Conheça o M’ana, um serviço de manutenção só para mulheres

Ana Luisa Correard, 28 anos, é fundadora do M’ana, um serviço de manutenção doméstica em que mulher conserta para mulher.

Formada em cinema de animação pela Universidade Federal de Pelotas (RS), Ana trabalhava em uma produtora de vídeo em São Paulo. Já estabilizada no trabalho e morando com dois amigos, um dia um caso extremamente desagradável mudou sua vida: “Sofri assédio. Estava sozinha em casa e o entregador de gás começou a me fazer várias perguntas, tipo ‘Cadê seus amigos?’”, conta. Passado o susto, Ana pensou que, assim como ela, muitas mulheres deveriam passar todos os dias por esse tipo de situação; depois se deu conta de que mesmo morando com mais dois homens foi ela quem sempre consertou tudo que precisava em casa — e aí a feminista e empreendedora que mora dentro dela falou mais alto. Em agosto de 2015, fez um post no Facebook que viralizou. Nele, explicava o caso e a empresa que estava criando, com o objetivo de oferecer serviços de reparo doméstico que vão de manutenção elétrica a montagem de móveis e pintura feitos por mulheres e para mulheres. Era um sinal de que não era só a cineasta que estava incomodada. “Pedi férias do meu até então emprego e meu chefe não quis dar. No dia 1º de setembro me demiti e fiquei com o M’ana”, explica. Nesse mesmo post, conheceu a arquiteta Katherine Pavloski, 28 anos, que também sofreu preconceito trabalhando para construtoras e decidiu largar seu trabalho e virar sócia.

Logo no início, a receptividade das mulheres foi enorme. “Criamos uma relação de amizade com as clientes, já fui até recebida com bolo e café fresco”, diz. Mas nem tudo correu às mil maravilhas, e a reação de alguns homens mostrou como ainda vivemos em um mundo machista. “Recebemos ataques falando coisas como ‘Não reclama se a torneira pingar mais’ ou ‘Vai parecer um filme pornô essa menina entrando na minha casa’. Mas lidamos superbem porque sabemos que estamos entrando em um espaço no qual não somos bem-aceitas e estamos aí justamente para desconstruir esses estereótipos”, diz Ana.

Em menos de dois anos desde a criação, a empresa conta com oito funcionárias especializadas em pinturas, manutenção elétrica e hidráulica, instalação de móveis e drywall. Elas já atenderam mais de 1 500 mulheres. A ideia também se espalhou pelo Brasil todo. “Muitas meninas me pedem dicas e já existem outras empresas como a nossa em Brasília, Salvador e Rio de Janeiro”, diz.

A empresa atende só mulheres, e os motivos são muito bem explicados: “Quando você recebe alguém na sua casa, é comum ouvir ‘Cadê o seu marido?’ ou ‘Eu não vou te explicar porque você não vai entender’. É por isso que, por mais que o marido esteja em casa, nosso primeiro contato é sempre com a mulher, porque sabemos que ela é capaz de entender. Além disso, uma funcionária lá no começo foi assediada por um cliente oportunista”.

Recentemente, depois do crescimento da empresa, Ana decidiu deixar de fazer os atendimentos presencialmente e agora cuida só da parte administrativa, mas se sente muito mais feliz do que no antigo emprego. “Trabalhar com mulheres é muito recompensador, o espaço que a gente tem, o vínculo que criamos é algo que te dá alegria e vontade de trabalhar”, conta. Mas ainda assim sonha com o dia em que o serviço que oferecem seja apenas uma opção, e não uma necessidade: “Para mim, só conseguiremos alcançar essa paridade entre homens e mulheres se lutarmos por ela. Todo dia que colocamos o uniforme, vamos trabalhar e conseguimos empoderar pelo menos uma cliente ensinando a ela aquele reparo e como ela pode resolver em um próximo momento sabemos que é uma vitória”. E, falando em empoderamento, para as manas que sonham abrir o próprio negócio, a dica é bem clara: “Acredite na sua ideia e vá atrás de gente que possa te ajudar, não tenha medo de empreender — é maravilhoso”. A experiência ruim serviu de inspiração para ajudar milhares de outras mulheres a acreditarem em si mesmas através de um serviço feito com respeito, empatia e sororidade. Obrigada, Ana!

 

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