Selton Mello fala com a COSMO sobre sua carreira e o tempo

Selton Mello cresceu diante das câmeras. Hoje se divide entre atuar e dirigir. Aos 44 anos de idade, lança O Filme da Minha Vida

Aos 9 anos, Selton Mello trabalhava em uma de suas primeiras novelas, Corpo a Corpo, na Rede Globo. No elenco estavam José Lewgoy, Hugo Carvana, Glória Menezes, todos com idade para serem avós do garoto. Mas quem percebeu qual era a do menino foi a atriz Débora Duarte: “Você é a pessoa mais velha deste elenco”. Passados 35 anos, ele segue do mesmo jeitinho. Isso fica evidente em sua nova obra, o longa-metragem O Filme da Minha Vida, com estreia marcada para a primeira semana de agosto. Estrelada por Johnny Massaro, Vincent Cassel e Bruna Linzmeyer, a história se passa em 1963 e conta a trajetória de um jovem professor que sofre com o sumiço do pai enquanto se apaixona. A plasticidade das imagens, as nuances dos personagens, a direção de arte e a fenomenal trilha sonora parecem ter saído da cabeça de um senhor de bem mais idade. Só que são fruto do trabalho de um homem que começou a trabalhar cedo. Esse é o terceiro longa de Selton como diretor. Como ator, foram mais de 30. No intervalo entre O Palhaço (2011) e agora, ele dirigiu 115 episódios da série Sessão de Terapia. O ator diz que esse é o mais pessoal de seus trabalhos. “Esse filme tem o desejo de ver a família unida, fortalecida. Sou muito amigo do meu irmão [o ator Danton Mello]. Cresci num núcleo familiar muito afetuoso, essa é minha base”, diz. A trilha sonora foi ele quem descobriu no YouTube, um vídeo de Charles Aznavour interpretando Hier Encore (“Ainda ontem”), música lançada em 1964. A letra fala do passar dos anos. Por isso, algumas perguntas desta entrevista foram baseadas na composição (elas estão em destaque no texto).

— A música fala de esperanças que bateram asas, perdidas. Você sente isso? Perdeu a esperança em quê?

— Me identifico com esse protagonista do filme, o Tony. De certa maneira, ele sofre com a perda da inocência. Deixa de acreditar numa série de coisas, sofre decepções, mas, com isso, vem o crescimento. É como a criança que acredita em Papai Noel e descobre que ele não existe. São muitos Papais Noéis na vida.

Selton Mello

(Maurício Nahas/Cosmopolitan)

Reflete sobre desperdício de tempo. Você vive intensamente?

— Acho que sim. Essa intensidade eu coloco no meu trabalho. Não sou afoito. As coisas têm seu tempo, não devem ser atropeladas. Em paralelo à sua vida, tem outras pessoas vivendo, e você vai se adequando ao mundo. É uma bênção fazer o que faço. O artista, quem dirige, quem escreve têm a chance da sublimação. Tenho a oportunidade de viver coisas e transformar isso em arte. Isso é bonito, terapêutico.

 

— Fala da solidão, da criação de um vazio em torno de si. Você gosta de ficar sozinho?

— A sua companhia nem sempre é muito agradável. Mas a gente tem que se conhecer e se entender para, aí sim, estar apto a ter uma relação mais profunda com alguém. Acho que somos bem esburacados, com vários vazios. E preencho parte dos meus com a minha arte, o meu trabalho. A arte tem essa beleza, de preencher grandes espaços: é autoconhecimento, entretenimento.

 

— Mas, quando quer companhia, você faz o quê?

— Se quero, estarei com a companhia. Mais novo, eu ia para a balada, curtir. Agora, mais velho, começa a dar uma preguiça. Acho chato sair, e estou gostando mais do dia, achando melhor dormir mais cedo… Sou um cara que sai com os amigos, curte, tenho romances, casos, quase amores e amores.

Selton Mello

(Maurício Nahas/Cosmopolitan)

— Cita amores que morreram antes de existir. Você não se casou. Isso é uma questão para você?

