Taís Araújo entrevista a cantora em ascensão IZA

O que acontece quando duas lindas e bem-sucedidas mulheres negras se juntam? Um papo emocionante e importante sobre racismo, machismo e muita conexão.

Com a palavra Taís Araújo:

“Conheci a IZA por sua música. Logo, a imagem dela me atraiu por ela ser negra igual a mim. É incrível ter uma menina parecida comigo — ok, muito mais nova do que eu [risos] — e com aquele talento incrível. Fico muito feliz de saber que ela pode ser uma referência para minha filha [Maria Antônia, de 1 ano]. Aliás, para os meus filhos [Taís também é mãe de João Vicente, de 4 anos]. Quando finalmente a vi falar, enlouqueci: ela é tão preparada, tão bem posicionada, com umas ideias tão bacanas… A IZA tem um posicionamento tão interessante sobre a vida, sobre o meio artístico, sobre ser negra. Ela entende o que representa, sabe? Ali eu vi que, além de ser essa cantora extraordinária, ela é uma artista muito interessante. Por isso, quando a COSMOPOLITAN me convidou para entrevistá-la, nem titubeei, era questão de honra, queria muito escutar e saber mais sobre ela. Espero que você também goste do papo.”

 

Você chegou a sonhar em ser capa da revista COSMOPOLITAN quando era adolescente?

Queria, mas não achava que seria possível. Ficava imaginando: cara, como seria me ver ali na capa da revista. Tinha uma relação de amor e ódio porque adorava as matérias, principalmente das revistas pra adolescente que lia, mas, ao mesmo tempo, tentava fazer os tutoriais de cabelo e nunca dava certo porque não eram pro meu tipo de cabelo. Às vezes, ficava revoltada, mas já tinha o desejo de me ver ali, de me encaixar na revista.

 

Como é se imaginar em um lugar onde você nunca viu ninguém igual a você?

Difícil, bem difícil. As pessoas te lembram o tempo inteiro como não teve ninguém igual a você antes. Por exemplo, fazer uma capa de revista: encaro como um trabalho, um presente grande. Mas, por ser negra, acho que essas coisas têm um peso diferente, uma representatividade, uma afirmação, é um discurso também. Me sinto muito privilegiada de estar nesse lugar. Mais nova eu queria, sim, ver mais meninas nos lugares onde estou agora. Queria ouvir que ser negro é lindo e que eu poderia estar numa capa de revista ou numa festa superseleta. Entendo o peso disso. E não é verdade que não veio ninguém antes de mim. Pô, tem você, Taís! Quando você apareceu, entendi que não tinha nada errado comigo. Eu era a única negra da escola e ali entendi que muitos meninos e meninas me achavam feia por causa da minha cor de pele e do meu cabelo. Isso foi um problema muito sério, minha mãe lidou com isso diariamente por anos. Ela é muito grata porque quando você apareceu nas novelas e nas capas de revista passei a entender que não estava sozinha.

 

Ai, ai, para que não posso ouvir essas coisas!

Mas é verdade!

 

Você sabe que você milita, né?

Opa! Claro que sei.

 

Você sente prazer em ocupar esse lugar de militância?

Muito prazer. Porque sei que é necessário. Seria muita hipocrisia da minha parte estar aqui e fazer a louca, esquecendo tudo o que vivi, sabendo a criança que fui, quanto precisei de representatividade, de gente falando por mim, sabe? Então eu milito, e com gosto.

IZA

(Alex Batista/Cosmopolitan)

 

Fiquei impressionada com você e com o seu corpo no palco. E não falo esteticamente, mas da forma como se movimenta. Você tem uma bunda enorme, linda, e é uma loucura porque você a usa pra caramba em cena.

Tomei posse dessa bunda. Às vezes, a sociedade cria uma história em torno do corpo da mulher negra que é muito limitante. A gente pensa três vezes se coloca determinada calça ou não, por causa da coisa dabunda, isso foi uma coisa
que eu assumi faz uns anos. Amor, eu tenho bunda, entendeu? Faz parte do meu corpo e eu não posso me limitar porque algumas pessoas acham vulgar. Não fomos nós que criamos essa história, tá? Tenho esse corpo por uma questão de ancestralidade e não tenho que ter vergonha disso.

 

Lembro que a gente te recebeu no [seriado] Mister Brau e eu tinha assistido só a um vídeo seu, nunca tinha te visto no palco. Quando vi, saí babando. Pensei: “Caraca, essa menina descobriu uma maneira de usar o corpo dela, da mulher negra, que enche a gente de poder”. Isso é a aceitação plena. Se você vai mexer ou não com quem assiste, já é outra história.

Acho bom que a mensagem tenha chegado dessa forma. Outro dia, na praia, resolvi postar uma foto da minha bunda porque estava linda e me amando. Aí rola toda uma discussão e mensagens dizendo que não preciso disso. Mas quem disse que estou fazendo isso porque preciso? É porque quero! Porque estou plena, minha saúde permite e eu posso.

