Camila Pitanga: “Tem de ter tesão pela vida, pelo trabalho e pelo sexo”

Durante uma volta de carro com a diretora da COSMO, a atriz abriu o jogo sobre amor, sexo, política e família

Camila Pitanga é mulher inquieta. Dessas que seguem dando entrevista dias depois da entrevista em si, que mandam mensagens de áudio com ideias, conversas. Ela é uma mulher que escuta, que fala, que olha no olho e olha o mundo. No dia em que estava escrevendo este texto, recebi dela uma mensagem que dizia ter tido um ano sabático, de mergulho pessoal, depois da tragédia da morte de Domingos Montagner durante as gravações da novela Velho Chico.

Mas não foi um sabático como eu imagino. Camila foi a Madri fazer um workshop para atores com o cara que prepara Javier Bardem, fez aulas de canto, de dança (essa com a junto com a mãe, Vera Manhães), se juntou às filósofas Marcia Tiburi e Djamila Ribeiro e a outras atrizes da Globo num grupo que discute feminismo, lançou Pitanga, documentário sobre o pai, o ator Antonio Pitanga, que codirigiu com Beto Brant, e viajou para vários festivais no mundo.

Uma amiga querida em comum, a atriz Taís Araújo (<3), tinha me dito que Camila era uma mulher muito especial e eu não me conformava que ela nunca havia sido nossa capa. Como sororidade tem sido um assunto importante, perguntei pra Camila da rivalidade que sempre gostaram de dizer que havia entre as duas. A resposta foi bem definidora da personalidade dessa geminiana que diz não entender de signos: “Conheço a Taís há muitos anos. Fico até com os olhos cheios d’água porque há admiração e respeito e sempre soubemos que temos uma à outra. Trabalhei tantas vezes com o marido dela [o ator Lázaro Ramos], que é meu irmãozão e que já trabalhou também com o meu pai. É preciso desmitificar essa ideia de rivalidade. Somos duas mulheres para irradiar caminhos, atalhos. Ninguém está tirando o lugar de ninguém. Tem uma mulherada negra poderosa abrindo o cenário, os espaços, semeando: a Iza, a Lellêzinha, a Karol Conka… Eu me sinto em processo de semeadura”.

Camila está plantando mesmo um mundo mais legal para todas nós, mulheres. Vem junto?

Qual é a maior vitória da sua vida?

Ver as minhas filhas, as minhas meninas Antônia, de 10 anos, e Maria Luiza, de 19 [Maria Luiza é filha do primeiro marido de Camila, o cineasta Cláudio Amaral Peixoto, pai de Antônia, e ela a considera igualmente sua filha].

Que mundo espera deixar para elas?

Um mundo de igualdade, amor, olho no olho, sinceridade, de vida em rede. É tão mais bonito e fortalecedor você crescer e se desenvolver sabendo que tem uma galera do lado junto. Qual é a graça ficar no topo da montanha sozinho? O momento está puxado, mas eu acredito. Temos de conversar com essa juventude maravilhosa, que sabe de si, que pensa no seu país e que pode reconstruir tudo de novo. Acredito em fazer mais e fazer totalmente diferente.

O que é o amor para você, Camila?

Ah, só isso, né? Só o que é o amor. O amor é o que conecta as pessoas. Ele pode transbordar em paixão e pode ser perenidade também. O amor depende do momento da vida de alguém. Mas é uma força de conexão.

Você está amando?

Estou amando a vida. Não uma pessoa exatamente.

Há pouco, você passou por um momento difícil (Camila presenciou a morte de seu colega de elenco, o ator Domingos Montagner, em 2016, no intervalo das gravações da novela Velho Chico, que faziam juntos). Quando acontece algo punk com você, o que faz para superar e seguir adiante?

