“Quer me chamar de gorda nas redes? Vai lá. Mas racismo é crime”

Preta Gil, nossa capa de fevereiro, é a cara da COSMO. Em entrevista ela falou sobre sua carreira, preconceito e o carnaval. Vem ver!

Ser filha (e sobrinha, afilhada…) de quem é faz o amor pela música ser genético. O lado determinado da mulher de negócios (que tem linha de esmalte e batom recorde de vendas) a leva a marcar incontáveis reuniões com a prefeitura para garantir que seu trio saia no lugar ideal e receba o maior número de foliões. A energia contagiante completa o combo que ajuda Preta Gil a arrastar mais de 1 milhão de pessoas no bloco que leva seu nome. Essa mulher livre e bem resolvida é pura inspiração! Viva a preta-ta-ta!

A primeira concepção que Preta Gil teve de diversidade foi por causa da música. “Desde criança, ouvia de Michael Jackson a Frenéticas”, conta. Criada no berço da MPB, filha de Gilberto Gil, sobrinha de Caetano Veloso e afilhada de Gal Costa, ela é cria da Tropicália, movimento musical 100% brasileiro e inclusivo. Seu jeito agregador a faz ter fãs de todas as idades e sexualidades e tem muito a ver com a mistura de influências da infância. “Na escola, havia o grupinho das patricinhas de um lado e o das mais cabeçonas do outro, e elas não se falavam. Nunca entendi. Queria ser as duas coisas ao mesmo tempo e sempre fui.” Por personalidade, virou a ponte para os mundos se ligarem. Seu gosto eclético ajudou. “As pessoas sabem que nos meus shows vão ser bem recebidas, respeitadas, e acima de tudo pela sua individualidade, pelas suas opções, pela sua raça, pelo seu credo.”

Nas suas memórias, quem mais representava toda a sua miscelânea cultural era o Chacrinha. “Eu queria ser aquele cara”, disse em uma das várias conversas com a COSMOPOLITAN BRASIL. Desejo concedido! Tanto por nossa equipe, nestas fotos, quanto por ela mesma, que no ano em que Chacrinha completa 100 anos e a Tropicália 50 juntou os dois como tema do Bloco da Preta. “Na verdade, o Chacrinha é o tema da minha vida. Só estou coroando isso.” O apresentador dos anos 80 que unia popular e erudito e distribuía abacaxis e alegria para a plateia estará presente nas ruas do Carnaval do Rio de Janeiro, dia 19/2, e no circuito Barra-Ondina de Salvador, dia 24. Assim como o Velho Guerreiro, Preta representa a diversidade e o alto-astral, e por isso é tão amada. É, atrás do trio da Preta só não vai quem já morreu! Aquele abraço!

 

Qual é o segredo da autoestima da preta gil, além de ser nascida sob o signo de leão? [risos]

Isso ajuda! Os leoninos têm tendência a se amar e pentear a própria juba. Mas não existe um segredo, existe o tempo. É difícil uma menina jovem ter a cabeça que tenho. Por outro lado, sempre fui meio metida. Isso me deu a possibilidade de quebrar a cara. E acho isso fundamental. Os acertos são gostosos, mas não tem nada que te faça crescer mais do que aprender com os erros.

 

Essa autoestima serviu como escudo?

Não, pois ela também é traiçoeira. Você pode fazer algo maior do que aguenta sem saber. Como quando fiz a capa do álbum [do CD Prêt-à Porter, de 2003, que é uma foto da cantora nua]. Estava totalmente despreparada e não sabia uma série de coisas que sei hoje. Não sabia que a sociedade é conservadora, machista, gordofóbica e preconceituosa. Achava, e ainda acho, aquela foto linda, artística, coerente. Quando vi tanta gente falando que era feia e errada, tive que andar duas casinhas pra trás no jogo da vida. Mas viver é um renascimento diário, e esse foi um momento importante de aprendizado. A partir dali passei a defender meu direito de ser eu mesma. E, sem perceber, levantei uma bandeira e defendi milhares de mulheres.

Preta Gil

 

Tem muita gente falando que o mundo tem ficado mais careta, reacionário. O que você acha?

