Sou miss e sou surda, com orgulho!

A deficiência auditiva não foi obstáculo para que a estudante Vanessa Lima Vidal, conquistasse seu sonho: participar de um concurso de beleza

Ela representou nosso país no Miss Beleza Internacional no Japão
Foto: Reprodução Revista NOVA

O grande dia finalmente chegou e me vi perto de realizar um grande sonho: participar do Concurso Miss Brasil. O momento pedia que eu esquecesse as dificuldades e revelasse o melhor de mim. E foi o que fiz ao desfilar confiantemente diante dos jurados. Naquele momento, além de alegria, senti que uma energia positiva fluía por todo o meu corpo e me encorajava. Afinal, eu estava ali porque vencera os preconceitos, me mantivera firme à dieta e desejava receber a recompensa. E ela realmente me foi dada – conquistei o segundo lugar no concurso e a vaga para disputar o título de Miss Beleza Internacional, que ocorreu no Japão. Como se fosse pouco, também fui a candidata mais votada pelo júri popular!

Se a competição, as fotos, os cumprimentos, tudo passou num piscar de olhos, o mesmo não dá para dizer a respeito da minha jornada até aqui. Na realidade, era a segunda vez que eu tentava participar desse concurso. Na primeira, não consegui ser eleita miss Ceará – fiquei em segundo lugar. Mas, quando as inscrições reabriram para o ano de 2008, todos os meus amigos me incentivaram a tentar novamente. Cedi aos apelos da família e decidi concorrer com outras 14 candidatas, todas sem nenhuma deficiência. Ao vencer essa etapa e conquistar a faixa, fiquei muito emocionada – era a primeira vez que uma mulher deficiente auditiva participava de um concurso de beleza em nosso país e chegava lá!

Apesar da felicidade, tudo era novo para mim. Eu teria de me expor para todo o país como a candidata surda. Além disso, as outras moças não conheciam a linguagem dos sinais, que é a forma como eu me comunico. Achei, então, que a melhor saída seria me preparar para valer. Redobrei os cuidados que sempre tive com a beleza, segui a dieta à risca e fiquei ainda mais fiel à academia. Com a beleza em dia, eu me sentia confiante, apesar do problema. Lembro que, na noite anterior à decisão, recebi muitas palavras de carinho de várias concorrentes. Elas diziam que eu era um grande exemplo de coragem e perseverança.

Ali, focalizada pelas lentes dos fotógrafos e sob as luzes dos flashes, pensei em como era feliz, apesar de ter nascido surda. Também recebi muito apoio da família. Como sempre fui magrinha e muito alta, meus amigos viviam me incentivando a ingressar num curso de modelo. No começo, minha mãe se mostrou contra a idéia — temia que eu sofresse ou me magoasse. Quando percebeu que eu levava mesmo jeito, resolveu apoiar minha decisão. Por causa da surdez, precisei frequentar escolas para crianças com necessidades especiais. Ali fui proibida de usar a linguagem dos sinais, porque os professores queriam que eu aprendesse a falar. Eu me dediquei muito até me tornar apta a frequentar um colégio comum. A mudança aconteceu quando eu estava perto de completar 11 anos, e essa passagem foi muito dura para mim. Percebi a grande dificuldade que teria para entender as diferenças de cultura e de comunicação dos ouvintes.

Só quando fiz 13 anos pude aprender minha língua oficial – a dos sinais -, e tudo mudou para melhor. Antes disso, parecia que faltava algo em minha vida. Hoje consigo pronunciar todas as palavras. Algumas com mais dificuldade, claro, porque não escuto e troco uma sílaba ou outra. Mas todos me compreendem. Por causa da minha deficiência, estou sempre provando aos outros que sou capaz de fazer qualquer coisa. Preciso ser a melhor na sala de aula, na hora de desfilar, na prova de roupa. Qualquer coisa que saia errado, logo culpam a surdez. Resolvi partir em busca do impossível e encaro as situações sem medo.

Fora isso, meu dia a dia é normal como o de qualquer mulher. Faço duas faculdades – ciências contábeis, na Universidade de Fortaleza, e letras libras, na Universidade Federal do Ceará. Dirijo meu próprio carro. Adoro, sobretudo, a companhia dos meus amigos. Desde que conquistei o segundo lugar no Concurso Miss Brasil, recebo muito carinho em todos os lugares. Quando vou a restaurantes e me reconhecem, os fãs logo se aproximam, puxam assunto, se interessam por conhecer melhor a minha história. Desejo aproveitar essa repercussão para elevar a comunidade surda e mostrar à sociedade que, apesar da deficiência auditiva, somos capazes de tudo. Almejo, agora, batalhar pela carreira de atriz. Sempre sonhei em fazer um filme ou mesmo uma novela, representando um papel que conheço muito bem: uma jovem surda que resistiu às dificuldades, enfrentou barreiras e conquistou a superação. Acho que estou no caminho certo!

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