Agora é a hora: saiba tudo sobre o ator Fabrício Boliveira

Destaque em Segundo Sol, ele comemora a volta a Salvador, sua cidade natal e cenário da trama, e defende a importância da representatividade

Com mais de uma dezena de filmes no currículo, Fabrício Boliveira, 36 anos, foi João de Santo Cristo em Faroeste Caboclo, adaptação cinematográfica da canção de Renato Russo, viveu um dos pacientes psiquiátricos tratados pela revolucionária Nise da Silveira em Nise: O Coração da Loucura, e este ano interpretará Wilson Simonal na biografia do cantor.

Também tem trabalhos importantes na TV, onde estreou em 2006 na novela Sinhá Moça, mas a consagração vem agora, com Segundo Sol, trama das 9 que estreou na Globo ainda em maio. Seu personagem, Roberval, tem destaque entre os protagonistas e é o centro nervoso de uma família disfuncional: criado como empregado na mansão de Severo (Odilon Wagner), descobre ser filho do patrão.

Adepto de uma boa conversa, o ator fala sobre sua vida nômade, o espaço conquistado por ele e outros artistas negros e defende que está mais do que hora de se dizer o que pensa.

Qual é o principal conflito do Roberval, seu personagem em Segundo Sol?

A novela trata de forma madura questões intrínsecas à história do Brasil. O Roberval é exemplo de algo latente na nossa formação como povo, de quem serve e quem é servido. Ter serviçais, empregados sem direitos, que moram na casa do patrão… Isso tem tudo a ver com escravidão. O personagem sai do lugar de miséria, ganha dinheiro e consegue olhar de maneira horizontal para aquelas pessoas. Com isso, discutimos diferenças sociais e privilégios. Roberval é de agora, ele responde aos anseios atuais.

Que anseios são esses?

São muitas coisas misturadas. No macro, acho que é uma discussão sobre como a gente trata o outro. Estamos cheios de achismos, pouca escuta, pouco estudo, deixamos de olhar ao nosso redor e não vemos que dividimos o mesmo espaço. Se eu estou bem e o outro não, como posso viver em paz? O Brasil é feito de extração, não conseguimos nos unir porque estamos sempre passando a perna uns nos outros. Vem desde como os índios foram dizimados. Como equalizar isso é um ponto importante. O texto do João Emanuel Carneiro [autor da novela] é cheio de minúcias, todas as falas querem dizer algo mais.

Gravar em Salvador tem sido uma volta para casa?

É como entregar um presente para a minha cidade. Lá me formei, construí meu caráter. Aluguei um apartamento e cheguei antes para ficar mais tempo me concentrando. A novela vai além do estereótipo do que é lindo. Mostra a cidade por dentro, que é urbana, misturada, com a ocupação do espaço público, as picaretagens, os traumas, coisas que estão em muitas capitais e que conectam Salvador ao mundo. E eu volto trazendo a visão do cara que ficou muito tempo fora. Faz três ou quatro anos que estou morando em lugares pelo mundo. Sou um taurino apegado e me provoquei a ficar sem casa. Morei no Piauí, em Amsterdã, na China, em Minas, Nova York, Recife… Estive em lugares incríveis e foi interessante para entender o que eu quero além dessa reprodução mecânica de casa linda e casamento.

Em que momento dessa vida nômade se encaixa a volta a Salvador?

Tenho a minha família baiana e a família que são meus amigos pelo mundo. Tenho um molho de chaves inacreditável. [risos] Agora, estou construindo uma casa em Salvador, entendi que quero me estabilizar lá, enraizar para que cresçam mais galhos.

Se estabilizar inclui constituir uma família?

Estou andando, conectado comigo. Relacionamento só vai vir se for muito gostoso. Estou tranquilo sozinho.

Ter destaque em uma novela das 9 da Globo é visto por muita gente como o auge para um ator brasileiro. Como você encara isso?

