Superação: como as redes sociais ajudaram Caroline Ribas na recuperação de um câncer

Ser diagnosticada com linfoma de Hodgkin aos 23 anos não fez Caroline Ribas baixar a cabeça. Ela criou uma página na internet, que a fez sentir útil e a afastou da angústia causada pela quimiote

Foto: Folli Photo

“Sou dessas pessoas que nunca gostaram de ir ao médico. Tenho pavor de hospitais e fazia de tudo para evitar marcar uma consulta. Mas em setembro de 2012 não tive mais como fugir, já que precisava fazer uma operação de desvio de septo. Durante a consulta, aproveitei para perguntar ao médico sobre um carocinho no meu pescoço que andava me incomodando. Ele disse que não deveria ser nada, mas me pediu para fazer alguns exames. Eu achava que talvez fosse uma íngua, das que surgem quando estamos com dor de garganta. Dias depois, ao receber o resultado, fiquei chocada: linfoma de Hodgkin, um tipo de câncer que afeta o sistema linfático e pode ser encontrado nos linfonodos, baço, fígado, medula óssea e outros locais do corpo.

 

Jamais havia pensado na hipótese de um câncer, já que sou nova e não tenho nenhum histórico na família. Mas, depois do diagnóstico, o médico me perguntou se eu estava sentindo coceira nas pernas – só então percebi que sim. Era algo meio inconsciente, mas de fato minhas pernas coçavam muito. Eu não sabia, mas esse, estranhamente, é um dos sintomas – que também incluem sentir muito calor à noite, ter feridas na boca e alguns hematomas que surgem, de repente, pelo corpo.

 

Recebi a notícia no consultório, ao lado da minha mãe. Minha única preocupação foi com ela. Vi seus olhos cheios de lágrimas. Mas, diferentemente do que passa pela cabeça de muita gente, não tive medo de morrer. Aquilo não soou como uma sentença de morte, talvez pelo fato de conhecer um amigo que teve o mesmo problema e hoje está bem. A minha principal encanação era em relação ao que as pessoas iriam pensar. Eu não queria ser lembrada como “a garota com câncer”.

 

O modo como o médico deu a notícia ajudou a me tranquilizar. Descobri que aquele era um dos tipos mais curáveis da doença e o meu estava no início. Mas, claro, não seria fácil. A temida quimioterapia era necessária – seriam quatro meses de remédio na veia e depois mais um de radioterapia. Logo após a notícia e uma cansativa bateria de exames, iniciei o tratamento. Meu cabelo começou a cair, o enjoo se tornou frequente, assim como minhas idas ao hospital.

 

Tive que trancar algumas matérias na faculdade – estou terminando o curso de física na Universidade de São Paulo. Também sou professora e precisei parar de dar aulas de física e inglês. Deixei de lado as voltinhas na minha moto e passeios aos finais de semana. No início, amigos e parentes me visitavam com frequência e me levavam livros e chapéus. Minha rotina era: ler, assistir a filmes e ir ao banheiro para vomitar. Comer foi ficando cada vez mais difícil e emagreci 9 quilos. Mas não me deixei abater. Nem mesmo quando cortei o cabelo. Muitos até elogiaram meu novo visual, diziam que combinava com meu estilo meio roqueiro. Eu gostei, embora dificilmente tenha coragem de repetir o corte.

 

Com o tempo, as visitas começaram a ser menos frequentes. A rotina dos meus conhecidos obviamente não havia mudado por causa da minha doença. Foi nessa hora que descobri quem realmente se importava comigo e dava um jeito de manter contato. Logo chegou a época das férias e eu via, pelas redes sociais, todo mundo viajando, se divertindo, enfim, curtindo a vida… Sempre fui uma pessoa muito ativa, nunca gostei de ficar parada – dava aula em quatro lugares, tinha uma banda, tocava bateria etc. Para mim, essa foi a parte mais difícil. Passei a me sentir inútil, inválida. Mas o que mais me angustiava não era o enjoo, não era a dor no braço por causa da químio nem a minha aparência: era a solidão.

 

Comecei a perceber que compartilhar meu problema me deixava melhor. Mas, como não gosto de falar pelo telefone e não queria repetir a história dezenas de vezes para cada pessoa com quem falava, criei uma página no Facebook para explicar a todos o que estava acontecendo comigo. Postava com frequência as notícias sobre os meus avanços e recebia o apoio de muita gente. Também usava a rede social para me conectar a outros pacientes que estavam enfrentando o mesmo problema. Postava informações importantes, tirava dúvidas, compartilhava experiências. Isso fazia com que eu me sentisse útil. Hoje a minha página tem quase 2 mil seguidores – gente até de outros países curte e comenta! Acabei conhecendo pessoas incríveis, de todos os cantos do mundo.

 

A parte mais gratificante era receber mensagens de quem nem me conhecia pessoalmente e, mesmo assim, torcia pela minha recuperação. Uma senhorinha até pediu uma oração para mim na rádio de sua cidade no interior. Tudo isso me fez perceber como a internet pode ser usada para o bem. Depois dos meses de tratamento, hoje estou curada, mas em período de remissão. Demora cinco anos para se ter certeza de que o câncer não irá mais voltar. Mesmo assim, continuo atualizando minha página – me sinto na responsabilidade de seguir com essa causa.

 

Percebi que o medo que eu tinha de ser lembrada como a “menina doente” não dependia dos outros, e sim de mim mesma. Eu poderia escolher entre assumir o papel de vítima ou me manter positiva e encarar o câncer apenas como algo passageiro. Marquei a segunda opção. Não abaixei a cabeça desde o início, o que transpareceu para os outros ao meu redor. Eu me maquiava, até mesmo dentro de casa. Fiz três ensaios fotográficos, um deles para uma campanha de doação de medula óssea. Me engajei de vez em causas da área da saúde. É claro que, em alguns momentos mais difíceis, minha autoestima era afetada. Mas, com força e determinação, logo me levantava. E, em vez de me esconder, decidi colocar tudo para fora. Me libertei.

 

Me aproximei mais das pessoas de quem gosto. Minha relação com meu pai não era tão boa quanto a que tenho com minha mãe, mas ele passou a me ajudar muito. O mesmo aconteceu com meus irmãos. Aliás, uma cena que me marcou foi quando o caçula trocou um curativo nas minhas costas, resultado de um exame de medula óssea.

 

Escuto amigas reclamando que o cabelo está feio ou que o celular quebrou… Nada disso importa mais. Depois de conhecer gente em situações muito piores que a minha, notei quanto meus problemas eram minúsculos. Eu vi pessoas quase morrendo, mas ainda lutando pela vida. Hoje topo qualquer convite, o que me abriu muitas portas. Além de ter a minha banda, andei me arriscando como DJ. Também não desisto de fazer nada por preguiça, não desmarco a visita a um amigo por causa do trânsito, não desisto de ir a uma festa porque não tenho roupa. Deixei o materialismo de lado e dou mais valor às relações humanas, ao que realmente vale a pena. Tirei desse infeliz acaso uma grande lição de vida.”

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