Várias coisas. Procuro me conectar com a natureza, sentir o sol bater no meu rosto e estar com as pessoas que amo. Quando você passa por um susto, por uma coisa trágica e forte, você redimensiona o que tem de mais delicado. Então acho importante a conexão com a delicadeza do tato, do sentir, do cheiro. É algo que independe de grana. É importante ainda não negar o que aconteceu e enxergar a beleza que isso pode trazer: criar um canal de percepção do sutil, do precioso. De percepção da vida. São coisas muitos simples, mas que me alimentaram e continuam me alimentando.

Há dez anos, fiz uma capa contigo para outra revista onde trabalhei e achei você hoje mais leve do que naquela época, quando tinha 30 anos. Como foi fazer 40?

Meu aniversário de 40 anos foi reflexivo. Não foi uma virada de ano. Normalmente, gosto de festejar, celebrar a vida, dançar. Mas desta vez não foi assim e nada teve a ver com a idade, mas sim pelo momento de vida que estava atravessando. Precisava baixar a bola e de um tempo de mais conexão com meu interior.

Conseguiu se conectar?

Sim. Eu sou muito “para fora”, e às vezes acho importante termos um lado mais sereno e contemplativo. Ao mesmo tempo que preciso da dança para expandir, para mexer o corpo, gosto do estado de meditação. Agora que estou solteira, ouvir música tem sido uma grande companhia. Me conectar com o que as pessoas estão dizendo me faz bem.

O que é o mais perto da felicidade para você hoje?

Ver as realizações das meninas. Acho demais quando a Maria Luiza me mostra o êxtase dela em ser reconhecida por um trabalho da faculdade. A Antônia também tem uma vibração que me entusiasma. Isso é um superalimento para mim. Gosto ainda de ver o tesão que meu pai tem pela vida. Mas volto à mesma tecla: dançar, estar com os amigos, mergulhar no mar ir ao cinema e ao teatro e depois voltar a pé para casa, conversando, sentindo o tempo que entra e atravessa você, são coisas que me trazem um estado de felicidade. A felicidade são lampejos. Você sente.

Sempre ouço dizer que “a Camila é uma mulher densa”, como se isso fosse um defeito. Mas tenho a sensação de que você se posiciona porque fazem perguntas a você, por exemplo, sobre política. Não vejo as pessoas te perguntando quem corta seu cabelo…

Fazem essas perguntas, sim. Mas acho que nos últimos dois anos ficou inevitável falar de política. Tudo o que aconteceu nos tirou de uma bolha de falsa tranquilidade. Porque, por mais que a periferia tenha tido ganhos sociais nos últimos tempos, a violência e o racismo continuam. Estamos falando mais sobre essas coisas ruins e isso está sendo importante. É como se tivessem tirado uma cortina, uma lente de certo romantismo que existia pelas conquistas que tivemos, mas que encobria uma série de contradições que não foram superadas. Não superamos a desigualdade social. Precisamos falar sobre isso, e eu não sou a única a falar.

Em fevereiro, você foi xingada pelo seu posicionamento político em um shopping, ao lado de sua filha. Como lida com esse tipo de ódio?

Não há fórmula. Quando isso aconteceu, me assustei. Não faz sentido você defender uma ideia agredindo alguém. Essa pessoa está agindo de maneira irracional e falando de outras coisas, que são dela.

É mais sobre ela do que sobre você.

Muito mais sobre ela. Estamos vivendo um processo: as máscaras estão caindo e as pessoas estão vomitando seus preconceitos. Isso nos faz pensar sobre eles. E eu quero conversar a respeito. Me interessa que possamos conviver sendo diferentes. Mas não é uma coisa que se explique. É um movimento, e ele não começou nos últimos dois anos. Tem a ver com a história do país. Agora, com tanta dor e retrocesso, temos a chance de fazer uma virada radical. Não estou falando de violência, mas de se colocar de outra forma, que ainda não sei qual é.

Quando você lê Angela Davis, é esse o tipo de resposta que procura?

