“Uma crise de ansiedade me fez perder a sensibilidade”

A jornalista da cosmo inglesa Jennifer Savin, 24 anos, conta a experiência que teve em um retiro que diz ter a cura para esse mal.

Estou dançando e cantando ao mesmo tempo que tento manter contato visual com seis estranhas em um salão no alto de colinas da Espanha. O ato de fazer essas três coisas ao mesmo tempo já é ruim, e isso sem falar quando vejo meu reflexo no vidro da janela rindo de volta para mim. O que eu estou fazendo aqui? O que nós, meia dúzia de jovens inglesas aparentemente normais, estamos fazendo aqui? Deixe-me explicar.

Nos reunimos em um hotel quatro estrelas na cidade espanhola de Benahavís para passar uma semana meditando, praticando ioga e comendo comida vegana enquanto nos exorcizamos espiritualmente. A razão para essa viagem varia. Tem desde as duas mulheres de 29 anos que acabaram de terminar um relacionamento até a diretora-geral de 30 anos que quer mudar de carreira e está se sentindo pressionada para casar. Ainda assim experimentamos um mesmo sentimento: estamos perdidas e à deriva da vida que pensamos que teríamos. E assim nos reunimos aqui sob a tutela de Stephanie Kazolides, 29 anos, fundadora desse retiro. Procuramos a orientação espiritual e a renovação e porque, como o site do lugar diz, estamos passando pela ‘crise do um quarto de vida’.

Eu tenho 24 anos e conheço bem o
que é ter um colapso nervoso (ou três). No ano passado, fiquei tão ansiosa que perdi toda a sensibilidade do lado direito do meu corpo por uma semana. Médicos me disseram que foi devido a enxaquecas causadas pelo stress ou efeitos secundários da ansiedade e me mandaram pra casa com alguns antidepressivos, que só usei por algumas semanas. Não muito tempo depois, fui para a casa dos meus pais passar a Páscoa e chorei sem parar, me recusando a comer ou sair do quarto por quatro dias seguidos. Eu me lembro de ligar para minha melhor amiga e falar ‘Eu não consigo mais cuidar de mim mesma, é muito difícil’.

Sei o que você deve estar pensando: essa é a vida aos 20 anos. É uma década definida pela bagunça e pelo mal-estar. Bom, sim e não. Toda pessoa com 20 e poucos anos já se sentiu pressionada para ser bem-sucedida, mas minha geração parece estar sofrendo com isso de uma maneira mais forte e rápida do que as anteriores. Os jovens de hoje reportam níveis altíssimos de solidão e desânimo. Existem 3,3 milhões de pessoas entre 20 e 34 anos que ainda vivem com os pais no Reino Unido. Um quarto dos graduados está desempregado um ano depois de ter se formado. Houve um aumento de 165% na prescrição de antidepressivos na Inglaterra desde 1998, enquanto as taxas de automutilação triplicaram. E mesmo assim somos classificados como mimados e indulgentes pela geração que veio antes de nós; gerações que têm casa própria, pensões e trabalhos para toda a vida.

Pois então aqui estou eu, nesse retiro que pode ou não ter a solução. Stephanie fundou o The Quarter Life Health Project no ano passado, quando, após ter se formado na faculdade, teve uma crise que a deixou, assim como eu, na cama. Ela me disse que se recuperou quando sua prima a apresentou à ioga, a comidas à base de plantas e a incentivou a adotar uma abordagem mais holística da saúde. Posso sentir meus olhos revirarem. Mas o fato é que no ano passado ela ministrou sete retiros de uma semana como esse, e recebeu centenas de pedidos daqueles que viram seus panfletos deixados estrategicamente nas aulas de ioga ou leram nos blogs de saúde. O curso estava tão popular que ela teve que deixar de fora 30 pessoas quando o retiro foi inicialmente lançado, ela me conta sentada em posição de índio sob um mar de almofadas de linho branco.

Nós chegamos uns dias antes. Gemma, 29 anos, de Manchester, e eu pegamos uma carona juntas do aeroporto. Ela me contou que dá aula de ioga meio período e trabalha como freelancer de cabeleireira e maquiadora, mas está aqui basicamente para tirar um tempo dos negócios e da vida em família. Eu dividi a beliche no dormitório comum com uma jovem mulher da Nova Zelândia chamada Charla, que também tem 29 anos. O visto inglês dela vai expirar em alguns meses e ela não tem ideia do que fará depois disso. Steph diz que a maioria da sua clientela vem de cidades movimentadas e que estão à beira de um ataque de esgotamento.