Na internet todo mundo tem voz. Um racista solitário de uma cidadezinha qualquer encontra online outros caras que adoram xingar os negros e sente que é libertador. Aquela tia homofóbica pode compartilhar um vídeo que deixa você com vergonha. Mas pessoas assim existem desde que o mundo é mundo, e não é à toa que todos os movimentos retrógrados e as guerras aconteceram. É claro que quando a gente assiste a situações como a eleição do Trump ou o Brexit dá uma mexida. O jogo não está ganho, é uma luta diária, por isso insisto que as pessoas sejam elas mesmas e opinem, de maneira que não agridam as outras. Defendo a inclusão. Quero que eu possa ser eu e você seja você. Respeito a individualidade de cada um e respeito muito quem pensa diferente de mim — por isso me causa estranheza quando querem impor um pensamento, não acho bacana.

 

Mas você compra algumas brigas. como o caso do racismo que sofreu nas redes sociais…

Mas é que aí é crime. Quer me chamar de gorda, ok, vá lá. Sou mesmo, não é uma ofensa pra mim. Triste pra quem se dá o trabalho de ir ao meu perfl comentar. A questão do racismo é outra. Os responsáveis eram um coletivo chamado Máfa Maliciosa, já conhecido na internet por atacarem outras amigas minhas, como a Taís [Araújo] e a Cris Vianna, e também a Maju. Logo que aconteceu, liguei pra Taís e ela disse: “Você tem que ir à delegacia, não pode fraquejar”. Fui, claro. Mas não é fácil: é muita exposição, julgamento. Ouvi e li coisas que me deixaram triste e chocada, tipo ‘Ih, ela está precisando aparecer, né?’ Caramba! Estou só defendendo o meu direito como cidadã que foi agredida.

 

Falando de racismo e polêmica. Você acha que as cotas são importantes?

Sim. Infelizmente vivemos em uma sociedade muito atrasada historicamente. Precisamos de mais uns 500 anos para tornarmos natural que os negros tenham o mesmo espaço que os brancos têm. Lembre-se das dificuldades que os negros tiveram ao sair da senzala, conquistar espaço no mercado de trabalho, serem valorizados, terem independência financeira e se posicionar na sociedade. Isso tudo ainda é muito recente. Se não instituirmos as cotas, negros nunca terão espaço, porque o acesso é mais difícil.

Preta Gil

 (André Nicolau/Cosmopolitan)

 

Você tem a imagem de uma pessoa muito feliz, animada. O que te faz chorar?

Sou muito emotiva, tudo me faz chorar. A última vez foi quando vi o filme do Paulo Gustavo [Minha Mãe É uma Peça 2]. Chorei feito criança! Fui jantar com ele depois e chorei mais! Fiquei tão tocada com a dona Hermínia, ainda mais agora que sou avó. Mas o que me deixa mais triste é ver o jornal. É uma impotência que me mata ficar assistindo a essa coisa toda da Síria. Quase uma Terceira Guerra Mundial se formando e a gente não pode fazer nada. Eu me pergunto, ligo pra amigos, converso… Precisamos fazer algo!

 

Bom, um de seus trabalhos sociais é o bazar da preta, né?

Sim. Já estamos na oitava edição. Uns dez anos atrás, minha mãe, que tem uns 100 afilhados, me ligou pedindo ajuda para comprar os remédios de uma creche carente que ela ajuda em Salvador. Eu estava meio sem grana e ela me disse: “Faça um bazar e venda todas as roupas extras que tem!” Adorei a ideia. Passei as roupas adiante e dei a grana pra minha mãe ajudar as crianças. Quando entrei no meu quarto sem acúmulo de roupas, senti uma energia girando, tão boa! Percebi o valor do desapego e que as coisas materiais não podem e nem devem ter tanta importância na nossa vida. De lá pra cá, o projeto cresceu. Hoje, vááários amigos e marcas são meus parceiros. Ano passado, a gente conseguiu ajudar quatro instituições.

Preta Gil

 (André Nicolau/Cosmopolitan)

 

Você também é uma mulher de negócios. Qual seu nível de envolvimento nos produtos que levam seu nome?

Dou expediente no meu escritório no mínimo uma vez por semana. Tenho equipes separadas para falar de diferentes assuntos e dois sócios que me ajudam a administrar. Mas me envolvo em tudo. Só coloco pra vender o que testei e aprovei. Vou à fábrica, converso com o químico, falo “Hummm, ainda não é essa cor…” Fiquei um ano e meio testando o esmalte — eu o defendo muito, é um dos melhores do Brasil. O batom também: foram dois anos melhorando o produto antes de divulgar. Não lancei outros porque ainda não estou satisfeita. Há dois anos testo meus xampus. Agora chegaram à qualidade.