Sou um cara que sonha bastante, mas tenho poucas expectativas. Vivo o aqui e agora. É um grande trabalho por causa da visibilidade e da possibilidade de tratar temas. O que mais me interessa é estar na casa das pessoas, ter muita gente conectada, então é importante que o conteúdo seja preciso. Temos um excesso de informações, então elas precisam ser claras.

Como você vê o espaço que os atores negros têm na TV?

É um momento que me deixa feliz por estar acontecendo essa discussão. Eram questões que levantávamos sozinhos, eu aqui, um outro ator ali e outro em outro lugar. Agora está na boca de todo mundo. Estamos em um momento de transformação, observação e ação. Temos que seguir juntos, fazer as coisas serem mais igualitárias, ninguém em cima, ninguém embaixo, horizontal. Ainda temos um longo caminho. É uma evolução do lugar social, do olhar. Na TV, no cinema, no Supremo Tribunal Federal, na Presidência, precisamos de mais presença negra.

Você se considera uma inspiração para jovens artistas negros?

É uma relação de inspirar e ser inspirado. Fiz uma performance sobre o músico Itamar Assumpção em 2010, e antes nunca tinha ouvido falar dele. Fiquei louco, apaixonado, hoje é o meu herói. Talvez eu fosse um homem mais forte se o tivesse conhecido aos 15 anos. Tem poucos negros na TV e pouco acesso às outras obras que produzimos.

Você acha que o sucesso do filme Pantera Negra (que bateu recordes e arrecadou 1,3 bilhão de dólares no mundo) é um sinal de que o público quer ver mais artistas negros?

É uma prova dos desejos e anseios do público. Tem gente com vontade de transcender. O que queremos ver no cinema? Esse sucesso de Pantera Negra é a resposta. O público está querendo rever esses lugares e está exigente. Quem está sendo representado? Qual é o ponto de vista? Para onde a câmera está apontando? São perguntas que o público vem fazendo. Vi um pouco disso com Faroeste Caboclo (2013). Viajei o mundo com o filme, foi incrível a força desse novo olhar sobre o negro. A câmera chegando a quem estava no canto, e sem estereótipos.

Falando em cinema, este ano você interpretará Wilson Simonal nas telonas.

Sim, é um dos quatro filmes que estreio em 2018 [além de Simonal, de Leonardo Domingues, ele está em Tungstênio, de Heitor Dália, Além do Homem, de Willy Biondani, e Miragem, de Erick Rocha]. Mergulhei na história do Simonal, estudei muito, estive com a família. Mas o mais inusitado foi viver o drama do negro rico, a psicologia negra sem a questão social envolvida. Ele era alguém que chegou lá, suas questões eram outras, os erros e acertos de um cara que foi considerado um delator e cumpriu a pena do ostracismo.

Você se expressa politicamente nas redes sociais. Acha isso importante nos tempos atuais?

Minha arte tem a ver comigo. Faço qualquer personagem, mas o conteúdo tem de ter a ver com aquilo em que acredito. Artistas têm antenas conectadas com todo mundo, estou aberto para todos e não quero estar distante das coisas que sinto, que escuto, e sobre as quais converso. Eu me interesso, pergunto, paro para ouvir. Então, uso minhas redes sociais para ser um ponto de reflexão. Temos muitas maneiras de nos expressar na internet, mas falta escuta. Por isso os haters não valem nada, só falam, não escutam. O caso da Marielle [Franco, vereadora do Rio de Janeiro assassinada em março] trouxe ainda mais responsabilidade para o que falamos, como falamos e com quem falamos. Precisamos abrir os olhos para o medo que temos de nos colocarmos. E isso tem a ver com o que cada um viveu. Estamos vendo gente que estudou em boas escolas dando bola fora. Porque quem mora na cobertura fala por quem mora na cobertura. Quem não é representado tem que parar de ser sufocado, parar de se esconder. O lugar de fala precisa ser assumido.

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