Para começar, Stephanie para em frente ao quarto e pergunta: ‘O que sua alma anseia?’ O questionário é para ver quão a mente estará aberta no retiro. As respostas iam desde ‘amor’ até ‘liberdade’, e, quando chegou a minha vez, a palavra ‘companhia’ saiu da minha boca sem eu saber explicar como. Isso é estranho, porque eu saio com meus amigos cinco noites por semana, mas ainda assim normalmente volto para casa sozinha e sinto que alguma coisa está faltando. Quando se trata de homens, sou culpada de afastar todos os decentes, preferindo ir atrás dos que estão praticamente sempre emocionalmente indisponíveis.

Botando pra fora

Durante o retiro, os dias são basicamente os mesmos. Acordamos às 7 da manhã, tomamos café, somos convidadas a entoar mantras, temos almoços vegetarianos, aulas de ioga e ensinamentos sobre o efeito físico do stress no nosso sistema nervoso. E aí, no terceiro dia, algo de repente muda em mim. Numa voz prudente, uma das palestrantes explica que o principal evento do retiro é a performance do ‘inventário mental’ em nós mesmas: desenterrar memórias doloridas para examinar, depois jogar fora nossos sentimentos com o propósito de transcendê-los. É como limpar o seu guarda-roupa, só que você está mexendo na sua bagagem emocional, e não aquelas blusinhas que comprou por impulso. (É um modelo similar aos 12 passos dos Alcoólicos Anônimos, aprendi depois.)

Nos pediram para passar o dia escrevendo uma lista de no mínimo 25 pessoas em relação às quais experimentamos sentimentos negativos. Você pode incluir gente próxima ou que não vê há tempos. Depois precisa fazer uma série de perguntas: ‘O que eu fiz (se fiz) para me colocar nessa posição prejudicial e por quê?’ e ‘O que eu estava procurando ou ganhando com essa situação?’ Além de ‘Qual é a verdade nessa situação?’ Assim eu fui para as montanhas me alongar e escrever a tal da minha lista.

Depois de algumas horas, meu caderno tinha três ex-namorados, uma mão cheia de casinhos, três membros da família, todas as meninas que foram malvadas comigo na escola, mais dois amigos. Descobri que é surpreendentemente fácil desenterrar negatividade em direção à humanidade. E isso, bem, isso é o problema. Olho para a lista e vejo o nome de pessoas em quem não penso há anos. De repente essas experiências antigas (o ex que segurou meu braço contra um radiador até queimar, a garota com sobrancelha fina que jogou pedras em mim depois da escola) começaram, de repente, a estalar ao redor do meu cérebro.

Os problemas associados à maioria dessas pessoas foram arquivados anos atrás. Reconheço que nem sempre perfeitamente, mas eles foram arquivados profundamente no meu subconsciente. E até agora eu estive bem com isso. Mas me vejo brava e triste olhando para esses nomes. É como levantar as tampas de uma fileira de panelas com água fervendo e jogar em você tudo de novo. Somos convidadas a combinar nossas respostas emocionais das situações e dos nomes com uma lista de adjetivos. Podemos escolher palavras como ‘inferior’, ‘invejosa’, ‘julgadora’, ‘hipócrita’ e mais de 20 desses.

Depois temos que escrever ‘uma lição e uma bênção’ aprendida de cada cenário. Eu escrevi o nome de uma conhecida que instantaneamente me faz ranger os dentes. Depois de analisar toda a situação, percebi que era na verdade um problema meu — não dela. E um processo bem intenso.

‘Você teve pesadelos essa noite. Sua respiração estava aceleradíssima’, diz Charla tirando a toalha do cabelo depois de um banho matinal. Agora me lembro. Sonhei que entrei na casa de um ex-namorado, me perdi no escuro e desesperada tentava achar tudo o que tinha deixado pra trás lá. Bateu uma ressaca moral. Mais para a frente da semana, vi que não era a única, já que muitas mulheres começam a chorar durante as sessões de meditação. Quando voltei para o hotel com a esteira de ioga no ombro, vi uma das outras mulheres chorando perto da piscina curvada sobre seu caderno.

O retiro chega ao fim. No último dia, a orientadora pede que coloquemos tudo que tiramos ‘de volta no porão’. Ela nos diz para imaginar nossa vida como um gráfico pizza em que cada fatia (trabalho, amigos, relacionamentos etc.) sai do centro — com o intuito de se sentir preenchida — onde precisamos estar. E desta vez não tenho olhos revirando. Uma por uma, deixamos nossa lista de lições que aprendemos durante a semana e dançamos para celebrar nossa liberdade. Enquanto rodopio pra lá e pra cá com os olhos fechados, a endorfina bate e me sinto muito bem. As outras mulheres fazem promessas que irão continuar meditando e praticando ioga todos os dias — e, pelas redes sociais, parece que continuaram mesmo. Então talvez algumas mulheres precisem de um acampamento para aprender estratégias de enfrentamento. Eu, talvez, não. No avião, voltando para casa, comecei a pensar se a experiência que tive ano passado pode ser classificada como uma crise do quarto de vida — ou se, mais simples, foi só a vida mesmo.”

 

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