Dor no sexo: o que pode significar

Relações sexuais devem ser prazerosas, certo? Mas para muitas mulheres a penetração pode ser dolorosa, e isso é um sinal de que algo não vai bem na saúde

“Doeu, doeu muito e eu percebi quando estava transando. Era algo agudo, lá em cima, no colo do útero, não era como cólica, que você o sente contraindo. Era diferente e muito forte.” Foi assim que a escritora gaúcha Clara Averbuck, 38 anos, descreveu os sinais da doença inflamatória pélvica (DIP), uma infecção nos órgãos reprodutores. Ela pode ser causada por alguns fatores, como bactérias transmitidas por relações sexuais sem proteção ou mesmo durante procedimentos médicos, como ao colocar o DIU. Também pode surgir como uma complicação causada por alguma doença sexualmente transmissível, como gonorreia e clamídia.

Clara não é exceção. A dor no sexo são tão comuns que até um termo para isso existe: dispareunia, que costuma atingir mais as mulheres do que os homens. Aliás, uma em cada dez de nós sente desconforto no sexo em algum momento da vida, de acordo com uma pesquisa chamada Natsal-3, feita na Grã-Bretanha entre 2010 e 2012 com 7 mil mulheres sexualmente ativas com idade entre 16 e 74 anos. “Vimos que 44% das que experimentam sexo doloroso disseram que evitaram transar no último ano, mas isso diz que 56% continuam a fazer sexo, apesar de sofrerem dor”, disse à COSMO a coordenadora do estudo, Kirstin Mitchell, cientista social, pesquisadora de sexualidade na Universidade de Glasgow, na Escócia.

O que faz isso acontecer

Muitos podem ser os responsáveis pela dor no sexo. Vulvodínia (uma dor incessante na vulva), condições de pele como o líquen escleroso (doença crônica que dá manchas brancas na pele, geralmente na região genital), infecção urinária, infecções sexualmente transmissíveis e endometriose são algumas delas. Diferentemente da cólica menstrual, essas dores podem aparecer em locais distintos. “A relacionada ao quadro de endometriose ocorre durante a relação sexual, quando o pênis toca no fundo da vagina.

No caso da vulvodínia, a dor é localizada na vulva, em pontos externos, e pode ser sentida com o simples contato de uma calça justa ou também ao andar de bicicleta, por exemplo”, diz a ginecologista e sexóloga Vanda Fonteles, do Ambulatório de Sexualidade da clínica ginecológica do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo.

No caso de Marcella Bagano Amador, 29 anos, proprietária de uma empresa de doces e salgados em São Paulo, o que trouxe as dores foi um cisto na trompa. “Comecei a sentir o incômodo logo nas primeiras menstruações, mas na transa é que realmente percebi que havia algo errado. Tinha 15 anos e não podia fazer nada além da posição papai e mamãe que sentia uma dor bem forte na vagina. O mínimo contato já doía”, diz a paulistana. Ela precisou fazer uma cirurgia para remover o cisto e voltar a ter relações sexuais prazerosas.

Já a gaúcha Luana*, 20 anos, estudante de Parobé (RS), sente dores desde os 15 anos, quando perdeu a virgindade. “Achei que tinha a ver com a questão da primeira vez, mas já estava tendo relações pela quinta vez e nada de as dores pararem. É como se meu útero estivesse sendo atacado por uma faca, são dores agudas. Já tentei ignorar e continuar, mas meu parceiro sempre percebe, acabo desistindo de certas posições por isso e é frustrante”, diz ela, que tem adenomiose, condição irmã da endometriose, que faz com que o tecido endometrial cresça na parede do útero. Encontrar um médico que pudesse ajudá-la foi uma tarefa árdua. “Passei por cinco especialistas diferentes, mas só consegui encontrar o diagnóstico por meio de uma ressonância magnética. Já estava com 18 anos, demorei três anos para ser diagnosticada”, conta.