 

Na sua última capa de cosmo, você acabara de conhecer o rodrigo. Agora está casada e é avó! Em três anos, sua vida mudou bastante!

Não acho que existam solteiras convictas. Mas, quando se está nessa fase, temos a oportunidade de nos olhar, nos cuidar e nos apaixonar por nós mesmas — de maneira saudável, de autoconhecimento, longe de narcisismo. Só que definitivamente não gosto de ficar solteira. Gosto da vida a dois, de construir junto. Acredito muito no casamento. Não é à toa que demorei tanto pra casar na igreja.

 

Foi um casamento bem tradicional, né?

Sabe que achei que já tinha perdido o prazo de validade? Nunca tive essa vontade de casar de véu e grinalda, mas com o Rodrigo foi diferente. É muito legal celebrar o amor quando se está tão feliz. Não é garantia nenhuma que esse amor será pra sempre. Sei que hoje vivo uma paixão intensa. Tive muita sorte de o Rodrigo se apaixonar não só por mim mas pela minha profissão, por todo o meu universo. Ele veio naturalmente para o meu meio e quando percebi já estava trabalhando comigo. É ótimo. Ele é bem mais organizado do que eu, tem uma memória melhor do que a minha — o HD dele está novinho [Rodrigo Godoy tem 28 anos], dá pra encher de coisa! [Risos]

Preta Gil

 (André Nicolau/Cosmopolitan)

 

Como funciona essa divisão de horário comercial/ pessoal?

Não é fácil. Tem que ter uma vigília dobrada para não misturar tudo. Por exemplo: tem que acordar, beijar, tomar café, saber das coisas da casa, do filho, da neta e só depois falar do trabalho. Faço questão que seja assim. Já aconteceu de o Rodrigo acordar antes e quando eu abria o olho ele já começava a falar sobre o voo que foi cancelado. Mas não gosto. A gente foi criando o formato junto, é novo pra mim também, nunca tive um companheiro que trabalhasse comigo. Mas posso dizer que é a combinação perfeita.

 

E essa coisa de ser avó tão nova, como bateu pra você? Foi um susto?

Sabe que não?! Quando eu descobri que Laura [namorada do filho dela, Francisco] estava grávida, foi uma paixão imediata. Nem tive vontade de dar um puxão de orelha no Francisco, apesar de ele ter só 22 anos. Foi só amor. Quando a menstruação da minha nora atrasou, eu que fui à farmácia, comprei um teste de gravidez e estava do lado dela na hora que ela fez. A Laura estava tão nervosa que nem quis ver. Na hora em que eu vi os dois pauzinhos do exame de urina já a agarrei, já beijava a barriga, falei “Minha netinha vem aí”. E o Francisco falando “Mãe, calma, não assusta ela”! [Risos] Sei que é um susto grande, mas também tive filho muito nova e foi bom demais pra mim.

 

Aumentou sua vontade de ser mãe de novo?

São dois sentimentos diferentes. O plano de ser mãe existe. Mas sinto que com a vida que tenho agora seria egoísmo ter um flho. Vou lançar um álbum em março e tenho um ano de turnê pela frente. Conversei com minha médica — também não sou louca e tenho noção de que estou com 42 anos. Sei que o tempo pra isso está acabando, mas ela me deu muita segurança. Não tô usando nenhum método contraceptivo, deixei a porteira aberta. Se vier, desmarco shows, a vida muda, não tem problema. Mas o ideal seria que rolasse em 2018.

 

Você tem uma família muito famosa. Em que momento ser filha do Gil, sobrinha do Caetano, irmã da Bela ajuda? E quando atrapalha?

Nunca atrapalha. Que venha mais! Que eu seja a tia da Flor, do Bento, vó da Sol. Isso é um privilégio. É muito precioso ser dessa família de pessoas felizes e realizadas. Somos como qualquer família. Temos o grupo de WhatsApp com umas 15 pessoas que troca mensagens, informações e piadas 24 horas. Acordo todos os dias com o grupo “Nossa Família” bombando de fotos, memes e vídeos.

 

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