— Não penso que “tenho que casar”, “tenho que ter um filho”. Não tenho que nada. Vou vivendo. Na verdade, anos atrás isso era mais forte. Hoje, estudos apontam [risos] que cada vez tem mais gente como eu. Muitas mulheres, inclusive, que não querem saber de homem enchendo o saco. Querem trabalhar, fazer suas coisas. Têm seus relacionamentos. Isso é uma tendência. E é ótimo porque me sinto menos um peixe fora d’água. [risos]

 

— O cinema nacional se divide entre as comédias rasgadas, que faturam milhões, e os filmes cabeçudos, feitos para um público menor. Você está se firmando como um diretor no meio desse caminho. Foi uma escolha consciente?

— Isso começou em O Palhaço. Eu tinha uma intuição. Cada vez que olhava o panorama da produção nacional, pensava: “Será que não é possível contar uma história sensível, divertida, refinada, que seja para o grande público?” Acabou rolando. O filme foi um acontecimento: uma história delicada, com 1,5 milhão de espectadores. Nesse momento, foi como se eu tivesse achado minha veia, minha voz, minha pegada, meu jeito de me expressar. Quando li Um Pai de Cinema, do [Antonio] Skármeta [autor chileno], pensei: está aí, de novo, uma história linda, comovente, com viradas surpreendentes, e me inspirei a fazer o novo longa.

Selton Mello

(Maurício Nahas/Cosmopolitan)

— Seus filmes são muito emocionais, você quer conquistar o espectador pelo coração.

— Totalmente. Esse filme é cheio de ternura. Uma das funções do cinema é fazer você sonhar acordado: você entra numa sala e por um período esquece tudo, embarca num negócio e, de preferência, sai modificado. Com esse longa, eu tive a pretensão de que a pessoa saia melhorada do cinema, que ela pense na família, nas relações. Um filme que faça bem.

 

— O que tem de íntimo seu em O Filme da Minha Vida?

— O jovem se tornando adulto. Tipo os clássicos da literatura e do cinema: O Apanhador no Campo de Centeio, Conta Comigo, The Outsiders. Acho que eles conversam com esse filme. Quis um filme clássico, que todo mundo compreende.

 

— Você se lembra dessa fase da sua vida?

— Me lembro, claro. Eu era inadequado tanto quanto o Tony. Me tornei menos inadequado, mas ainda me sinto inadequado, e isso se reflete nos meus personagens. O amadurecimento não acaba nunca. A gente está sempre amadurecendo… E tem um filme dentro do filme, uma homenagem ao cinema. Um outro amadurecimento.

Selton Mello

(Maurício Nahas/Cosmopolitan)

— Você já declarou que tomava remédios para relaxar. Ainda toma?

— Não era calmante. Era para dormir. Às vezes eu tomo. Mas hoje em dia bem menos. Faço meditação transcendental. Olha aí a maturidade. E isso foi me movendo muito. Daí, o remédio virou uma coisa só para de vez em quando.

 

— Como é a sua rotina?

— Ela é bem sem graça! Sou um velho, né? [risos] Trabalho muito, loucamente. Estou lançando esse filme, escrevendo uma minissérie para a Rede Globo baseada em O Alienista, de Machado de Assis, um sonho que eu sempre tive. Vou dirigir e fazer o Simão Bacamarte [personagem principal]. Como capricorniano clássico, trabalho demais. Viajo tanto, fico sempre em hotel. Então, quando paro, gosto de ficar em casa, descansando, escrevendo, vendo um filme.

 

— Que conselho você daria ao Selton de 20 anos?

— Seja menos ansioso. Trabalhe muito, mas curta a vida. Por causa da minha ansiedade, da minha hiperatividade, realizei muita coisa. Mas também fiz coisas que não precisava. Podia ter aberto mão para viver outras coisas.

 

Comentários
Deixe um comentário

Olá, ( log out )

* A Abril não detém qualquer responsabilidade sobre os comentários postados abaixo, sendo certo que tais comentários não representam a opinião da Abril. Referidos comentários são de integral e exclusiva responsabilidade dos usuários que escreveram os respectivos comentários.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s