Viajar sozinha, por que não?

A repórter Isabel Malzoni se encheu de coragem e embarcou para Europa. Aqui, ela conta por que viajar sozinha é uma experiência pela qual toda mulher de NOVA deveria passar

Viajar sozinha pode ser uma boa experiência
Foto: Getty Images

Não foi fácil decidir colocar a mochila nas costas e encarar uma temporada de quatro meses pela Europa… Sozinha. Tive de vender meu carro para bancar os custos, pedir a um amigo que cuidasse da minha casa e dos meus gatos, entregar os trabalhos pendentes… Fiquei apreensiva. Meus bichanos sentiriam minha falta? As portas da minha vida profissional se fechariam? Os conflitos internos não foram os únicos a me atormentar. Meu pai, que sempre me apoia, ficou preocupado. E algumas amigas questionaram se não seria arriscado ou sem graça pela falta de companhia. Percebi que a decisão deveria ser minha e de mais ninguém – ou não sairia do lugar. Sempre ouvi que viajar amplia os horizontes, aumenta a cultura e coloca gente diferente em nossa vida. Então, por que não? Resolvi trancar as inseguranças numa caixa e seguir meu coração, que dizia “Vai”. Chegar a essa conclusão já foi uma vitória, pois notei que o voo solo ao Velho Continente significaria mais do que uma simples aventura. Impressão confirmada mais tarde pela psicóloga Elizabeth Polizzi, viajante de carteirinha: “É ótimo dividir experiências de viagem com alguém querido. Mas estar só – o que não significa solitária – tem vantagens. Ficamos mais abertas para conhecer gente nova, temos mais tempo para entrar em contato com nossas vontades e sentimentos” fala a expert, que já embarcou só para China, Tunísia, Belize… Se você está ensaiando para arrumar as malas e precisa de um incentivo, venha comigo. E veja os aprendizados que eu e outras bravas viajantes trouxemos além de algumas comprinhas e histórias para contar.

Coragem para topar qualquer desafio

Embarquei rumo a Frankfurt no dia 28 de setembro. Na mochila de 16 quilos, duas calças, dois sapatos, cinco camisetas, três casacos, um sobretudo e um nécessaire. Pretendia conhecer Finlândia, Suécia, Estônia, Lituânia, Dinamarca, Itália, mas não tinha plano definido. Reservei albergues apenas para os três primeiros destinos. Queria estar livre para ir aonde o vento me levasse. Passei por cada situação… Uma delas foi quando um doido veio atrás de mim na saída do metrô de Paris. Entrei em um restaurante chiquérrimo e fui muito bem recebida pelos garçons, mesmo encharcada e descabelada. Eles me acalmaram e depois me acompanharam até um museu. Aprendi que nem sempre dá para se virar sozinha, mas parece que um anjo protetor das viajantes faz com que apareça gente disposta a ajudar.

Para a terapeuta Cristiana Pereira, do Instituto de Terapia Familiar, em São Paulo, ficar só ajuda a exercitar o jogo de cintura. “Quando você pode contar apenas consigo mesma, a saída mais inteligente é acreditar que vai dar conta do recado. Agindo assim, combate o medo. E, ao resolver o pepino, fica com a sensação de superação e independência”, explica. A psicóloga Elizabeth completa: “É natural ter receio do desconhecido. E nada impede que você tome precauções para se sentir segura. Por outro lado, correr riscos, ainda que controlados, traz emoção e a torna mais corajosa”.

A estudante de comércio exterior Isabella Fragoso, de 24 anos, que voou para a Austrália a fim de estudar inglês, também aprendeu essa lição. Três semanas depois de sua chegada à terra dos cangurus, ficou sabendo que não poderia mais morar na casa da amiga de uma amiga que prometeu hospedá-la. Não falava quase nada da língua local e travava na hora de ligar para os telefones dos anúncios de imóveis. Foi quando encontrou um grupo de oito rapazes brasileiros em uma sorveteria. Percebeu que não dava para deixar a vergonha atrapalhar ou… Acabaria dormindo na rua! Tomou chá de coragem e perguntou se sabiam de algum lugar para ela ficar. Eles ofereceram a casa deles. Topou: “Nunca me imaginei convivendo com tantos homens. Meu pai sentiu até raiva de mim. No fim deu tudo certo e aprendi que quem tem boca vai longe”, conta.

Autoconhecimento sem terapia

Outra vantagem de viajar sozinha é economizar a terapia! Brincadeira à parte, nunca descobri tantas facetas da minha personalidade quanto nesse mochilão. A psicóloga Elizabeth explica por que isso acontece: “Quando você está só, longe das referências e influências do dia-a-dia, toma atitudes baseada somente no que você pensa e sente”. Enxerguei isso no dia em que decidi ir embora do norte da Finlândia, por causa do frio. O voo mais barato daquela semana para Estocolmo partiria em quatro horas. Não deu tempo de reservar hotel ou albergue. Fui sem saber onde dormiria. Cheguei ao destino tarde, disposta a esperar amanhecer na estação. Fiquei surpresa ao ver que estava encarando numa boa a possibilidade de passar uma noite inteira sem cama. Aprendi que consigo lidar com situações de insegurança e desconforto melhor do que imaginava!

Outro episódio que valeu por uma sessão no divã? No albergue de Roma, um garoto chegou bêbado e fez xixi no colchão. Vazou tudo na minha bagagem, que estava embaixo do beliche. Fiquei enlouquecida. Mas analisei a situação friamente e decidi que não valeria a pena dar tanta importância a um imprevisto sem consequências graves. Lavei tudo e ponto final. É assim, conhecendo mais sobre você e disposta a encarar o mundo que aprendemos tanto com uma viagem sozinha. Vale. Vale muito a pena!

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