Nathalia Dill: “Depois dos 30, aprendi a brigar menos”

Feminista, politizada e sem medo de expor suas opiniões, a atriz prova por que é uma das mulheres mais inspiradoras de sua geração

Tivesse Nathalia Dill nascido no início do século passado, é bem provável que sua personalidade fosse vibrante como a de Elisabeta Benedito, a heroína de época que a atriz interpreta em Orgulho e Paixão. Na novela das 6, inspirada na obra da escritora inglesa Jane Austen, a protagonista não sonha em encontrar um grande amor e se casar. Quer mais é uma vida de aventuras pelo mundo. Algo vanguardista demais para as moças daquele tempo.

Nathalia é dona de opiniões fortes e não tem medo de se posicionar, mesmo quando suas ideias batem de frente com os haters e a caretice. Se declara feminista, defende a descriminalização do aborto e dá a cara a tapa ao criticar (ou defender) projetos políticos.

Crescida no Leblon, no Rio de Janeiro, filha de um engenheiro e uma linguista, irmã de um biólogo e uma economista, a atriz batalhou e conquistou sozinha seu lugar no olimpo da Rede Globo. Desde a estreia, como a vilã Débora, de Malhação, há dez anos, emendou um papel de destaque atrás do outro: foram 11 novelas, sete peças e seis filmes. O sétimo, Incompatível, no qual faz uma blogueira, deve chegar aos cinemas ainda este ano.

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Foi na telona também que Nathalia viveu um de seus personagens mais marcantes. A DJ Erika, de Paraísos Artificiais (2012), exigiu-lhe entrega total em cenas de nudez e sexo com meninos, meninas e os dois juntos. “Não tive problema nenhum em gravar. Só não gosto de assistir depois, fico bem envergonhada. Talvez seja algo que eu deva levar para a terapia”, diz ela, que desde a adolescência “vai e volta para o divã” conforme bate a necessidade.

Além das temporadas de análise, “a Lua em Virgem” e a cabeça boa que os 32 anos trouxeram a ajudaram a ser feliz no amor. Nesta entrevista, Nathalia também fala à COSMO sobre o fim da relação com o ator Sérgio Guizé – eles formavam, até o ano passado, um dos casais mais cool da TV -, do recente namoro com o músico Pedro Curvello, 34 anos, e sobre o desejo de ser mãe. Nada que se sobreponha à vida de aventuras pelo mundo com que ela sempre sonhou.

Hoje a maioria das atrizes se diz feminista, mas antes não era assim. Existia até um certo ranço da palavra. Por quê?

Ridicularizar é o jeito mais cruel de abafar uma causa. Feminista é vista como chata e radical. “As mulheres trabalham, ganham dinheiro e são chefes nas empresas. O que elas querem mais?” Nos falta muito ainda, oras! Nenhum país pode dizer “Aqui temos igualdade de gênero”.

Há muitas mulheres em cargo de comando nas equipes com as quais você trabalhou?

Já tive diretoras incríveis, como a Amora Mautner e a Maria de Médicis. Mas também já trabalhei em novelas só com diretores homens. Negras, porém… Nenhuma! Não somos estimuladas a nos tornarmos líderes e as portas não se abrem tão facilmente para nós nesses cargos. Está vendo por que o feminismo é tão necessário?

Já sofreu assédio?

Nunca no trabalho, mas me sinto assediada o tempo todo. Quando ando na rua, se estou com um homem, não ouço cantada grosseira nem sou constrangida. Mas não é porque estão me respeitando, e sim o homem ao meu lado. Nenhuma mulher se sente segura ao andar por aí sozinha. Eu mesma tenho medo de sair do Projac à noite e ser atacada. Essa é uma forma de prisão tão absurda…

Você já se disse a favor da descriminalização do aborto. Por que o debate não avança?

Nenhuma mulher quer passar por um aborto, é barra-pesada. Mas a realidade é que as ricas quando têm uma gravidez indesejada abortam com segurança, enquanto as pobres morrem em lugares clandestinos. Vejo as mesmas pessoas que se colocam contra a descriminalização do aborto, porque são “a favor da vida”, dizendo que “bandido bom é bandido morto”. Confundem direitos humanos com defender criminoso. Isso é ser a favor da vida?

Os haters já te atacaram por causa de opiniões como essa?

Em maio do ano passado, eu e vários artistas postamos no Instagram selfies segurando nossa carteira de trabalho em protesto contra o projeto de reforma trabalhista do presidente Michel Temer. Fui atacada e chamada de hipócrita nas redes sociais. Aquele menino do MBL [Kim Kataguiri, coordenador do Movimento Brasil Livre] divulgou que nós, atores da Globo, não usamos carteira de trabalho porque emitimos nota. Como ousamos falar em reforma trabalhista, então? Jogaram na internet os dados das nossas empresas, foi um horror! Eu tenho carteira assinada. Mas e se não tivesse? Estaria proibida de me posicionar?

Você fez um post emocionado sobre a vereadora Marielle Franco nas redes sociais. Chegou a conhecê-la?

