Três mulheres contam como foi sofrer assédio sexual no trabalho

Elas, que fazem parte da triste estatística do assédio, dividem suas experiências.

 

Daniela, 34 anos, publicitária, São Paulo (SP)

“Eu era coordenadora, quando entrou um gerente como meu superior imediato. Até eu casar, nossa relação era normal. Mas, depois que casei, ele passou a pedir que eu ficasse até mais tarde para me oferecer carona – morávamos a três quarteirões de distância. E me mandava e-mails com mensagens ambíguas, do tipo `Se você ficar comigo, vai crescer aqui na empresa¿. Mas, se eu falasse, ele poderia dizer que estava louca. Além disso, tinha mania de querer estar em contato quando eu não estava na empresa. Tinha horas que achava que era coisa da minha cabeça. Mas passei a ficar estressada. Pesquisei sobre o assunto e encontrei outras mulheres que, como eu, se sentiam culpadas, pensavam que tinham dado abertura… Passei quatro meses aguentando a situação, até que tivemos uma convenção em outra cidade. No fim da tarde, ele me ligou e pediu um desodorante emprestado. Na hora percebi que era uma desculpa para vir até o meu quarto. Respondi que tinha uma farmácia perto do hotel. Eu nunca tinha contado sobre as investidas dele a ninguém, mas, nesse dia, falei com uma colega. Por sorte, ela estava no meu quarto quando ele apareceu, do nada. Minha colega perguntou o que ele queria, e o cara respondeu: ‘Desodorante’. Depois disso, tomei coragem e fiz uma denúncia na empresa. Eles me chamaram para conversar e falei com várias pessoas, até com o presidente. Só fiquei calma quando ele disse que acreditava em mim. Pediu para rastrear os meus e-mails e eu aceitei. O cara foi desligado em seguida, por justa causa. Antes de ir, ainda me chamou de lado e disse que tinha certeza de que eu o tinha denunciado. Confirmei. A culpa não era minha, era dele!”

 

Nina, 30 anos, assistente comercial, São Paulo (SP)

“Ele era um dos sócios da empresa e sempre fazia brincadeiras grosseiras, do tipo `Só podia ser mulher mesmo¿. Isso quando não comentava o meu visual. Tentei relevar, pensava que esse era o jeito dele. Um dia, após um evento, ele me ofereceu carona. Quando estávamos ao lado do carro, ele me prensou contra a porta e tentou me agarrar, se disse apaixonado e falou que eu só sairia ganhando se ficasse com ele. Pedi para ele me soltar e voltei para o restaurante. Mas ele me puxou pelo braço, pediu desculpas e insistiu na carona. Aceitei e ameacei gritar se ele me atacasse de novo. No dia seguinte, começou: me mandava flores, ligava de madrugada fazendo declarações… Eu dizia que ia sair da empresa, mas, ao mesmo tempo, achava injusto ficar desempregada por causa dele. Fiquei muito agressiva, passei a ser rude com os colegas de trabalho. Então, a outra dona da empresa me chamou para conversar. Contei tudo. Ela ficou assustada e pediu uns dias para decidir o que fazer. Minha ideia era ser mandada embora, mas pediram para eu ficar e me deram um aumento. Foi um inferno. O sócio assediador gritava comigo, me maltratava e reclamava de tudo que eu fazia. Até que quebrei o dedo do pé e me afastei por 15 dias. Na volta, pedi um acordo. Encontrei outro emprego, mas não contei o que tinha acontecido: era um assunto que queria esquecer e achei que, se falasse, seria eliminada na entrevista como ‘Aquela que vai dar problema’. Fiquei traumatizada, passei a evitar o contato com os colegas homens. O meu ex-chefe alegou que só tinha me assediado porque dei abertura. Agora, coloco limite, mesmo nas brincadeiras.”

 

Michelle, 30 anos, coordenadora de RH, Rio de Janeiro (RJ)

“Viajo muito para visitar as filiais da empresa. Na última visita, como de costume, peguei carona com um colega supervisor. Já tínhamos conversado pelo telefone, e ele sempre era engraçadinho, fazia perguntas pessoais, como ‘Para onde você gosta de sair?’ Eu respondia brevemente e voltava ao assunto do trabalho. Aquela era a primeira vez que nos víamos pessoalmente. Ele começou dizendo que só pela voz tinha ficado com vontade de me conhecer e ficava imaginando como eu era, que tinha visto minha foto no WhatsApp do celular da empresa e me achava gata. Fiquei sem ação, desconcertada. E olha que me considero uma pessoa com jogo de cintura. Tentei mudar de assunto: por ser do RH, não queria criar problemas. Mas ao longo do dia ele foi se sentindo mais confiante, chegou a passar a mão em volta dos meus ombros, e tirei de imediato. Ainda assim, o cara não se tocou, me convidou para assistir ao pôr do sol. Respondi que não, que estava naquela cidade para trabalhar. O pior estava por vir: quando foi me deixar no aeroporto, ele me puxou pelo braço e deu um beijo longo no meu rosto. Fiquei sem ação. Quando cheguei em casa, contei ao meu marido. Ele ficou revoltado e disse que eu deveria ter ligado para o meu gerente e contado tudo na frente do cara mesmo. Falei com a diretoria e todos ficaram indignados. Já combinei que não quero mais encontrá-lo e estou evitando qualquer contato. Agora, se preciso enviar um e-mail, tento ser o mais formal possível: assino com um ‘atenciosamente’ e copio o chefe dele.”

 

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