Juliana Alves: “O samba sempre foi uma coisa da minha família”

A atriz já deixou de desfilar no carnaval por causa da supervalorização do corpo das mulheres. Mas aí entendeu que a festa popular é sobre mais do que isso

“Eu sou o samba. Sou natural aqui do Rio de Janeiro. Sou eu que leva a alegria a milhões ” A Voz do Morro, um samba clássico, poderia ser a trilha de Juliana Alves. A atriz, de 35 anos, cresceu curtindo as rodas de samba nas festas de família, frequentou blocos afros na companhia do pai [o sociólogo Sebastião de Oliveira] e passou a adolescência nos ensaios das escolas do bairro da Tijuca, pra onde se mudou aos 11 anos. Unidos da Tijuca, Império da Tijuca, as próximas Mangueira e Unidos de Vila Isabel… O que não faltava era ensaio para Juliana curtir. “O samba sempre foi uma coisa da minha família, da minha cultura, uma paixão para mim. Sambando me expresso artisticamente”, disse Juliana à COSMO. O caminho para o posto foi natural. Diferentemente de muitas rainhas, ela não foi chamada somente pela fama ou por causa do Big Brother Brasil de 2003. “Minha relação com a escola é de comunidade. Eu não sou uma rainha celebridade, entende?”

 

Como ser mãe da Yolanda te transformou? Foi mais difícil do que você pensava?

O fato de eu estar me sentindo muito realizada, pois era o maior sonho da minha vida, já me mudou completamente. E é uma surpresa a cada dia observar o desenvolvimento dela… Eu me lembro bem do dia em que eu a vi me acompanhando com o olhar quando eu mudei de lugar. Fiquei impressionada! Foi exaustivo, sim, no começo, mas não fiquei lamentando. Eu me preparei muito e, por mais que eu tenha me informado, a gente ainda não está acostumada a ficar acordando de madrugada com esse nível de atenção, não sabe muito como pegar, tem que dar de mamar, colocar para arrotar. Mas estou trinta mil vezes mais feliz do que cansada. A gratidão e o amor são maiores.

Você veio para esta sessão de fotos com ela e seu marido, sem babá. Como está o esquema de vocês?

Nas duas primeiras semanas, minha mãe ficava muito em casa me ajudando, mas sem fazer tudo pela gente. Ela tem uma teoria de que toda mãe é suficientemente boa e tem a capacidade total de dar o que o filho precisa. Então, ela ficou cercando. Depois, fomos só eu e o Ernani mesmo. Ele é diretor de cinema e o escritório dele é em casa. Como não está filmando e eu estou de licença, a gente se reveza. Decidimos não ter ninguém no começo. Não sei como vai ser na volta. Milhares de mulheres passam por isso, é uma fase da vida. Vou fazer de tudo para que ela não sinta tanto, pois sei que eu vou sentir.

E você sentiu ao longo da vida que sofreu mais machismo do que as mulheres brancas?

Existe uma imagem de inferioridade, sim. Por mais que a gente não se sinta, precisa se impor mais. O senso comum te inclui dentro do rótulo de mulata, e é preciso romper esse estereótipo através de atitudes e do seu comportamento. Como o quê? No início da carreira, quando eu ia buscar um personagem, um teste, um trabalho, diziam: “Ah, mas já tem uma atriz no seu perfil, já tem uma negra”. E aí eu falava assim: “Ué, mas por que o meu perfil tem a limitação de ser uma? Por que não podem ser várias?” Mas eu tinha uma luta meio solitária. Me via como uma agente transformadora, como uma pessoa que lutava contra os preconceitos. E aí, como atriz, eu dava entrevistas e percebia que minhas críticas sociais não eram bem-vistas. Em alguns momentos da minha carreira, ouvi: “Olha, se você ficar falando demais, isso vai acabar fechando portas”. Mas nunca me calei. Hoje acho que tem mais gente disposta a escutar e se engajando também.

Seus pais que te guiaram para que você lidasse com o racismo?

Eles sempre deixaram claro que não tinha nada de errado comigo, nem com o que eu estava fazendo ou com a roupa que vestia. Desde pequena eu ouvia os debates sobre racismo. Com exemplos, meus pais me ajudaram a ter consciência. Por influência da minha mãe, fiz parte da Criola, uma ONG de mulheres negras, durante a adolescência. Eu ia às comunidades falar com as meninas sobre saúde da mulher e sexualidade. Foi uma formação de vida. Eu rodava muito sozinha de ônibus, conheci o Rio de Janeiro inteiro. Circulei muito levando informação e trocando afeto com meninas carentes que às vezes só precisam de alguém para escutar.

Você participa de algum desses movimentos contra assédio das atrizes?

Não estou em nenhum grupo de ações pontuais. Faço parte de um de estudos sobre feminismo com outras atrizes, roteiristas e diretoras. São encontros para falar do tema com as filósofas Djamila Ribeiro e Marcia Tiburi. Mas não estou indo na licença-maternidade. Uma amiga falou: “Ah, você não vai voltar tão cedo”. E eu pensei na minha mãe, que foi pra faculdade comigo bebê, um exemplo de mulher independente e batalhadora. Acho que vai dar, sim.

Como você vê o movimento das mulheres denunciando os assediadores?

Percebo que há uma conscientização maior das mulheres em se posicionar e que a sociedade está nos escutando. Não é um papo furado, é uma coisa muito séria. Acredito que as pessoas já começaram a entender que o machismo causa mortes e casos graves de violência, que limita a vida de muitas mulheres. Se antes achavam que o feminismo era um bando de mulheres loucas, neuróticas e que não gostavam de homem, hoje já entenderam que o feminismo é a luta por igualdade para reivindicar nossa posição no mundo.

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