A busca de Laysa Machado para se identificar com seu corpo

Foi só depois de fazer a cirurgia de mudança de sexo que ela pôde se identificar com o próprio corpo e, finalmente, sentir prazer com ele.

Cresci na Vila Nova Esperança, uma região pobre de Guarapuava, no Paraná, em uma família modesta. Sou de um lugar onde as pessoas construíam as casas onde moravam nos terrenos que havia por ali, de uma forma bem humilde. Por ser desse lugar tão simples, com pessoas tão simples, eu não conseguia aceitar a minha não identificação com meu corpo. Isso não era normal. Protelei, durante anos, pensar sobre a sexualidade. E tentei muitas coisas para afastar esse sentimento, como religião, mas o processo de aceitação foi difícil. Aos 22 anos, depois de me apaixonar, foi que percebi que tinha que fazer alguma coisa. O cara por quem me apaixonei também ficou confuso. Ele via uma mulher no corpo de um homem. Eu não podia mais permanecer daquela maneira. Apesar de não ter namorado esse homem, senti que precisava fazer algo por mim, algo que fizesse com que eu me enxergasse no próprio corpo.

Na época, não havia a possibilidade de fazer a redesignação pelo Sistema Único de Saúde, o SUS. Então, meu objetivo era ir para a Tailândia, um dos lugares aonde muitos transexuais vão para fazer a cirurgia, mas ouvi sobre o Jalma Jurado, um médico de Jundiaí [SP], e decidi procurá-lo. Ele me cobrou 15 mil reais pelo procedimento, além de 3 mil reais em consultas e remédios. Em 2004, depois de três anos de terapia, fui até a cidade para fazer a cirurgia. Não tenho a melhor relação que poderia ter com minha família, somos um pouco distantes, mas pude contar com a minha irmã, que me acompanhou e me ajudou durante o processo.

Quando chegamos a Jundiaí, fui ao consultório e marcamos a operação para o dia seguinte. Não fiz o procedimento em um hospital, e sim na própria clínica. Começamos às 9 horas e às 17 pude ir embora. Depois de receber alta, peguei um táxi e voltei ao hotel, mas havia escadas no local e rompi os pontos. Voltei no dia seguinte, o cirurgião os refez e fui para o hotel. Ao longo do dia seguinte, desmaiei nove vezes. Além disso, precisava ficar 15 dias por ali — caso ocorresse algo, ele poderia ajudar. Mas meu dinheiro acabou, então só consegui ficar sete dias e voltei de ônibus. Eu ainda estava me sentindo mal. Durante a viagem, a sensação se agravou e cheguei a sangrar. Percebi as pessoas me olhando no ônibus, comentando — elas achavam que eu tinha feito um aborto. Nos dias seguintes, comecei a ter febre e percebi que estava com uma infecção. Não tinha com quem falar, não queria ir ao hospital, eu não havia mudado meu nome nos documentos. Liguei para o médico e ele me indicou um remédio. Passei semanas tomando medicamentos, até que comecei a me sentir bem.

Minha recuperação durou pouco. Um mês depois eu estava trabalhando como professora de história, em um colégio periférico chamado Chico Mendes. Tinha passado em um concurso e assumi o cargo. Estava com medo de que o preconceito me impedisse de trabalhar. E estava fraca, tinha dificuldade de ficar em pé, mas não via outra opção. Nesse período, precisamos fazer dilatações, ou seja, introduzir um molde de silicone no canal para manter o formato, constantemente, por volta de três vezes ao dia. Mas não fiz da melhor maneira e um ano e meio depois, quando percebi que o canal vaginal havia perdido um pouco de profundidade, senti necessidade de fazer uma cirurgia de retoque.

Toda a dor do mundo tinha saído de mim e eu pensava que o prazer que sentiria seria psicológico, não corporal. Quando comecei a me masturbar, percebi que, na verdade, é fisiológico, sentia uma coisa boa. A sensação de pertencer ao corpo que sempre senti ter foi uma das maiores realizações da minha vida. Pude vivenciar, enfim, coisas que almejava fazia muitos anos.

Nove meses haviam se passado depois da cirurgia quando comecei a sentir vontade de tentar fazer sexo. Não estava me relacionando com ninguém na época e queria algo impessoal, mas não me sentia segura em dizer que sou transexual. Estava receosa com relação a qualquer besteira que pudesse ouvir, então decidi falar para a pessoa que encontrasse que era virgem. Passei a procurar na internet. O principal critério: não poderia ter um pênis muito grande para eu não sentir dor. Também estava procurando alguém extremamente carinhoso e bonito. Encontrei um homem de Santa Catarina que, com frequência, passava pela cidade onde eu morava. Ele era alto, loiro e lindo. Me encontrou várias vezes e teve muita paciência comigo. No nosso quinto encontro, rolou. Tinha comprado vinho e tudo. Fui ao banheiro e coloquei lubrificante. Ele me deixou muito à vontade, mas eu estava morrendo de medo, minhas pernas fechavam, eu tremia. Com jeito, aconteceu. Senti um pouco dedor, não gozei, mas senti prazer. Depois descobri que ele era casado e fiquei bastante frustrada. Demorei a me envolver de novo, procurava relações fixas. Queria ter prazer e dar prazer. Com esse trauma, fiquei alguns meses sem me envolver com ninguém, até que namorei, por volta de três anos, um outro rapaz, mais novo, com quem me abri totalmente e explorei bastante minha sexualidade.

Conseguir gozar pela primeira vez foi inesquecível. Foi com meu marido, com quem comecei a me relacionar em dezembro de 2007, depois de conhecê-lo em uma balada, quatro anos depois da redesignação. Expliquei que eu era ‘apertada’ e pedi para ele ir com calma. Até que entendi, realmente, que eu tinha que receber prazer. Ir a sex shops e explorar acessórios ajuda muito. Foi importante também esquecer que o homem pode ver minha cicatriz ou coisas assim; ele não vai perceber imperfeições. Abusei das preliminares, deixei que ele explorasse meu corpo, me deixei levar mesmo. Meu maior erro foi pensar sempre só no homem, e não em mim. Então entendi que tinha que pensar na minha satisfação. Sou uma mulher como outra qualquer, com uma vagina, que também serve para o meu prazer, e eu tenho esse direito. Receber sexo oral também é difícil nos primeiros momentos — foi importante saber que não sentiria nada de diferente do que outra sentiria. Por isso, tem que pensar em você.

Quando perdi a vergonha, as coisas fluíram, tudo ficou melhor. Hoje me sinto plena, feliz com meu corpo, sou professora, trabalho como atriz e tenho um canal no YouTube chamado Coisa da Laysa, onde falo sobre questões de gênero, sobre sociedade, educação e como é ser transexual.”

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