#NiUnaMenos: jornalista da COSMO Argentina conta como as mulheres do país se uniram contra o feminicídio

Na última quarta-feira, a Argentina parou para protestar pelo fim do assassinato de mulheres.

O assassinato brutal de Lucía Pérez na cidade Mar del Plata (em Buenos Aires) foi o estopim. Não foi o único feminicídio do ano na Argentina, e mesmo que não tenha casos mais trágicos que outros, a brutalidade e ira sensibilizaram os argentinos de maneira profunda. Devíamos agir, nos manifestar, dar visibilidade.

Lucía tinha 16 anos. Não a conhecíamos, mas parecia feliz — pelo menos nas fotos. Uma menina sorridente, que gostava de rock, ler e sair com as amigas. Nada muito diferente de qualquer adolescente. Até que viveu um inferno. Lucía foi violentada, agredida e empalada por via anal (uma palavra tão aberrante, que dá medo de dar um Google para ver do que se trata). Seu coração não suportou e parou, uma forma que a natureza achou para salvá-la da dor que estavam dispostos a continuar fazendo com ela. Os dois estupradores lavaram seu corpo, colocaram suas roupas e a levaram para um centro de assistência médica: Lucía já estava morta e lá ficaram detidos.

Segundo a Associación Civil La Casa del Encuentro (que dá assistência a mulheres), a Argentina registra um feminicídio a cada 30 horas, aproximadamente. De acordo com essa mesma ONG, entre o dia 1 de junho de 2015 e 31 de maio desse ano aconteceram 275 mortes violentas. Até agora nesse mês de outubro já ocorreram vinte agressões sexuais que resultaram em morte: ou seja, uma por dia. Segundo uma estatística nacional sobre o crime, na Argentina há uma média de 50 ataques sexuais por dia. Outro dado de uma realidade que nos alerta: a Oficina de Violência Doméstica (criada pela Corte Suprema argentina, que atende em Buenos Aires) recebe 1000 denúncias por mês.

Veja também: #NiUnaMenos Após o estupro e assassinato da jovem de 16 anos, Argentina se mobiliza contra o feminicídio​

Tanta violência mobilizou milhares de mulheres em todo o país. Começaram a pensar em um dia imediato, alguns cartazes e (os grandes aliados nessas chamadas) as redes sociais fizeram o trabalho: 19 de outubro foi a data e #miércolesnegro o slogan. Convidava mulheres a se vestirem de preto, a pararem suas atividades durante uma hora (das 13 às 14 horas) e a se mobilizarem em diferentes lugares do país. A bandeira foi muito clara: queremos elas vivas, marchamos contra a violência machista e os feminicídios.

 

A marcha do guarda-chuva

A água, como uma espécie de purificação, acompanhou toda essa jornada. Não se sabe o número de participantes (muitos homens), mas todos compreenderam que era o lugar que deveriam estar, mesmo debaixo de chuva forte.

A COSMO andou pelos arredores da Plaza de Mayo e do Obelisco e conseguimos alguns depoimentos. O aumento do assédio nas ruas, no local de trabalho, professores universitários e de escolas que fazem comentários inoportunos, a violência cotidiana, namorados agressivos, controladores e os abusos são situações que as mulheres vivem diariamente e são como um alerta.

“É um boca a boca: é ser convidado e participar. Vim com minha sobrinha porque aqui é onde devemos estar”, afirma Gisela. “Ninguém tem direito sobre o seu corpo. Quando tinha 14 anos, chegaram a me seguir em um carro: me enfiei dentro da casa de um vizinho porque não queria que vissem onde morava. Com 13, estava com uma amiga no ponto de ônibus e um homem que passava mostrou seu membro. Ninguém tem o direito de te dizer algo que você não queira ouvir sobre o seu corpo, por mais curta que seja a sua saia ou a foto que você posta. Só você tem esse direito ”, diz Rocío enquanto exibe um cartaz escrito “Não quero seus elogios, quero seu respeito”.

Imagens multiplicadas (a pesar do vento e da constante chuva que aumentou durante a manifestação), gritos, abraços, debates, cantos, amor. Mulheres unidas marchando por nós, nossas amigas, mães, sobrinhas e filhas: para que deixem de nos matar e nos respeitem. Que não hajam mais Lucías que morram de dor, ataques, abusos nem assassinatos para lamentar.

 

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