Como os aplicativos mudaram os relacionamentos atuais

Ficou muito mais prático encontrar o candidato a mozão depois dos aplicativos e das redes sociais. Mas como isso mudou a maneira de a gente se relacionar?

Nunca foi tão fácil colecionar pretendentes. Se os aplicativos de paquera permitiram ampliar exponencialmente o número de possíveis peguetes (no Tinder, estima-se, são 26 milhões de usuários ativos no mundo mensalmente, e o Brasil é um dos maiores mercados da plataforma), as redes sociais (principalmente o Facebook, usado por 117 milhões de brasileiros, e o Stories, do Instagram, com 45 milhões de usuários só no Brasil e 800 milhões no mundo) ajudam na investigação prévia sem dar bandeira (abençoado seja o stalking) e na aproximação — quer coisa mais fácil do que um “Oi, sumido!”? Mas a decepção geralmente vem na mesma velocidade… Assim como dá para descobrir o estado civil e até alguns detalhes pessoais em poucos cliques, podemos também acelerar o compasso da paquera e acabar colocando tudo a perder.

TUDO MUITO MAIS VOLÁTIL?

Um simples “Olar” pode levar do céu ao inferno, incluindo um fora via rede social. Foi assim com a gerente de compras Flávia Paiva, 30 anos, de São Paulo, que se reaproximou de um boy que ela pegava na adolescência após anos de distanciamento. Depois de se separar, ela ficou mais ativa nas redes sociais (quem nunca?) e viu que esse cara também já tinha casado e se separado recentemente. Daí mandou um direct nada despretensioso, contando que também tinha terminado um casamento havia pouco tempo e sabia como isso era difícil. E finalizou com um “Se precisar, estou aqui”, esperando um convite. Que não veio… O cara mandou: “Tranquilo. Vida que segue. Beijos e sucesso”. Primeiro fora pelo Instagram! “Esse é o problema das redes sociais: você nunca sabe como a outra pessoa vai interpretar uma mensagem. Para ele, pode ter sido uma intromissão”, diz.

O toco virtual não é o único pesadelo real — é sempre bom se lembrar de ter cuidado e avisar pelo menos uma amiga para onde está indo e com quem. Tem também o #DateRuim, velho conhecido dos usuários de Tinder e Happn. Afe. E o desconcertante ghosting, aquele sumiço sem nenhuma explicação. Ficou com preguiça só de se lembrar dessa sequência de acontecimentos? Infelizmente, é um sentimento comum associado à paquera online. Essa sensação, meio desesperadora, convenhamos, pode estar relacionada à ideia de que a oferta vasta leva, necessariamente, a encontrar uma alma gêmea. Claro, as possibilidades aumentam, assim como a noção de que sempre podemos encontrar alguém “melhor”, mais gato, mais compatível. E tem a Fomo (Fear of Missing Out — ou “medo de estar perdendo algo”, em tradução livre), uma espécie de ansiedade, maximizada na era digital, já que podemos saber, em tempo real, sobre quase tudo o que acontece em nosso círculo social. O mesmo raciocínio se aplica quando temos ao alcance um gigantesco menu de pessoas disponíveis.

“O ato de comparar um número elevado de perfis pode levar a banalizar parceiros em potencial e reduzir a vontade de se comprometer com um deles”, afirma o pesquisador em psicologia social Eli Finkel, da Kellogg School of Management, em um estudo sobre online dating publicado pela Northwestern University, nos Estados Unidos, em 2012 (sim, alguns acadêmicos já estavam preocupados com isso anos atrás, quando o Tinder ainda nem existia, mas os sites de relacionamento sim). “A comunicação online pode conectar estranhos e aumentar a intimidade entre eles, mas também pode levar a expectativas irreais e desapontamento”, continua a pesquisa. Isso torna o jogo amoroso superficial de ambos os lados. E aí vem aquela sensação de perda de tempo, quando a paquera poderia (e deveria) ser algo divertido, sem compromisso. Como flertar num rolê. Já viu alguém desistir de ir ao bar após um date ruim? E quantas amigas já desinstalaram aplicativos de paquera durante um acesso de raiva?

As pessoas são mais extrovertidas atrás das telas, e isso ajuda muito na comunicação. Por outro lado, vira um mercado em que todos são só mais um rostinho bonito. Muitas vezes, nem isso. E não existe compromisso com nada, porque não estamos cara a cara. As pessoas descartam as outras simplesmente desaparecendo”, diz Virgínia Muniz, 35 anos, turismóloga, de São Paulo. Cansada dessa dinâmica, ela decidiu dar fim aos aplicativos. A gota d’água foi encontrar um cara comprometido que só abriu o jogo porque ela descobriu a verdade (a intuição fortíssima levou a uma investigação básica). Antes de desinstalar, porém, não perdeu tempo e deu match com um pesquisador de outro país. “Como ele ficaria só dois meses no Brasil, achei que, no máximo, ganharia um amigo, porque todos dizem que estrangeiros são muito lerdos. [risos] No fim, deu supercerto, saímos durante todo o tempo em que ele esteve aqui. Foi triste quando ele foi embora, mas sabíamos que tinha um prazo de validade. Continuamos conversando.”

