Histórias felizes de quem acreditou no casamento mais de uma vez

Uma separação não anula a chance de ser feliz. Sempre podemos tentar de novo. E de novo, de novo....

Entrar em um casamento achando que ele vai durar para sempre parece ingenuidade, mas é a condição necessária para investirmos numa relação que implica compromisso, dedicação e paciência em tempo integral. Se fôssemos olhar para os números, talvez não casássemos. Em 11 anos, os divórcios no Brasil mais do que dobraram. Em 2015, data da última pesquisa Estatísticas do Registro Civil, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), 328 960 divórcios foram realizados. Em 2004, ocorreram pouco mais de 130 mil registros. Separações são dolorosas porque representam perdas para todos os envolvidos, mesmo nos casos em que a relação já está falida há tempos. Mas, se não há bem que não acabe, também não há mal que sempre dure. Por mais que a gente se decepcione com o fim e jure nunca mais se envolver novamente com outra pessoa, a tendência é, depois de um tempo, levantar a cabeça e ir à luta.

A mesma pesquisa do IBGE apontou que em 23,79% dos casamentos registrados naquele ano um dos cônjuges era divorciado ou viúvo. “As pessoas têm necessidade de amar, precisam de companheirismo. Daí buscarem uma nova relação após assimilarem a dor de uma separação”, diz a psicóloga Isabel Cristina Gomes, professora do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo e coordenadora do Laboratório de Casal e Família. Medo de ficar sozinha, vontade de reparar o que deu errado e o desejo de voltar a ser amada são motivações para tentar novamente. Se conseguir assumir a própria parcela de culpa na separação, o novo casamento tem mais chances de dar certo. “Temos padrões próprios de relacionamento. E é preciso uma reflexão profunda para não repeti-los”, diz a psicóloga Heloisa Fleury, de São Paulo. As mulheres que você conhecerá a seguir viveram traição, luto e ouviram que não eram mais amadas. Mas nada disso tirou delas a vontade de recomeçar.

 

“Não é porque eu me decepcionei várias vezes que nunca serei feliz”

Ana Paula*, 39 anos, autônoma, ponta grossa (PR), prestes a casar pela quarta vez.

“Cheguei a pensar que não casaria mais. Na verdade, tinha certeza. Depois de quatro casamentos, estava cansada de me decepcionar. Tenho minhas manias e também a rotina de mãe de dois filhos. Não acreditava que encontraria um homem que fizesse diferença até conhecer meu atual namorado. Estamos juntos há dois anos. Aconteceu naturalmente, sem pressão. Diferentemente do meu primeiro casamento, em que eu e meu então marido forçamos uma situação para ficarmos juntos. Eu tinha 20 anos e ele 25. Já namorávamos havia oito anos e minha família não aceitava nosso relacionamento. Decidi engravidar para casar, então. Quando meu filho estava com 4 meses, casamos — no cartório e na igreja. Um ano e meio depois, contudo, percebi que a nossa relação estava indo para o caminho da dos meus pais. Eu trabalhava fora e ele fazia de tudo para eu largar o emprego e me tornar só mãe e dona de casa. Nunca nenhum trabalho meu era bom o suficiente para ele. Vi isso acontecer com a minha mãe e não queria o mesmo para mim. Gosto de produzir, de ter minha independência. Acho horrível ter que pedir dinheiro ao marido para comprar absorvente.

Foram quase dez anos juntos, entre namoro e casamento. Essa primeira separação já me transformou. Casei apaixonada, eu era bem romântica, imatura, mas fui obrigada a amadurecer rapidamente. Ali parei de acreditar no ‘felizes para sempre’. Quando conheci meu segundo marido, na balada, já acreditava no ‘seja eterno enquanto dure’. Foi uma paixão fulminante. Ficamos quase dois anos juntos. Enquanto durou foi perfeito, a única vez em que brigamos foi definitiva. Encontrei comprovantes de motel nas coisas dele e acabou ali. Eu estava grávida novamente. Meu terceiro marido apareceu quando meu segundo filho estava com 4 meses. Começamos a namorar e já deixei bem claro que não tinha interesse em morar junto nem casar. Mas ele foi dormir em casa uma noite, depois outra… foi levando uma peça de roupa de cada vez. Quando me dei conta, já estávamos como marido e mulher. Durou um ano e meio, até eu descobrir uma traição.