 

Você começou na internet. Quando essas críticas chegam, consegue receber bem?

Depende muito do dia. Às vezes, estou ótima e nem me dou ao trabalho de responder. Outras, alguém toca em um ponto fraco, não respondo, mas fico remoendo. É preciso entender que as pessoas estão ali na internet para te amar e te odiar incondicionalmente também. Estou ali falando o que quero e elas também. Tem muita gente sem noção, racista e que quer aparecer. Mas existem questões que nunca deixo passar: se tem um comentário racista, eu e a minha equipe tiramos print e vamos resolver essa questão. Outros, como ser feia ou sobre celulite, nem consigo entender como podem ser pauta em 2017. Estou lidando cada vez melhor com isso tudo, mas ainda não estou curada.

 

Qual foi o momento em que você falou “Não quero mais trabalhar nessa agência de publicidade”? Tem que ser muito corajosa!

Comecei como publicitária e trabalhava com edição de vídeo. Via que as pessoas estavam se atualizando, com tesão no trabalho, e eu não estava na mesma pilha. Entendi que minha praia não era aquela. Daí fui ser gestora de mídias sociais no governo do estado do Rio de Janeiro, nada a ver comigo. Depois fui ser gestora de RH, voltei pro marketing e acabei em um coworking, com uma galera autônoma, todo mundo no perrengue. Mas estava feliz, investindo no meu próprio negócio. Aquilo começou a mudar minha cabeça. Toda quinta- -feira rolava uma happy hour, o pessoal pegava os instrumentos da parede e já começava a tocar. Fui me soltando e comecei a cantar. E as pessoas falavam: “Mana, o que você está fazendo batendo ponto aqui? Vai investir na sua carreira!” E resolvi arriscar. Tinha muito medo da dúvida, de passar 20 anos e falar: “Caraca, e se a IZA de 24 anos tivesse feito tal coisa? O que teria acontecido?” Isso ia acabar comigo.

 

Qual foi o dia?

Daqueles com mais uma reunião que poderia ter sido substituída por um e-mail. Pensei: “Velho, o que estou fazendo aqui?” A minha vida estava passando, não estava fazendo nada. Era uma época em que eu via programa de cantores calouros e chorava horrores, até com os que não iam bem. Cheguei em casa e falei: “Mãe, acabou”. Ela era professora de artes e de música. Meus pais sempre me apoiaram. Todo mundo tem alguma coisa a ver com música na minha família. Sempre fz shows na minha garagem e peças de teatro em que cobrava dos meus vizinhos 1 real (nos anos 90 era dinheiro, viu?!). Mas era muito insegura, não achava que era boa, que era fácil.

 

E aí você fez um vídeo?

Criei uma página no Facebook, um perfil no YouTube, tudo na mesma semana. No primeiro vídeo, apareço quase pedindo desculpas pra cantar, sentada, sem olhar pra câmera, acanhada. Era um movimento completamente novo pra mim. Aproveitei a internet e mandei esse material para as pessoas que pudessem me ajudar a viver disso.

 

Tem uma cara de pau que é fundamental, né?

Entendi que sou uma empreendedora, que o negócio é meu. Se vou viver disso, preciso comer no fim do mês e estar tranquila pra poder criar. Vou dar uma dica bem suja aqui [risos]: entrava na internet, via o nome das pessoas que trabalhavam nas gravadoras e mandava pra todo mundo, pra secretária, para o presidente — até que uma hora deu certo. Quando me ligaram, sabia que não era trote porque stalkeei real. Eles queriam marcar uma reunião e eu gelei. Cuidado com o que você pede!

 

Você tem a vida com que sempre sonhou hoje?

Tenho! Não estou falando de grana, só de viver mesmo. Sinceramente, parece que = não estou trabalhando, sabe?

 

Sei [risos], sei bem. Falo que tenho a vida com que sempre sonhei, mas não sabia que era tão trabalhosa.

Às vezes não tem nada pra fazer, mas não consigo dormir porque penso que a Beyoncé não está dormindo. [risos]

IZA

(Alex Batista/Cosmopolitan)

 

Você acha que a Beyoncé sabia que queria se tornar o que é hoje?

O quê? Aquela já nasceu pronta.

 

E você, sabe?

Sei que quero cantar para o mundo inteiro até os meus 90, 100 anos. Pra sempre, até meu corpo não aguentar mais. Então, estou trabalhando pra construir algo sólido.

 

E o que essa IZA de 26 anos diria para a IZA de 15 anos?

Que ela é linda! Ai, vou chorar, menina! Diria que o cabelo, a pele, a boca… enfim [faz uma pausa], que ser negro é lindo. Que saber disso abre portas e não te limita. E que o que ela tem é especial e que não pode guardar mais. Comecei só aos 24 anos por toda insegurança que sentia, da aparência, e acho que sempre me sentia diminuída de alguma forma. Não acho que perdi tempo, pelo contrário: tudo o que fiz na vida, até ser gestora de RH, me ajudou. Mas teria sido lindo ter consciência de quem sou aos 15 anos.

 

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