei minha mãe. Ela falou: “Onde você vai trabalhar?” Na época, o chef Hamilton Mello Junior abriu um restaurante [Mellão, Cucina d’Autore, em São Paulo] na rua do consultório dela.

 

O que ela faz?

É psicoterapeuta. Italiana e judia. Tá explicado, né? Ela contou a história para ele, que disse: “Manda o moleque aqui”. Fui lá e ele: “Quer um emprego? Tá ali a pia”.

 

Então foi por obra do acaso que você virou cozinheiro.

Completamente. Era um inferno, os caras me odiavam, me queimavam de propósito. Na primeira semana, saí chorando. Aos poucos, foram vendo que não estava lá para roubar o emprego de ninguém, fui picando uma cebola, fazendo comida para os funcionários…

Andre Mifano

(Julia Rodrigues/Cosmopolitan)

De lá você foi viajar?

Fui pra Flórida, um amigo tinha uma equipe de corrida e cozinhava para eles. Aos 22, fui estudar na Le Cordon Bleu [a prestigiada escola de culinária francesa], em Londres. Na volta, pensei: “Agora vai ter fila de gente me esperando”. Mas fiquei seis meses desempregado. Aí fui para San Francisco [Califórnia] trabalhar com um colega e passei um ano na cozinha de produção, trabalhando desgraçadamente. Voltei, passei pelo Buttina, trabalhei com o pessoal do All Black, fui subchef do Benny [Novak] no Tappo Trattoria e, em 2008, rolou a chance de abrir o outro restaurante [Vito, do qual era sócio]. Agora, este.

 

A quais programas de gastronomia assiste?

Tem um chamado The Taste… [risos] Sou fã dos programas de sobrevivência, tipo Largados e Pelados. Não estou sendo bairrista, mas não curto os realities de culinária, fora o The Taste. Ninguém tem que ser humilhado e acho que as pessoas tratam a comida com pouco respeito.

 

Mas por que há sempre o clichê do chef tatuado, ríspido?

Quem fez isso foi o Gordon Ramsey no Hell’s Kitchen. Se estou no programa, pego a panela e dou na cara dele, não por me xingar, mas porque jogou comida no chão. Um cara que se diz profissional de cozinha não pode fazer isso. Mas cozinheiros em geral são desbocados pois estão trancados na cozinha. Eu sou tatuado e não vou chorar na TV porque as pessoas acham legal. Me comporto na TV como na vida. Nunca levantei a voz, mas não tenho pena do participante, ele foi ao programa porque quis.

 

Por que a profissão de chef é tão badalada hoje?

Há época para tudo. Na década de 80, foi o videomaker. Nos anos 90, teve a explosão dos publicitários que hoje migraram para a cozinha. Apareceram ícones. Talvez o primeiro programa cool foi o do Jamie Oliver. Aqui, o Alex [Atala] ganhou grandes prêmios. Todo mundo quer ser igual a ele, é o cara mais interessante do mundo: caça, pesca. Mas quantos profissionais vivem de cozinha? É difícil ganhar dinheiro.

 

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