Monica Iozzi: “Não vivo sem sexo nem sem beijo na boca”

Monica Iozzi vai de sexo a Gilmar Mendes. De cinema a Congresso Nacional. De dinheiro a vaidade. Quer vir junto? Deixe os estereótipos de lado.

 

A artista que foi processada pelo ministro do STF Gilmar Mendes. A atriz “flagrada dando beijos calientes” no Carnaval carioca. Porta-voz das diretas já de 2017. A “esquerdopata” que se mete em briga política nas redes sociais. A filha do eletricista, a moça do CQC e a comentarista do BBB. Ah, sim: a mulher que aos 35 anos ainda não sabe se quer ter filhos. Monica Iozzi pode ser muitas coisas, depende de quem vê. Eu a vejo alta, segura, divertida e inteligente. Vejo uma mulher agradecida por poder falar de política na entrevista à revista feminina mas que não dispensa treino funcional e o BB cream. Vejo a nova leva de artistas que não fazem propaganda de qualquer coisa e só pelo dinheiro e uma escorpiana que não entende nada de signos.

E o que ela mesma vê? Monica olha mais para o mundo do que para si mesma. Observa com descrença os partidos políticos, vê com alegria a sobrinha de 9 anos achar um filme machista e sua mãe, pessoa simples, defender os direitos das minorias. Monica aplaude Marcelo Adnet e se derrete por Wagner Moura. Que mais? Ela garante: a comédia Mulheres Alteradas, que acabou de filmar e trará para a telona os quadrinhos da argentina Maitena, vai tocar todas nós.

Monica é um tipo de mulher que tem conflitos reais, que gosta de moda e sexo, filosofia e horário eleitoral, salto alto e direitos humanos. Não está achando caixinha onde colocá-la? Bem-vinda. Depois desta entrevista, você vai ter certeza de que caixinhas não servem pra nada.

 

Você sabe qual o auto complete para o seu nome no Google?
É Gilmar Mendes, né? Que bom! Teve uma época que era “Monica Iozzi pelada”.

 

Como é saber que deve entrar para a biografia de um ministro do STF?
Será? Na verdade, fico triste de ter tido qualquer contato com esse homem.

 

Você se arrepende do post em que criticou o habeas corpus que ele deu para Roger Abdelmassih?
Nem um pouco. Não escrevi nada de mais. Era uma foto dele que circulou nas redes com uma marca-d’água “censurado” e o texto: “Gilmar Mendes concedeu habeas corpus a Roger Abdelmassih, depois de sua condenação a 278 anos de prisão por 58 estupros”. Postei: “Se um ministro do Supremo faz isso, não sei o que esperar”. Por alguma razão, ele encasquetou.

 

O que você achou mais absurdo dessa história toda?
O mais grave foi a justificativa do juiz: “Monica Iozzi, como uma pessoa pública, extrapolou sua liberdade de expressão”. Oi? Alguém me explica o que é extrapolar a liberdade? Fiquei esperançosa durante o processo todo, recebi muito apoio. Mas, quando saiu a sentença e não tinha mais a quem recorrer, me senti muito agredida, injustiçada.

 

Por isso que saiu das redes sociais?
Não teve relação direta. Não foi por medo de me expressar, foi por cansaço. O diálogo pra mim sempre foi muito importante, mas as pessoas estão com um discurso de ódio tão ferrenho que a capacidade de escuta está reduzida, se não nula. Fiz um post sobre o estupro coletivo de uma menina e comentaram “Você é esquerdopata” e “A menina estava na rua a essa hora…” Aquilo me agrediu. Eu realmente defendo os direitos humanos, mas não sou de nenhum partido e faço questão de deixar claro: não existe partido neste momento que me represente. Mas, se acham errado defender que os moradores da Cracolândia merecem ser tratados com dignidade e que uma travesti não pode ser espancada, o que é o certo? Senti que a conversa não estava fazendo efeito. Resolvi dar uma respirada e sair das redes.

monica iozzi na cosmopolitan

 (Tavinho Costa/Cosmopolitan)

Não bateu abstinência digital?
Muita! Principalmente porque alguns dias depois estourou o áudio do Joesley. Eu: “Ah, meu Deus, eu preciso falar sobre isso”. Em vez de postar, fiquei ligando para as pessoas. Virei a louca do WhatsApp. Aí já me enfiei pra organizar a passeata das diretas já em São Paulo. Vou retornar para as redes, mas preciso voltar a ter o mínimo de fé no ser humano primeiro.

