Por você deveria dar mais atenção ao assoalho pélvico

Você pode nunca ter ouvido falar dele, mas o músculo sustenta órgãos importantes da região abdominal e tem relação direta com o prazer sexual

Cá entre nós, você já sentiu o xixi escapar quando ri ou tosse? Ou segurou tanto a vontade de ir ao banheiro que quando chegou lá a calcinha já estava levemente molhada? Não precisa ter vergonha de admitir, estamos entre amigas e podemos falar: acontece com mais de nós do que se imagina. A vergonha de contar ao seu médico que está perdendo xixi pode subestimar as estimativas que indicam que problemas no assoalho pélvico atingem 10 milhões de brasileiros, sendo duas vezes mais comum no time feminino. E, ao do que muita gente pensa, essa disfunção não acontece apenas em pessoas mais velhas. “Estima-se que cerca de 25% das mulheres de 14 a 21 anos e 50% entre 40 e 60 anos sofram com isso”, diz a fisioterapeuta especialista em assoalho pélvico Laura Della Negra, de São Paulo. Por essa razão, se você passa por esses desconfortos, fazer uma avaliação com um fisioterapeuta especializado é uma boa ideia.

Esse conjunto de músculos e fáscias (uma espécie de tendão) fica no chão da pelve (daí seu nome), entre os ossos púbis e cóccix, formando uma rede. “Ele lembra um funil e tem a função de suportar e sustentar as vísceras abdominais, como a bexiga, os intestinos, o útero e os ovários, e de manter cada órgão no seu lugar, evitando que eles fiquem amontoados”, diz a fisioterapeuta Mirca Christina da Silva Batista, de São Paulo, especializada em reeducação uroginecológica.

No corpo feminino, é perfurado por três tubos: a uretra, a vagina e o ânus, o que faz com que ele permita a passagem controlada da urina e das fezes. “Ele funciona especialmente nos momentos em que há um aumento na pressão dentro do abdômen — quando espirramos, tossimos, movimentamos os membros ou pegamos peso, por exemplo”, explica Laura. Seu papel na gestação também é importantíssimo, já que é ele que fornece o suporte para o feto e ajuda no processo do parto, favorecendo sua expulsão do corpo da mãe. “Atividades vitais, como encher e esvaziar a bexiga e o intestino, manter a postura ereta e caminhar, dependem dele”, diz o ginecologista Carlos Del Roy, chefe do Centro de Assoalho Pélvico do Hospital e Maternidade Santa Joana, em São Paulo.

Cuida bem de mim

Com tantas funções dependendo do bom funcionamento do assoalho pélvico, é de imaginar que se a região não estiver funcionando como deveria, por causa de enfraquecimento ou lesões, vários problemas podem dar as caras. Um deles é a incontinência urinária. O quadro é ainda mais frequente na gestação e após o nascimento por causa do peso do bebê e pelo fato de a musculatura em geral ficar mais relaxada durante essa fase. Entre 40 e 90 dias após a mulher dar à luz, o assoalho pélvico vai se contraindo novamente até chegar ao formato normal, mas existem casos em que a incontinência pode durar mais tempo. “Escapes de gases e fezes também podem acontecer com algumas mulheres”, diz Mirca.

Assim como acontece com o resto do organismo, para manter a musculatura dessa região em dia e reforçá-la, evitando que apresente disfunções no futuro, o mais indicado é exercitá-la. “O assoalho pélvico pode ser fortalecido como qualquer outro músculo do corpo, e isso ajuda a mulher a ter mais qualidade de vida e a melhorar a performance nas atividades físicas e sexuais”, afirma Laura. Mas a ideia não é pedir ao instrutor da academia que prepare uma série para essa região.

Para começar o processo, é feita uma avaliação de uma hora, em média, para que você comece a ter consciência da região e aprenda a contraí-la corretamente para não fazer contração de maneira errada. Depois disso, são feitas sessões semanais de 45 a 60 minutos nas quais o fisioterapeuta ensina a movimentação correta dessa musculatura, e muitas vezes ele usa aparelhos que ajudam a estimulá-la e a mostrar como anda a capacidade de contração dos músculos da região.

“Também fazemos uma análise de como a pessoa se senta, fica em pé, respira e estimula o assoalho pélvico durante as atividades físicas comuns, e é necessário que ela leve as mudanças propostas para seu cotidiano”, afirma Laura, que atende suas pacientes em casa. Depois do tratamento, que costuma ter de cinco a 12 sessões, o ideal é que a mulher continue praticando, assim como faz com os treinos para o abdômen e para os bíceps, por exemplo.