Sim. Foi durante um encontro organizado pela [empresária] Paula Lavigne para falar sobre a intervenção militar no Rio. Vários artistas estavam lá e a Marielle era uma das palestrantes. Eu me identificava com as lutas dela, me sentia representada. Esse encontro foi breve. Ela passou por mim e se despediu: “Tchau, Nathalia!” Fiquei toda orgulhosa, “Nossa, ela sabe o meu nome!” Meus pais sempre foram politizados, e quando eu era mais jovem pedia indicações deles para votar nas eleições. Com a Marielle, isso mudou. Foi a primeira vez que sugeri um candidato em quem eles votaram.

Quando decidiu ser atriz, seus pais viram como um projeto de vida possível?

Eles só não acreditaram que eu chegaria tão longe quanto cheguei. Tinham receio, claro. Sobreviver de arte no Brasil é difícil. Todos os meus amigos que queriam ser atores tinham um plano B. “Se eu não conseguir ganhar dinheiro até tal idade, vou estudar psicologia” ou “Vou desistir e trabalhar no escritório do meu pai”. Eu não. Achava que, se tivesse outro plano, perderia o foco. Meus pais sempre ajudaram, assistem às minhas novelas e levam flores nas estreias até hoje. Isso é tão especial.

Eles são críticos?

Minha mãe é. Uma vez cantei em uma peça, e quando desci do palco ela disse: “Desafinou, hein? Não foi bom”. Teve esta também: “Você está começando a ficar com uma marquinha aí na testa, filha. Dá para notar no vídeo”. Ela também tem uma pira com higiene, quer ver tudo sempre limpinho. Combati isso a vida toda, porque as coisas não têm que estar impecáveis. Mas é muito louco, porque às vezes me pego fazendo igual. Vejo meu sobrinho e fico prestando atenção se ele não vai colocar a mão suja na boca. Se cai alguma coisa dele no chão, vou correndo lavar, com paranoia de micróbio…

Você foi protagonista na maioria das novelas em que atuou. É um posto ao qual poucas atrizes chegam. Dá para ter amigas de verdade em um meio tão concorrido?

Sim. Sou amiga da Sophie Charlotte, da Alinne Moraes, da Andreia Horta. Novela depende muito da união dos atores. Cabe ao protagonista propagar um clima bom. Se quem está como maior destaque fica de saco cheio, aquela energia ruim vai contaminar o ambiente e todo mundo vai se estressar, rezar para que acabe logo. Não é fácil, é um posto duro pra caramba. Tem crítica, exposição…

O Sérgio Guizé e você formaram um superpar por dois anos. É difícil terminar uma história de amor?

O objetivo de todo casal é ser feliz. Se não é, não vale a pena. A separação também pode ser um final feliz. Quando estou em uma relação, sempre peso se o lado bom é maior que os problemas. No amor, sou muito racional, minha Lua é em Virgem. Sei organizar meus sentimentos. Não sou aquele turbilhão de emoções confusas e sei exatamente o que estou sentindo. “Isso aqui é paixão”, “Agora é amor”, “Estou plena”, “Não estou mais”.

Como concilia a vida de protagonista de novela com um namorado novo?

O Pedro é um anjo! Quando começamos a namorar, o preparei bem. “Olha, vai ser foda. As coisas aqui funcionam de um jeito diferente e a cada semana é uma surpresa.” Outro dia saiu uma reportagem assim: “Conheça o novo namorado de Nathalia Dill”, com várias informações dele tiradas do Instagram. Foi algo bem estranho para um cara que não é famoso. Mas ele é paciente, está sempre pronto para ajudar e me admira muito. Vê a novela todos os dias, curte. Chegou só para somar na minha vida.

Quer ter filhos?

Nunca passou pela minha cabeça não ter. Mas tem o tal do relógio biológico, que se desconectou do prazo para que a gente conquistasse a autossuficiência e a realização pessoal. Sim, eu poderia ter tido um filho dez anos atrás, seria o ideal. Mas não teria sido a mãe que sonho ser, com a cabeça boa que tenho agora.

Você é uma celebridade low profile, quase não a vemos em badalações. O que gosta de fazer?

Reunir meus amigos em casa. A gente cozinha, faz roda de música. Sempre gostei de cantar e tocar, mas tinha vergonha de mostrar em público. Morria de medo que falassem mal. Depois dos 30, me libertei: “Foda-se a timidez, vou me jogar!” Aí comecei a levar meu violão para todo lado, toco nos bastidores da novela. Outro dia criei coragem e postei um vídeo tocando ukelele no Instagram. Bombou! Vibrei com cada curtida, parecia meu aniversário!

Do que mais você se libertou depois dos 30?

Deixei de ter tanto medo de dar a cara a tapa. Por outro lado, brigo menos. Tomo mais cuidado com a maneira como falo, porque posso me passar por grossa. Tenho uma natureza mais agressiva e assertiva. Se tem uma coisa de que não estou gostando, vem uma irritação, e aí… Mas aprendi a respirar fundo e evitar o embate.

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