 

E vai voltar mais pianinho?
Não. Energia total! Não consigo ser de outro jeito. A minha mãe falou: “Você não precisa sair de tudo. Só pare de escrever sobre alguns assuntos”. Mas havia 6 milhões de pessoas me ouvindo, não dá pra ficar falando só de amenidades, né? E tem coisas para as quais é legal chamar a atenção, sim.

 

Você criticou a cobertura da mídia sobre o impeachment de Dilma Rousseff e citou o Jornal Nacional. Algumas pessoas ficaram na expectativa de que você fosse ser repreendida pela Globo.
Nunca fui censurada na Globo. Alguns amigos me chamaram de louca. Mas o bacana de viver numa democracia é poder levá-la para todos os lugares. Eles me contrataram sabendo quem eu sou. Não é só porque você trabalha num lugar que tem que concordar com tudo que se passa na empresa. Eu não concordava com tudo quando vendia roupa na Levi’s, não concordava com tudo quando vendia livro na Livraria Cultura nem quando produzia teatro. Na Globo não é diferente.

 

Você passou quatro anos embrenhada em Brasília por causa do CQC. Isso a deixou mais politizada?
Sempre fui assim, era aquela que invadia a reitoria na faculdade [Monica fez artes cênicas na Unicamp]. E sou assim desde criança. Acho que eu era a única pessoa que com 12 anos de idade assistia ao programa eleitoral.

 

Se falava de política na sua casa?
Não. Meus pais nunca foram politizados. Meu pai era eletricista, já faleceu, e minha mãe sempre foi dona de casa, pessoas simples. Mas eles são muito foda, gente que ralou pra caralho. Minha mãe começou a trabalhar como pajem. Aos 12 anos foi morar na casa de uma família e cuidava das crianças. Meu pai veio da roça, só estudou até a 3ª série. Eles batalharam muito e colocaram nossa educação em primeiro lugar. Não tinha dinheiro pra porra nenhuma, mas pra escola sempre tinha.

 

Hoje a sua mãe é influenciada pelo que você fala?
Foi muito bonito ver a evolução dela a partir do que eu e minha irmã levamos pra casa — política e cultura. Ela nunca foi preconceituosa, mas hoje abraça a causa gay dos meus amigos e enfrenta as amigas, porque Ribeirão Preto [SP] é uma cidade muito conservadora. Adoro vê-la postando no Facebook: “Não votei na Dilma, mas não é por isso que não enxergo o golpe”. Mas ela fica preocupada. Teve uma vez que apanhei em Brasília — foi a única em que chorei no Congresso, sempre deixava pra chorar no hotel. Ela me ligou e disse: “Você é atriz, por que foi fazer isso? Volta para o teatro”.

 

monica iozzi na cosmopolitan

 (Tavinho Costa/Cosmopolitan)

 

Vamos falar do filme Mulheres Alteradas? Já acabaram as filmagens?
Anteontem. Foi tão especial! Ele é baseado na obra da Maitena, escritora argentina que faz umas charges incríveis desde a década de 90. Eu já conhecia o trabalho dela porque cuidava da seção de HQs na livraria em que trabalhei.

 

Maitena fez um retrato das mulheres dos anos 90 e foi importante no processo de conscientização feminina, mas o mundo evoluiu bastante de lá pra cá. Você acha que o filme vai apanhar das feministas? Acho que não, pois existiu uma preocupação do roteirista, Caco Galhardo, e das produtoras, que estiveram muito presentes nessa adaptação. O diretor, Luis Pinheiro, também foi sensível e conseguiu traduzir as questões pra um olhar mais contemporâneo.

Mas confesso que adoraria ver uma diretora mulher…
Muita gente fala isso. Antes de fechar o trabalho, conversei com o diretor — Luis também dirigiu Lili, a Ex, série do GNT com Maria [Casadevall]. Ele me disse: “Sou casado com uma profissional competente, feminista, forte e tenho duas filhas. Fazer esse trabalho é um desafio, um presente e um dos assuntos pelos quais mais me interesso agora”. Conforme ele foi falando, pensei: “Por que não?” Temos tantas mulheres no projeto; por que não juntar o olhar feminino com o masculino de um cara que tenta se deslocar desse histórico machista? Acho que ele conseguiu construir o filme de um jeito legal. E tem nosso olhar também, porque eu, Maria Casadevall, Deborah Secco e Alessandra Negrini somos atrizes compositoras.

