Juliana Caldas: “Sou do tamanho que quero mostrar ser”

A atriz vive Estela em O Outro Lado do Paraíso

Juliana Caldas, 30 anos, faz o papel de Estela na novela das 9 da Globo, O Outro Lado do Paraíso. Na tela, ela sofre com o preconceito de sua própria mãe e está fazendo muita gente se emocionar. Na vida real, Juliana atua desde os 16 anos e quer mostrar que sua competência como atriz não tem nenhuma relação com a altura.

Você já passou por alguma situação tão dramática quanto sua personagem?

Não, não vivi essa relação de rejeição que a Estela tem com a mãe. Ainda bem! Mas fui pesquisar sobre essas situações e existem quadros bem próximos aos que retratamos na novela. Saber que isso realmente acontece doeu, me emocionou. Foi o que mais mexeu comigo.

Foi difícil ingressar na carreira de atriz?

Trabalho há dez anos com teatro infantil e nunca fiquei parada. Não diria que rola preconceito e sim que faltam programas que deem oportunidades para mostrarmos nosso talento. Existe um espaço histórico nas produções que envolvem humor. Mas o grande problema delas é que a sociedade entende que pode agir com uma pessoa com nanismo da mesma forma que vê na TV. Estava fazendo um evento uma vez em São Paulo e do nada tomei um “pedala, Robinho”. Não fariam isso com uma pessoa alta. Com a gente, sim.

Você vê seu papel ajudar a abrir os olhos das pessoas sobre a necessidade de acessibilidade?

Acredito que a novela está fazendo a sociedade pensar no próximo. Li há pouco tempo que agora, no Rio de Janeiro, é lei os banheiros serem adaptados para pessoas com baixa estatura [Lei Estadual 7840/2018, criada pela deputada Martha Rocha]. Espero que coisas assim continuem acontecendo. É uma pena pensar que tem que ser à custa de uma novela ou um filme. A gente tem de pensar no próximo naturalmente. Mas que bom que esteja rolando por causa do meu papel.

Quais atividades do dia a dia são difíceis para você e as pessoas nem imaginam?

Subir no ônibus. O degrau é muito alto e os motoristas geralmente não param perto da calçada; pegar itens nas prateleiras; ir ao banco, porque o caixa eletrônico é adaptado para cadeirante. É difícil usar a pia do banheiro do shopping, por isso a maioria dos pequenos andam com álcool em gel na bolsa. O papel-toalha também não dá para pegar. Comprar roupas é a mesma coisa. Eu tenho estatura de criança [1,22 metro], mas minha cintura não é infantil, nem o quadril. Preciso comprar do tamanho comum e cortar metade. Aí aposto em truques: manga três quartos pode ser longa, por exemplo; a calça capri vira uma comprida. Tem uns segredos, mas é difícil.

Hoje é comum perguntarem muito sobre seu nanismo. Acha que em algum momento você será só mais uma atriz?

Torço para isso. Antes de mais nada, sou Juliana Caldas, depois atriz e depois tenho minha deficiência. Ela não vem em primeiro lugar, apesar de que estará sempre comigo. O que eu quero é que as pessoas vejam meu profissionalismo. Não sou do tamanho que você me vê, sou do tamanho que quero mostrar ser. Meu talento independe da minha altura. Tenho que ser julgada pelo que sou capaz. Acredito que estamos no caminho, mas ele ainda é longo. Só não podemos desistir, ainda mais agora que o encontramos.

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