Um problema recorrente, de acordo com os médicos, é o transtorno da dor genitopélvica e da penetração, mais conhecido como vaginismo. Ele causa ardência, desconforto e dor intensa, e essa disfunção psicossomática faz com que a vagina se contraia involuntariamente. “Meu incômodo começou quando eu tinha aproximadamente 27 anos. As dores começaram leves e aumentaram a ponto de eu não conseguir fazer sexo com penetração. Fui ao ginecologista e descobri que estava com uma ferida causada por HPV. Nunca tinha transado sem proteção e aquilo me assustou”, fala a fisioterapueta Morgana Barbosa Silva, 35 anos, de Porto Alegre. Ela passou por um tratamento com ácido e achou que com a cicatrização tudo voltaria ao normal: “A presença da dor era muito grande na minha cabeça e eu acabava me contraindo. Fiz muita terapia, e só este ano me senti totalmente curada. Aprendi a olhar para meu corpo, me tocar. Também fui pela primeira vez a uma sex shop e comprei itens que me ajudaram. No fim, o vaginismo me conectou comigo mesma”.

Muitas mulheres vão se identificar com o relato de Morgana. Além da parte física, o emocional pode estar diretamente associado ao vaginismo, por isso é algo complexo de resolver. “Costumam ser questões orgânicas ou emocionais, como educação restritiva, medo, trauma”, diz Imacolada Marino Gonçalves, orientadora sexual e coordenadora do curso de pós-graduação em educação, saúde e terapia sexual no Hospital Pérola Byington, em São Paulo. Apesar de ser considerado um problema relativamente comum, não há uma estimativa certa de quantas mulheres são atingidas pelo vaginismo; alguns especialistas dizem que o número pode variar de 13 a 17% da população feminina. Mas é incerto e tende a ser maior, já que muitas não falam sobre isso.

De normal não há nada

Sentir dor durante o sexo e não procurar ajuda para resolver o problema pode fazer com que algumas mulheres cheguem a parar, por um determinado tempo, de sentir desejo e satisfação sexual. “No começo, eu evitava as relações, tinha certo medo e não era prazeroso para mim, não conseguia curtir o momento, só esperava que acabasse o mais rápido possível. Com certeza teria um relacionamento frustrado se não tivesse me tratado”, diz Marcella. Mesmo quando há procura por um profissional, é preciso ter uma conversa franca e procurar um atendimento humanizado (a indicação de uma amiga que tenha tido uma boa experiência é sempre um caminho mais certo).

Mesmo assim, algumas vezes as dores podem ser ignoradas pelos médicos, que acabam ligando o desconforto às questões naturais do corpo. “Essas condições podem ser difíceis de tratar, e suas causas, mal compreendidas. É por isso que os distúrbios da dor sexual às vezes são negligenciados ou mal gerenciados. Em alguns países, não existem recursos e competências suficientes para isso”, afirma Kirstin. Não foi o caso de Clara, felizmente. Ela logo procurou sua ginecologista, que diagnosticou e medicou a escritora rapidamente, mas o estudo inglês indica que nem toda mulher busca um especialista para fazer uma investigação. Mas, segundo Kirstin, pouco menos de 45% das mulheres que relatam dor durante o sexo por seis meses ou mais buscaram ajuda profissional no último ano no Reino Unido.

Os tratamentos variam: para casos como o de Clara, antibióticos resolvem. Para Luana, pílulas anticoncepcionais ou uma cirurgia para retirada do excesso de tecido endometrial são soluções. Já para o vaginismo e a vulvodínia, é necessário algo mais extenso, em que há acompanhamento psicológico e muscular. Especialistas trabalham em conjunto nesses casos, promovendo o relaxamento físico com uso de próteses para dilatação da vagina, por exemplo, e técnicas para desenvolver a consciência corporal.

As dores não devem ser naturalizadas e tratadas como algo normal. Sexo não deve doer. Da sua parte, procurar conhecer mais o próprio corpo é bem-vindo e ajuda na procura precoce por ajuda. “Muitas mulheres não sabem que a vagina também precisa de hábitos saudáveis. Dormir sem calcinha e lavá-la no banho, além de estender em local arejado, e usar sabonete apropriado, como o de glicerina ou íntimo, são alguns deles”, diz a fisioterapeuta pélvica Ana Cristina Gehring, de Porto Alegre. Essas atitudes evitam que bactérias se proliferem e fazem com que o pH da vagina não se desequilibre: quando a região fica ácida, por exemplo, a candidíase pode aparecer. Em todos os casos, vale aquela dica da propaganda de remédios da TV: se persistirem os sintomas, um médico deve ser procurado.

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