 

É um filme cult?
Não. É uma comédia com emoção genuína, delicadeza, e ácida em alguns momentos. É o universo feminino dilatado. Mas não é aquele engraçado da tipificação da mulher bonita e burra, do gordo, do gay. Acho que toda mulher vai se identificar com pelo menos um ponto de uma personagem. Me identifico com vários.

 

Conviver com o exército de mulheres maravilhosas da Globo mexeu com a sua autoestima? T
eria sido bom se tivesse. [risos] E tenho umas amigas que pelo amor de Deus! Minhas três grandes parceiras pra vida na Globo são a Débora Nascimento, a Nathalia Dill e a Maria Casadevall. Tá puxado pra mim, né? Mas elas têm uma vaidade sadia e natural, e é a vaidade que tenho também. Sou bem vaidosa, mas num lugar menos aparente. Sou muito preocupada com a saúde da pele, do cabelo e gosto de sentir que estou bem.

 

Você se exercita ou é mais desencanada?
Depende do trabalho. Agora que estou conseguindo, faço pilates e funcional e quero voltar a dançar. Mas não sou muito da noia não. Só percebi que dos 33 em diante a coisa não se mantém sozinha. O negócio começou a dar uma caída… E hoje estou com 35.


Com 35, geralmente o útero começa a mandar notícias. O útero e a sociedade.

No meu caso, mais a sociedade do que o útero! Ainda não sei se quero ser mãe. É possível que um dia a vontade venha. Só não quero ter desespero, como se a maternidade fosse um trem com horário marcado que eu não posso perder. É uma criança, uma vida, é pra sempre. Tem que ter muita certeza. Eu não tenho ainda. Talvez eu nunca tenha, e tudo bem.

 

E você tá rica?
Não. Pô, depois do processo, então! [Somando os impostos, Monica desembolsou 38 mil reais para pagar Gilmar Mendes.] E ficar rica não é um objetivo de vida. O dinheiro não é o primeiro, nem o segundo nem o terceiro motivo pelos quais faço as coisas. O dinheiro vem com o pacote. Sou ambiciosa, mas não gananciosa.

 

Você está namorando?
Não, e quero manter assim. Sempre tive um relacionamento rolando. Tô com vontade de ficar sozinha, me redescobrir…

 

Mas se enrolando por aí, né?
Sim! De sexo não abro mão. Não vivo sem sexo nem sem beijo na boca. Do mesmo modo que não vivo sem chocolate.

 

E você curte só os boys? Ou as moças podem te paquerar também?
Sabe que sou paqueradíssima por mulheres? Sou hétero, nunca se sabe o dia de amanhã. Se um dia eu me apaixonar por uma mulher, tudo certo. Por enquanto não aconteceu.

 

E com quem pensa politicamente diferente, dá pra ficar?
Dá. Tive um namorado que era tão de direita que acreditava que no Brasil não existe direita. Ele adorava Margaret Thatcher. Acho que tudo tem a ver com caráter, essência, tolerância. Queríamos um mundo parecido, só que ele acreditava num caminho e eu em outro. É por isso que deu certo e ele é até hoje um dos meus melhores amigos. O problema não é a pessoa ser de esquerda, de direita ou não ser de porra nenhuma. O problema é você não ouvir o outro.

 

Créditos

estilo MARCIO BANFI E MARIANA MAGALHÃES

cabelo EDU HYDE (SD MGMT)

make VANESSA ROZAN (LICEU DE MAQUIAGEM)

ASSISTENTE DE PRODUÇÃO DE MODA TATIANA ALVES / ASSISTENTES DE FOTOGRAFIA TIM SANCHES E RAUL SAMPAIO / CABELO EDU HYDE (SD MGMT), COM PRODUTOS KEUNE /MAKE VANESSA ROZAN, COM PRODUTOS VULT / ASSISTENTE DE MAQUIAGEM LUCIANA KINOCHITA (LICEU DE MAQUIAGEM) / MANICURE ANGELICA MORAES (MG HAIR DESIGN) / TRATAMENTO DE IMAGEM RG IMAGEM

 

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