Sim. Para mim, ela é um ótimo exemplo porque, em seu ativismo, fala o tempo todo de resistência Ela é supercrítica, uma pensadora do nosso tempo. Mas nunca perde a perspectiva do ser humano, e principalmente da mulher negra, sem se vitimizar. Ela fala da dor, mas não de dor setorizada. Ela fala sobre a Palestina, critica o capitalismo, abre a discussão de maneira poderosa. É inspiradora.

Qual é a característica que mais admira em um homem? Se você tivesse que dizer “tenho um tipo”, qual seria?

Tesão. Tem de ter tesão pela vida, pelo trabalho e pelo sexo. Ter entusiasmo.

Na COSMO, falamos cada vez mais sobre como o sexo é importante para a mulher. Um tempo atrás, fazíamos reportagens do tipo “como enlouquecer o seu homem”, focando o prazer masculino. Hoje, o tom é outro.

Essa virada é fundamental. A mulher tem que gozar, sentir prazer e se conhecer. Mas não são só as mulheres que não se conhecem — os homens também não. Precisamos quebrar tabus com nosso corpo porque isso é descobrir a alegria, a simplicidade de você ter prazer sem ter televisão, sem ter dinheiro.

Você conseguiu entender a importância disso na sua vida? Saber dizer “gosto disso, não gosto disso”?

Tenho 40 anos e o tempo é um bom amigo. Ele nos deixa mais íntegras com nossos desejos e faz com que respeitemos mais nossos limites. Mas é óbvio que ainda piso em casca de banana. São tabus que temos e nem sabemos. Isso é louco porque sou filha de atores, de pessoas que não são conservadoras. Mas tem uma coisa que parece que está enraizada no seu sangue, e isso fica. Não vou dizer que conquistei essa liberdade toda, mas tenho prazer, gosto de sexo, acho importante. Entendo que é algo que tem camadas, e não que você conquista e está consolidado. Até porque é muito bom quando você vive isso com outra pessoa, e cada pessoa é um universo para você explorar.

Não há como pensar em feminismo hoje sem falar de feminismo negro. Como lida com isso no dia a dia?

Na juventude, caí no caminho clássico de achar que a responsabilidade sobre a loucura do outro é nossa. Quando falo isso, me refiro a abusos e assédios. Tentava me vestir de uma maneira que me protegesse e tinha uma postura séria demais porque achava que era responsabilidade minha se o outro estava abusando, sendo indelicado. Quando surgiu a campanha “Meu Primeiro Assédio”, foi muito revelador. Caíram fichas de coisas muito triviais. Nesse sentido, o feminismo negro é uma das fichas recentes na minha vida. Estou estudando, buscando entendimento.

Você sempre entendeu que é uma mulher negra?

Sim. Mas sempre fui protegida. Uma mulher negra da periferia vive outra realidade. Sou filha de artista e estou em um meio diferenciado do que a grande parte das mulheres negras vive. Não dá para comparar, mas dá para pensar. Quando busquei ter aula com a Marcia e com a Djamila, foi querendo pensar mais sobre isso. Sair da minha régua e do meu compasso para entender melhor as outras realidades. Entender mesmo o que é feminismo. Na verdade, entender a pluralidade do feminismo. Com os encontros com a Djamila, entendi que o buraco é muito mais embaixo. Vai da maneira como se é tratada no médico à hipersexualização.

Como você leva o feminismo para a sua vida na prática?

São várias esferas. Uma é você ter respeito por si, por sua liberdade e por seus direitos. Outra é exercer a sororidade. Tenho feito reuniões em casa para que nós, mulheres, possamos nos escutar, conversar e pensar sobre o que é ser mulher. Falar sobre o que queremos desconstruir, o que queremos negar. O feminismo não é contra alguém. Ele é a favor. Entender isso é importante. Ele é a favor da igualdade dos direitos e de uma nova harmonização que vai fazer bem para os homens também. Dar a mão para o feminismo, para mim, é isso. É estabelecer novos paradigmas e novos limites, mas muito mais no sentido de ser a favor de um bem comum do que ser contra alguma coisa.

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