A AIDS ainda não acabou e os dados são alarmantes

O contágio pelo HIV ultrapassou todas as barreiras e ainda hoje é uma epidemia. Você pode não estar escutando nada sobre a doença, mas AIDS não acabou.

“Todo mundo morre e eu também vou morrer”

Foi assim que Nanda, vivida por Julia Dalavia na supersérie Os Dias Eram Assim, ambientada nos anos 80, reagiu ao receber o diagnóstico de HIV. Na época da trama, o vírus era novo e pouco se sabia das consequências que ele traz ao corpo, a não ser, é claro, que pode ser mortal. Desde a descoberta do HIV, já se passaram 36 anos, mas a imagem, o preconceito e o estigma que esse vírus carrega pouco mudou. Gostaríamos de propor um desafio: esqueça tudo que sabe sobre HIV.

A aids nunca deixou de ser considerada uma epidemia. “Novos casos são registrados todos os dias”, diz a infectologista Fabiane El Far Sztajnbok, do Instituto de Infectologia Emilio Ribas e diretora da Gilead Sciences, em São Paulo. Aliás, o hospital no qual ela trabalha desde 2012 coordena uma das pesquisas mundiais mais importantes no tratamento da síndrome. No Brasil, dados do Ministério da Saúde afirmam que em média 41 mil novos casos da doença surgem por ano. Atualmente, cerca de 830 mil pessoas vivem com o vírus no país, afirma a Unaids (Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids). Diferentemente do caso da personagem da trama da Globo, hoje quem se trata consegue atingir o patamar de uma carga viral indetectável, o que significa que as chances de essa pessoa transmitir o vírus são muito pequenas. Essa mudança importante no tratamento para os portadores das IST (infecções sexualmente transmissíveis, nova nomenclatura que substitui a sigla DST) aconteceu. “Foi quando aprendemos a manter a carga viral de uma pessoa que vive com o HIV indetectável. Até então, os médicos tinham pouco a fazer. Conseguíamos tratar infecções oportunistas. Em 1996, foi descoberto que com um esquema de antirretrovirais seria possível deixar a carga viral do paciente indetectável de maneira eficaz e duradoura. A quantidade de mortes começou a cair e o aumento de novos casos se estabilizou”, diz o infectologista Ricardo Vasconcelos, do Hospital das Clínicas de São Paulo.

O HIV está presente em todas as faixas etárias, classes sociais e orientações sexuais. Não é detectável visualmente. Dez anos atrás, a proporção de contágio era de um homem para cada sete mulheres; hoje é de um homem para cada três mulheres, de acordo com o Ministério da Saúde. Quando em tratamento, a saúde e a imunidade estão controladas; quando não, a pessoa pode levar alguns anos para desenvolver algum sintoma.

 

AIDS é diferente de HIV

Explicando de maneira bem simples: HIV é o nome do vírus, aids é o da doença que pode ocorrer devido à queda de imunidade que esse vírus provoca. “O CD4, exame que quantifica a imunidade de uma pessoa saudável, fica entre 500 e 1 500. O de alguém com aids é menor de 200”, diz Ricardo. Ao atingir esse nível, quem está contaminado fica mais suscetível a contrair infecções.

 

Tem que usar

Mas não é porque a medicina avançou que podemos relaxar. A doença não tem cura. Hoje já existem remédios para prevenir o contágio, porém o mais importante aliado (e indispensável) na hora da prevenção continua sendo a camisinha. Uma pesquisa de 2012 do Gentis Panel, empresa de pesquisa de mercado, com mais de 2 mil pessoas, descobriu que cerca de 52% dos brasileiros não usam preservativo na hora do sexo — e caso conheçam alguém que já tenha sido diagnosticado com HIV as chances de optar pela proteção na transa cresce apenas 5%.

É nessa de abrir mão da camisinha que o vírus acabou entrando também em relacionamentos ditos monogâmicos. A pesquisa afirma também que 62% das pessoas que traem raramente ou nunca usam o preservativo no sexo. E quando o parceiro descobre o impacto é muito grande. Por revolta, muitas das mulheres que descobriram a doença por causa de uma traição não procuram tratamento. Por isso que a permanência do preservativo é tão importante. Você pode até ser monogâmica, mas não sabe do outro. É a sua vida que está em risco. “Aids não tem cura, e, apesar de não matar mais precocemente, é preciso entender que é definitiva. Quem a contrai vai, sim, viver uma vida comum, mas não uma vida normal”, afirma Fabiane.

 

Tratamentos preventivos

Além do preservativo, que é primordial em todas as relações, existe um tipo de tratamento feito com medicamento que é capaz de evitar o contágio com o vírus em mais de 90% dos casos. O chamado PrEP (profilaxia pré-exposição) foi liberado no SUS em maio deste ano pelo Departamento de IST e HIV/Aids do Ministério da Saúde e estará disponível a partir de dezembro. Ele é bem simples: consiste em tomar um comprimido por dia de um remédio chamado Truvada. “O alto nível desse medicamento na corrente sanguínea inibe a multiplicação do vírus caso a pessoa entre em contato com ele. Nos Estados Unidos, existem mais de 100 mil pessoas fazendo uso desde 2012”, diz Fabiane. Não são todas as pessoas que poderão tomá-lo de forma gratuita. “O governo entendeu que existem pessoas que têm um risco aumentado em relação ao vírus, como mulheres trans, homens que fazem sexo com homens, profissionais do sexo e casais sorodiscordantes, por exemplo”, diz Fabiane. Para pleitear uma vaga no grupo que pode receber esse tratamento do governo gratuitamente, o paciente deve se submeter a uma consulta com um médico da rede pública. Se não se encaixar, dá para comprar na rede privada. O custo da caixa por mês é de 290 reais e é necessário um acompanhamento médico. O remédio causa efeitos colaterais como gases, enjoo e diarreia, que tendem a desaparecer após o primeiro mês. Se a camisinha estourou, se ela não estava sendo usada na hora da transa, se o parceiro a tirou sem o seu consentimento ou em caso de violência sexual, existe outro tipo de tratamento com 80% de eficácia para evitar o vírus. Desde 2010 o PEP (profilaxia pós-exposição) está disponível no SUS para qualquer pessoa que se sente em risco. Você só precisa procurar um atendimento médico em até 72 horas. Passado esse período, não há mais benefícios. “O paciente já sai do hospital com os comprimidos para os 28 dias”, diz Fabiane. Após essa fase, deve continuar se cuidando em um serviço de saúde cadastrado para fazer a sorologia depois de três e seis meses. Se no primeiro exame o resultado for negativo, é possível que a pessoa não esteja contaminada.

 

HIV positivo

Para saber se é ou não soropositivo, são feitos três exames de sangue. Se o primeiro der positivo, um outro é analisado por dois métodos diferentes. Em caso de positivo, deve-se procurar um serviço especializado. Em São Paulo, existe um aplicativo chamado Tá na Mão, que além de tirar dúvidas a ajuda a encontrar o local mais próximo onde o tratamento poderá ser feito. Desde 2015 os cuidados devem ser iniciados na hora da descoberta. Antes, o CD4 da pessoa precisava estar abaixo de 500 para que o tratamento fosse iniciado. Outro avanço: quem é soropositivo não toma mais um coquetel de remédios, há tratamentos com só um comprimido por dia, para o resto da vida. Toda a medicação está disponível no SUS gratuitamente.

 

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