“Atrás de todo luto tem uma história de amor”

A jornalista Cynthia de Almeida, 61 anos, mãe de Gabriel, é uma das criadoras do projeto Vamos Falar Sobre o Luto.

O Gabriel viveu 20 anos, a Cecília 4 meses, o Martin morreu um dia antes de nascer. A história deles segue eternamente no coração de quem os ama. E dizer seus nomes, sentir saudade, falar deles é contar ao mundo que, mesmo invisíveis, eles permanecem. A maioria das pessoas que perdeu alguém próximo sabe que falar de seus mortos é bom. A gente só não aprendeu como fazer isso sem constranger ninguém.

É mais ou menos assim: a morte, em qualquer circunstância, deve ser devidamente reverenciada durante o funeral. Por algum tempo, alguns rituais de despedida (importantíssimos) autorizam a expressão da dor de quem ficou. Amigos, família, colegas cercam os enlutados de conforto e condolências. Pouco tempo depois, como é natural, a vida segue. A sua não. Ou, pelo menos, não como você gostaria que seguisse: ao lado da pessoa que partiu. O buraco no coração não fecha, a tristeza se instala e, como na canção, fica “tudo demorado em ser tão ruim”. E é aí que a gente mais queria, mais precisaria falar. Mas não é tão fácil. Nem falar, nem ouvir.

Quando, há um ano e meio, eu e outras seis amigas que passaram por perdas importantes criamos o site Vamos Falar sobre o Luto, sabíamos por experiência própria como era bom compartilhar a experiência do outro e se identificar com ela. “Ah, então não sou só eu que sinto raiva? “Que gosto de lembrar? “Que tem medo de nunca mais ser feliz?” Para saber que não estamos sozinhos e que, mesmo sendo tão singulares, nosso luto tem tanto em comum, precisamos ter licença para falar, aprender a ouvir e quebrar o tabu sobre um tema do qual parece que todos preferem fugir.

Nosso site não é sombrio: é bonito e leve, sem os tons pesados que costumam assombrar o “design” da morte. Não prometemos curar ou tirar a dor de ninguém, apenas inspirar, informar e, principalmente, dividir histórias. Abrimos o espaço e elas vieram: milhares de mensagens, desabafos, reflexões. Depoimentos bonitos e motivadores, relatos duros, tristes ou esperançosos. Confirmamos, até aqui, uma frase linda que uma das nossas colegas, a Mariane Maciel, costuma dizer: atrás de todo luto tem uma história de amor. São todas de amor as histórias que chegam a nós.

Falar sobre esse amor é um gesto de coragem e um aprendizado de duas mãos: para quem sofreu uma perda e para quem quer ajudar algum amigo ou familiar a viver melhor esse processo (lembre-se, luto não é uma doença, não é depressão).

Nosso propósito é compartilhar diferentes experiências para gerar empatia. E repassar coisas muito básicas, como: falar faz bem, mas às vezes vai ser triste e então é ok chorar. Outras vezes vai ser divertido e é ok dar risada. Mesmo quando você está mergulhado na dor, alguns momentos vão ser alegres e você pode dançar sem culpa. É importante respeitar quem não quiser falar. E entender quem não conseguir ouvir. Se quiser confortar alguém, um simples “sinto muito” é melhor que o silêncio. Ou do que qualquer frase boba que comece com “pelo menos…” (pelo menos ele não sofreu, pelo menos vocês podem ter outro filho, casar de novo etc.).

 

Se a gente aprende a expressar e acolher a nossa dor e a do outro, a tristeza do luto não vai ocupar todas as instâncias da vida. Nem vai demorar pra sempre em ser tão ruim.

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