“A jornada da minha filha foi breve, mas completa”

Marina Farkas Bitelman, 40 anos, tinha uma vida que seguia normalmente até que sua filha bebê morreu, mas ela superou a perda de um jeito surpreendente.

“Era uma noite tranquila, em São Paulo. Eu estava com umas amigas reunidas na sala, numa segunda ou terça-feira. Uma delas iria casar no sábado e a gente conversava, sem bebida ou som alto. Meu marido colocou minha filha para dormir. Quando elas foram embora, subi no quarto da Sofia para tirar a chupeta, que ela deveria usar somente para cair no sono, e não a noite toda. Era mais ou menos 1 da manhã e ela estava deitada de bruços, do jeito que sempre ficava. Só que estava com a perninha um pouco roxa, eu levei um susto. Então a peguei no colo e chamei o Beto [Roberto Vilela, 41 anos, marido de Marina].

Quando a vi no berço, pensei que ela tivesse engasgado. Liguei para a pediatra, que pediu para a gente tentar uma reanimação na sala de casa. Fomos para o hospital mais perto, não era o melhor. No caminho, pensava que a preferia com sequelas, mas viva, e fui repetindo um mantra de proteção. Lá eles constataram que ela tinha falecido havia cerca de duas horas. Nossa filha sofreu uma morte súbita com 1 ano e 7 meses.

Antes disso, a gente tinha uma vida tranquila. Nos casamos em 2002, depois de um ano e meio de namoro. Sofia nasceu em 2005. Ela era saudável, a gente trabalhava e estudava. De repente tudo parou. Pelo que eu me lembro, a sensação ao receber a notícia é de não ter tido pensamento. Não me desesperei, não gritei. Foi um hiato de tempo.

O que nos ajudou muito a vencer essa etapa foi nossa espiritualidade. Eu venho de uma família judaica e o Beto, de uma católica. Nos consideramos espiritualistas e gostamos do budismo e do espiritismo, religiões reencarnacionistas. Fizemos todos os rituais — velório, enterro, reza judaica diariamente por uma semana e missa de sétimo dia. O Beto ficou um pouco culpado, pois naquele dia ele havia pensado na cama “Será que está tudo bem?” e não foi ver a Sofia. Mas não dava para prever isso, a gente fez tudo o que podia por ela.

Retomamos nossas atividades depois de cinco semanas e voltei a fazer minha pós-graduação em políticas públicas. Cada um reage à morte de um jeito, e me surpreendi muito como encarei tudo. Não sentia uma dor sem fim, como dizem. Sentia tristeza, mas não me transformei em tristeza, sabe? Dois anos depois, resolvemos tirar um ano sabático. O Beto trabalhava com microcrédito [forma alternativa de emprestar dinheiro a pessoas excluídas do sistema financeiro] e eu com economia solidária, mas não estávamos tão felizes. E a gente tinha muita vontade de ir para a Índia… Nessa época, eu já estava mais tranquila com relação ao que tinha acontecido e achava que sair e colocar em prática um sonho antigo iria aprofundar nossa cura. No processo de preparação da viagem, encontramos um casal de amigos que iriam mochilar pelo mundo — o Gustavo Nóbrega, que é câmera, e a astróloga Angélica Ferroni. Ele ficou fascinado com a profissão do Beto e fizemos um projeto para filmar como o microcrédito funcionava no mundo. Cruzamos com esse casal em alguns pontos da  viagem e juntos, nós quatro, visitamos 11 países.

Conhecemos mulheres muito fortes no Nepal e na Índia, que gerenciavam microcréditos em comunidades e comandavam suas famílias. Tivemos muitos insights. Além do documentário, nossa viagem teve foco em melhorar nosso interior. Vivemos em uma comunidade espiritual na Escócia e durante todo o trajeto visitamos muitos ashrams, que são retiros. Um na Índia foi especial, pois a guru dá um abraço para nos energizar. Foi maravilhoso, fiquei em estado meditativo por duas horas.

Voltamos para o Brasil com um material muito bom. As histórias eram ricas, tristes e lindas — e isso mexeu com a gente. O projeto inicial ficou por quatro anos na gaveta, pois não conseguimos captar verba, e fomos fazendo outras coisas. Mas reencontrei um amigo de infância, o Pedro Gorski, que trabalha com cinema. Contei sobre a viagem para ele e para a diretora Juliana Borges, que ficaram animados com a ideia do filme. Decidimos que o foco seria na nossa história e nasceu o documentário Verdade Passageira (facebook.com/verdadepassageira), que estreou em maio.

Sempre tive vontade de falar sobre nossa história, as pessoas conversam pouco sobre luto. Um dos livros que o Beto estava lendo antes de a Sofia falecer era O Livro Tibetano do Viver e do Morrer (Palas Athena), e ele nos ensinou muito. Diz que a melhor coisa que você pode fazer para uma pessoa que está de luto é escutá-la. Com o documentário, quero abrir esse debate. É preciso falar sobre a morte. E nossa história pode ser inspiradora, a gente conseguiu reconstruir e dar outro significado à nossa vida. Isso é possível e pode ser surpreendente. Sinto paz quando falo nesse assunto, mas não sou iluminada, como podem pensar. Sou bem resolvida, é diferente. A morte não deixa as outras coisas mais fáceis.

Tenho e tive outros desafios grandes. Um deles foi passar por mais dois pós-parto, um período muito delicado para a mulher. Na volta da viagem, a maternidade acabou virando profissão — me formei em doulagem para cuidar e dar apoio a mulheres depois de parir. Em 2011 fui mãe de novo, do Daniel, hoje com 5 anos. E depois do Gabriel, de 1 ano. A gente sempre quis ter mais  filhos, não para substituir, de maneira nenhuma. Tanto que falo que tenho três. A Sofia é ainda minha filha. Está sempre muito presente e eu converso com ela ainda.

Nossa vida mudou muito. Hoje, a gente mora na Vila de Serra Grande, que fica entre Ilhéus e Itacaré, na Bahia. O Beto foi chamado para montar uma ONG e não voltamos mais para São Paulo. Aqui, a vida é mais simples, mais pé no chão. Foco em projetos de educação de crianças e encontros de mães e bebês. Estamos fazendo uma casa com construção orgânica, usando o máximo de recursos naturais e locais com menor impacto ambiental.

E tudo o que eu puder fazer para melhorar vou fazer. Com a Sofia, por exemplo, eu era uma mãe que ficava em cima, não me permitia brincar, curtir. Estava sempre preocupada com a próxima refeição, com os programas, com a malinha de passear. Hoje, quando estou com meus filhos, vivo o momento, sem pensar no depois. Estou mais presente por inteiro.

Sofia me ensinou que a vida é agora. É bom pensar lá na frente, mas com o mínimo de prazer no cotidiano. Não dá para fazer planos só para ser feliz depois. A jornada da minha filha foi breve, mas completa, não tenho a resposta da sua ida de maneira tão rápida. Mas a grande certeza que tenho é que ela veio para nos dar amor e para receber amor.”

 

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