Não é só quando se trata dos escapes de urina que os exercícios para o assoalho pélvico são bem-vindos. “A fisioterapia pélvica pré e pós-parto é excelente para auxiliar a mulher na hora de dar à luz e também depois”, diz Carlos Del Roy. A publicitária Fernanda Decourt, 38 anos, de São Paulo, sabe disso. “Tive incontinência após a chegada do meu filho, que nasceu de parto normal com 4 quilos, e por isso meu médico me indicou esse tipo de trabalho”, conta. Após dez sessões, Fernanda sentiu uma grande melhora no quadro e pouco tempo depois engravidou de novo. Fez cesárea e continua o tratamento para combater a diástase, que é o afastamento dos músculos abdominais durante a gestação, e está muito contente com os resultados.

Assoalho pélvico x sexo: uma relação bem íntima

Exercitar essa parte do corpo também traz muitos benefícios para a vida sexual. Além de ajudar a solucionar casos de incômodos, quando a pessoa sente dor na relação ou solta muitos gases vaginais durante o ato e se sente constrangida por isso, o trabalho pode levar a mulher a sentir mais prazer, ensiná-la a chegar ao orgasmo e deixá-lo mais intenso.

A médica Fernanda Richter Villalobos, 25 anos, também da capital paulista, procurou Laura Della Negra para exercitar essa região porque estava passando por alguns escapes de urina e ainda sentia desconforto durante a relação sexual. E ela está muito satisfeita com o método. “Falar dessa região ou mexer com ela era um tabu, mas depois de dois meses e meio de tratamento minha forma de lidar com essa questão mudou totalmente”, diz.

Fernanda até comprou um dos aparelhos usados pela profissional, que a ensinou a técnica para utilizá-lo em outros momentos do dia, e às vezes até pede para o marido ajudá-la, o que aumentou a cumplicidade entre os dois e melhorou sua vida sexual. “Acho que os médicos deveriam indicar esse tipo de trabalho para suas pacientes, pois se eu soubesse de tudo isso teria começado antes das minhas gestações.”

A artista plástica paulista Virgínia Chiecchi, 32 anos, também sentiu melhoras nessa parte da vida após o trabalho com fisioterapia pélvica. “Eu era bem travada na cama e não conseguia sentir prazer na hora da relação, que muitas vezes era incômoda, mas não sabia como resolver a questão”, conta. Depois de conversar com uma amiga que tinha feito o tratamento após a gestação e tinha percebido melhoras na vida sexual, Virgínia resolveu apostar nesse tipo de trabalho.

“Além de deixar o ato sexual muito melhor, ele foi importantíssimo para eu aprender mais sobre meu corpo e a lidar com ele sem vergonha.” Então, amiga, seja para ter uma vida sexual melhor, seja para prevenir perrengues como incontinência urinária, é hora de colocar o assoalho pélvico na sua lista de cuidados.

Sem exageros na hora do treino

Além de malhar essa região, é preciso ter cuidado ao exercitar outras partes do corpo. Um estudo realizado em 2015 por uma equipe da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) comparou atletas de ponta com sedentárias e concluiu que as primeiras possuíam mais capacidade de contração do assoalho pélvico. Mas as participantes que não tinham o costume de suar a camisa apresentaram uma incidência menor de incontinência urinária.

Outro trabalho da mesma instituição mostrou que esportes de alto impacto, como crossft e corrida, aumentam em nove vezes o risco de o xixi escapar. Especialistas estrangeiros também estão de olho nessa relação. Uma pesquisa de 2016 da universidade australiana de Curtin analisou 90 mulheres que praticavam diferentes atividades físicas regularmente. Elas tiveram a forma de contrair o assoalho pélvico avaliado durante a realização de abdominais e em 25% dos casos o movimento foi feito de maneira errada, colocando em risco a integridade dessa região.

Pompoarismo x exercícios de kegel

você já Pode ter ouvido falar que são a mesma coisa, mas não é bem assim. Eles consistem em movimentos que envolvem contrações pélvicas, mas o pompoarismo tem finalidade estritamente sexual. Nele você aprende coisas como segurar e expulsar o pênis da vagina, gerando mais prazer. Já a fisioterapia pélvica feita com os exercícios de Kegel tem outros objetivos, como evitar e combater a incontinência urinária, mas também pode ter infuência sobre a qualidade do sexo. O importante nos dois casos é que o profissional que oriente os exercícios tenha boa formação e que antes de começar ele faça uma avaliação para trabalhar a região da maneira correta.

Comentários
Deixe um comentário

Olá, ( log out )

* A Abril não detém qualquer responsabilidade sobre os comentários postados abaixo, sendo certo que tais comentários não representam a opinião da Abril. Referidos comentários são de integral e exclusiva responsabilidade dos usuários que escreveram os respectivos comentários.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

  1. Blog Terapias Caseiras

    Dica excelente gostei muito obrigado

    Curtir