Tentei perdoar, mas não teve jeito. Dei um basta. Tive alguns namoros depois dele, mas a verdade é que fui ficando muito chata para me relacionar. Não tinha paciência e não confiava mais em ninguém. Mudei de cidade, saí de Curitiba e vim para Ponta Grossa, e conheci um rapaz mais novo. De novo. A mãe dele não aceitava a nossa relação. Namoramos quase dois anos, até que um dia ele brigou feio com ela por causa disso. Quando cheguei em casa, ele estava com as malas na garagem me esperando…. Mesmo não querendo morar junto ou casar, lá estava eu. Hoje quero um casamento. Será algo mais reservado: nós, familiares e amigos próximos. Meu filho mais novo é apaixonado pelo meu namorado e eu sinto que, finalmente, tenho uma família. ”

 

 

“Casei duas vezes, vou casar a terceira e, se não der certo, caso a quarta”

Fernanda Ubriaco, 33 anos, administradora, são Paulo (SP), que só está na espera do pedido oficial do namorado.

“A primeira vez eu tinha 27 anos e namorávamos havia sete. O casamento foi completo: cerimônia, festa e o vestido dos sonhos. Já tínhamos comprado apartamento, e casar pareceu um passo natural. Não teve pedido, apenas marcamos a data. Foi difícil no início. Por mais que a gente namorasse havia tempos, a rotina de casados e as responsabilidades com a casa exigem muita paciência dos dois. Dias antes de completarmos 1 ano de casados, ele chegou e disse: ‘Olha, estou indo embora’. E eu: ‘Pera aí. Nós acabamos de casar’. Mas ele justificou que já não me amava mais antes mesmo de casarmos. E foi embora. Foi horrível. As palavras dele me destruíram.

Recomeçar foi muito difícil, porque tínhamos amigos em comum, que sempre traziam notícias da vida dele — em pouco tempo ele já estava com outra pessoa. O divórcio saiu quase um ano depois, porque nós entramos em um impasse por causa do apartamento. Por fim, cansada de brigar, entreguei a chave a ele. Fiquei sem marido, sem apartamento e sem emprego — a separação me desestabilizou e eu deixei de render no trabalho. Dois anos depois, casei de novo, sem festa, apenas no cartório. Eu o conheci no Tinder. Era extremamente atencioso comigo e também tinha saído de um relacionamento longo. Como morávamos em lados opostos da cidade, um mês depois ele já sugeriu vivermos juntos. Achamos que podia dar certo esse lance de amor à primeira vista (tinha desenvolvido uma teoria de que namoros longos dão errado quando viram casamento). Mas logo ele demonstrou ser desequilibrado. Só que, como saí do primeiro casamento com a sensação de que não tive a paciência necessária para fazer dar certo, resolvi que tentaria mais nesse. Que faria dar certo.

Ele estava infeliz na carreira e resolvemos passar seis meses nos Estados Unidos. Lá, durante uma briga, ele veio para cima de mim. Não chegou a me agredir fisicamente, apenas verbalmente. Mas foi o suficiente para eu querer voltar na hora para o Brasil. Chegamos aqui e já nos separamos — e foi um alívio. Quando o divórcio saiu, eu já namorava havia quase um ano com meu namorado atual. Tivemos o primeiro encontro logo que saiu a separação de corpos. Nos conhecemos no aniversário de uma amiga em comum. Ele não queria um relacionamento sério e desapareceu algumas vezes. Até que falei: ‘Eu quero namorar. E você? ’ Ficamos dois meses separados e ele voltou dizendo que queria tentar. Faz dois anos que estamos juntos; perguntei quando vamos casar, mas ele diz que não quer acelerar. Depois da primeira separação, tive muito medo de ficar sozinha. Decidi não deixar de viver porque algo ruim aconteceu. Sou teimosa e vou continuar insistindo em ser feliz. Desta vez quero ser pedida em casamento. Vai ter vestido e lua de mel também. Quero algo menor, e ele, festa grande. Mas essa é uma discussão para depois do pedido. ”