Guess who loves you

SEGUE O BAILE

A volatilidade online pode ser negativa por um lado, mas por outro permite que a fila ande. Então deixe a frustração de lado e encare com mais leveza os encontros e desencontros na rede. A antropóloga americana Helen Fisher, pesquisadora da Universidade de Rutgers, em Nova Jersey, é entusiasta da paquera online. Em uma palestra no TED, em junho de 2016, ela afirmou que as conexões rápidas, na verdade, podem levar a relacionamentos mais demorados e íntimos. Sua tese se baseia na percepção de que, quanto mais experimentamos, maior a chance de entrar em um casamento feliz. Faz sentido. Pense que sua avó e até mesmo sua mãe provavelmente não tiveram tanta oportunidade de conhecer gente diferente, beijo diferente e sexo diferente antes de se comprometer (socorro!). Você, sim. Por que não aproveitar?

A administradora paulistana Mayara Mazaro, 20 anos, acha ótimo usar o Stories e o Facebook para perder a vergonha de chegar junto. Ela encontrou assim o atual namorado. “Ele postou uma foto no Instagram, eu me interessei e comecei a curtir várias postagens para chamar a atenção dele. Até que ele comentou em uma das minhas Stories e começamos a conversar”, conta. “Nas redes, consigo dar sinais diretos, como curtidas e emojis. Pessoalmente, alguns olhares. Se o boy não perceber, fica por isso mesmo”, revela.

Algo parecido aconteceu com a comunicóloga Renata Souza, 30 anos, também de São Paulo. Só que ela foi a paquerada da vez. “Notei que um rapaz visualizava absolutamente todas as minhas Stories. Dava like nas fotos, mas nunca falava nada. Sempre calado, estava ali só de espectador”, conta. “Até que um dia ele resolveu, de forma descontraída, responder a uma delas. Começamos a conversar, sem nenhuma pressão ou segundas intenções. Foi tudo muito natural. Estamos nos curtindo há quase quatro meses.” Renata já usou o Tinder e o Happn e ficou incomodada com a pressa no processo. “Prefiro algo tranquilo, sem o alvoroço e a ansiedade do match.”

Para Lígia Baruch de Figueiredo, doutora em psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, os aplicativos e as redes sociais são um avanço. “Apesar disso, o amor romântico e suas expectativas idealizadas ainda estão presentes”, contrapõe. Ela se refere à expectativa de encontros que dão sempre certo, como nos contos de fadas. Quando isso não ocorre, fica aquele gosto de “deu em nada”. “O que seria dar em ‘nada’?”, questiona a expert. “Nessa lógica, já está implícita a busca da duração, e não a valorização da experiência do encontro”, diz ela, que é autora do livro Tinderellas: O Amor na Era Digital (Ema Livros). Para “otimizar” e evitar esse sentimento de fracasso, o truque é fazer um uso mais racional dos aplicativos e das redes sociais, intensificando o processo de seleção, como numa entrevista de emprego. Mesmo assim, não dá para garantir. Certeiro mesmo é ser paciente na descoberta e desconstruir a noção de que existe um encaixe perfeito. “Relacionamentos não chegam prontos, mas ninguém parece disposto — homens e mulheres — a ‘perder’ tempo conhecendo o outro.” Não importa se estiver na cadeira à frente — ou na sua timeline.

NA SELVA ONLINE

Nada mais chato do que começar a ver o que acontece na vida de quem você segue no Stories e dar de cara com o contatinho pegando outra. Ou o ex curtindo a vida de solteiro. Dá para silenciar, sabia? Feito isso, é só estrear o “Tinder” que fica escondido no Facebook e cair na pista.

Como ignorar o Stories que você não quer ver? Segure com o dedo a bolinha com a foto da pessoa e espere aparecer a opção “Silenciar história”. Rápido e indolor. Quando você silencia alguém, a história não aparece na fila de modo sequencial. Ela fica lá no final, apagada. Se quiser ver de novo, repita o processo e escolha “Reativar o som”.

Como transformar o Facebook em um Tinder? Já ouviu falar no Messenger Match? Essa é a ferramenta de encontros criada por Mark Zuckerberg, praticamente idêntica ao Tinder. Para usar, acesse a página do Messenger Match no Facebook e clique em “Enviar mensagem”. Uma conversa no bate-papo do Facebook será aberta. Na conversa, clique em “Começar”. Depois disso, clique em “Send Location” para mostrar sua localização. O aplicativo começará a mostrar as pessoas nas redondezas. A seleção é por meio de um “Gostei” ou “Não gostei”. Na primeira opção, vocês podem conversar. Na segunda, um novo perfil aparece.

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  1. Gente o Messenger Match é um Chatbot de paquera criado pela Chatbot Maker http://chatbotmaker.io/ e não pelo Mark, ele criou o Messenger.

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