 

“Estou no quarto casamento, porque não nasci para viver sozinha”

Selma Pinheiro, 42 anos, vendedora, são Paulo (SP), que quer alguém para envelhecer junto.

“Casei a primeira vez com 16 anos e grávida; ele tinha 28. Não foi um grande choque para mim a vida de casada, porque eu já era muito responsável dentro da casa da minha mãe. Ela trabalhava fora, era separada, e eu cuidava dos meus irmãos mais novos e da casa. Só que, ao casar, parei de estudar para me dedicar à casa e ao filho, além de continuar trabalhando. Éramos muito apaixonados um pelo outro. Tivemos dois filhos e fiquei viúva 14 anos depois, quando ele teve um câncer no estômago. Aos 30 anos eu era mãe sozinha de dois filhos e precisei me virar para sustentar a gente. Fui trabalhar em dois empregos. Ficava quase 16 horas por dia fora de casa, o ritmo era puxado e eu não dormia mais do que quatro horas por noite. Nas folgas, ia ao cinema com meus filhos e dormia na cadeira, de tão cansada. Achei que não encontraria ninguém até que, aos 32 anos, conheci um cara dez anos mais novo que eu, que começou a cuidar de mim.

Ele se preocupava por eu trabalhar muito, passou a me ajudar a pagar as contas e comecei a gostar dele. Mudou para a minha casa e eu aceitei feliz, era uma excelente pessoa. Mas não conseguimos chegar a um ano de casados porque o cuidado que ele tinha comigo se transformou em possessão e ciúme. Acho que me precipitei em casar com apenas três meses de namoro, mas a relação foi boa para me mostrar que eu poderia ser amada de novo. Ele me ajudou a desenvolver confiança para fazer planos e me deu a esperança de ter mais uma vez a família completa. Casei pela terceira vez aos 36 anos. Nos conhecemos numa festa, namoramos por um ano e casamos. Ficamos quatro anos juntos, mas ele não conseguia parar em emprego algum, e eu queria estabilidade, ter mais filhos…. Acabei desiludida. A história acabou em separação, mas a vida amorosa não parou por aí.

O atual marido apareceu no meu destino quando eu tinha 41 anos. Começamos a namorar e, quando percebi, ele já tinha se mudado para minha casa. Foi trazendo as coisas aos poucos, sabe? Estamos morando juntos há um ano e três meses. Ele é cinco anos mais novo do que eu. Se alguém me perguntar, não vou saber dizer se a relação é diferente das anteriores. Só sei que gosto dele no momento. Estou vivendo para ver no que vai dar. Ele também já foi casado e tem um filho. Em toda separação eu dizia ‘Nunca mais quero casar de novo’, e quando percebia já estava casada novamente. Acho que é porque nunca deixei de acreditar no amor. É tão bom ser amada. A gente não está livre de decepções e, às vezes, um amor não dura a vida toda. Se meu marido pisar na bola, continuo na minha meta de ter alguém para ficarmos velhinhos juntos. Porque, para mim, parar de tentar encontrar alguém é deixar de viver. ”

Comentários
Deixe um comentário

Olá, ( log out )

* A Abril não detém qualquer responsabilidade sobre os comentários postados abaixo, sendo certo que tais comentários não representam a opinião da Abril. Referidos comentários são de integral e exclusiva responsabilidade dos usuários que escreveram os respectivos comentários.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s