Tainá Müller: “Desde pequena sou feminista mesmo sem saber”

No ar em O Outro Lado do Paraíso como Aura, uma dermatologista que vive um relacionamento agressivo, Tainá conta como aplica o feminismo no dia a dia

Talvez você nunca tenha passado por isso — felizmente! —, mas tem muita chance de conhecer uma mulher que já sofreu violência doméstica. Espantosos 71% dos brasileiros (e brasileiras) têm uma conhecida que já foi agredida pelo parceiro (segundo pesquisa do Data Senado, de 2017). A atriz Tainá Müller, que vive a Aura na novela O Outro Lado do Paraíso, tinha apenas 12 anos quando tentou proteger uma vizinha. “Me lembro de escutar brigas horríveis do casal que morava em frente à minha casa, em Porto Alegre. Em um certo momento, resolvi chamar a polícia. Cheguei a pegar o telefone para ligar, mas meu pai me impediu, dizendo que não era para eu me meter — o clássico dito popular ‘Em briga de marido e mulher, não se mete a colher’. Um dia cheguei da escola e o marido tinha matado a mulher a marteladas. Eles tinham um bebê de 2 meses! Aquilo me marcou muito. Hoje, se ouço uma briga de homem e mulher, fico muito atenta. Já chamei a polícia por causa de conflitos de vizinhos. Prefiro pecar pelo exagero do que pela omissão. Vivemos em uma cultura que aceita esse tipo de violência”, lamenta a gaúcha, de 36 anos. E é isso que mostra a dermatologista que Tainá interpreta na novela das 9. A personagem namora Gael (Sergio Guizé) e vive uma relação cheia de violência física e psicológica. Tainá, integrante de um grupo de atrizes, diretoras e produtoras que se reúne para estudar feminismo com as filósofas Marcia Tiburi e Djamila Ribeiro é especialmente sensível ao tema. Ela falou sobre sua personagem, feminismo e maternidade (ela é mãe de Martin, de 1 ano e 8 meses), para a COSMO:

Em casos como o relacionamento da Aura e do Gael, é comum a violência ficar camuflada e a mulher não entender direito que aquilo é agressão. É isso que vocês querem mostrar?

Muita gente pensa que ela gosta de apanhar. Mas acho que nenhum ser humano em sã consciência gosta de ser agredido. Existem pessoas que têm uma relação sadomasoquista, mas, pelo que eu pesquisei, até nessas relações existem limites e regras, é um jogo consensual. Não é esse o caso. Acho que é muito mais uma questão de estar inserida em um contexto social em que a violência é tão presente — às vezes no pai violento, no irmão — que acaba sendo naturalizada. Embora não apareça na trama, a história que eu construí para a Aura é que, apesar de ter estudado e ter referências, ela não está livre dessa cultura, que não é restrita a uma única classe social. A cultura machista é muito predominante. Essa brutalidade masculina os aprisiona também. Muitos homens têm essa atitude violenta para afirmarem sua masculinidade. O Gael, de certa forma, não deixa de ser vítima dessa cultura também. Ele é perdido. Ele trata a Aura daquele jeito porque foi ensinado que é assim, que homem tem que dominar a mulher.

A novela vai mostrar uma saída para a Aura se livrar desse relacionamento?

Espero que sim. Torço para que ela desperte para o fato de que amor e violência não combinam. Não se trata de moralismo, mas de consentimento. E no caso da Aura ficou bem claro, na primeira porrada, que ela não gostou. Só que a violência permeia tanto essa relação que os limites são tênues.

Você já viveu algum tipo de relacionamento abusivo?

Comigo nunca aconteceu. Nem abuso físico nem psicológico. Minha mãe criou as três filhas [ela é a irmã mais velha da apresentadora Titi Müller e da também atriz Tuti] de uma maneira que isso não caberia nunca. Acho que até tive sinais que me fizeram cair fora de relacionamentos assim.

 

Você fala sobre esses temas com as suas irmãs?

A Titi já assumiu publicamente ter sofrido uma violência sexual [a apresentadora do Multishow contou no ínicio de 2017 que foi vítima de estupro], mas não me sinto à vontade para falar sobre esse assunto. Tive amigas que já foram estupradas, abusadas por tio. Isso é muito comum! É uma cultura que trata o homem como um selvagem. Como se ele fosse incapaz de controlar seus instintos sexuais. Venho do Rio Grande do Sul, onde essa coisa do macho é ainda mais impregnada. Aí, acho louco que tem gente que reclama do politicamente correto. Dizem assim: “Ai, que mundo chato, não dá mais pra ser machista, homofóbico, racista. Tá muito chato, não posso me divertir.” Reclama porque não é com eles, né?! Um absurdo.

De que forma o curso que você fez sobre feminismo influencia nesse papel?

Desde sempre sou feminista, mesmo sem saber. Desde a primeira vez que vi que não podia fazer certas coisas por ser mulher. Eu tinha uns 7 anos e estava sentada de perna aberta quando uma tia me disse para não sentar daquele jeito porque eu era uma mocinha. São pequenas coisas que vão te tolhendo ao longo dos anos. As aulas só aprofundaram o meu conhecimento filosófico e teórico.

O que é ser feminista?

Em primeiro lugar, é ter consciência da cultura machista — fato que muitas mulheres não têm. Em segundo, é não aceitar a opressão e as limitações que essa cultura nos impõe. Em terceiro, encontrar um novo normal, em que a gente resignifique os padrões e perceba que existem mulheres em condições muito mais vulneráveis que as nossas. Eu, como mulher branca, tenho consciência de que ser uma mulher negra é bem mais difícil, e que uma mulher ser indígena também é. E você não pode tratar igual o desigual, afinal isso é hipocrisia. Por isso, a gente tenta ajudar a levantar quem está por baixo para, quem sabe um dia, atingir a igualdade.

Como eram as aulas?

Eram encontros semanais, cada vez na casa de uma. Eles ainda rolam, eu é que fiquei um pouco mais afastada por causa das gravações e do meu bebê. A ideia foi da Camila Pitanga. A gente vinha falando bastante de feminismo e daí veio esse interesse de estruturar melhor o pensamento, se aprofundar no que as pensadoras falam. Se você reparar, todo pensamento filosófico e até científico é feito por homens. As mulheres sempre precisaram batalhar um milhão de vezes mais para estar nesse lugar de pesquisa, de voz intelectual. É muito interessante perceber quanto o lugar de fala é masculino. A história é contada e editada pelos homens, mas existiram e existem grandes mulheres, que fizeram e continuam fazendo coisas incríveis. Então, uma das nossas ideias é desconstruir isso.

Você mudou depois dessas aulas?

Muito. Acho que vieram duas coisas juntas: a maternidade e o aprofundamento do feminismo. Hoje, eu questiono tudo. Por exemplo, quando uma mulher em cargo de poder tem uma atitude ambiciosa e é criticada. Vejo esses comentários em uma rodinha e imediatamente pergunto se as pessoas criticariam da mesma forma se fosse um homem naquela situação ou se ele seria admirado.

Você se preocupa com a educação do seu filho nesse mundo?

Bastante. Vejo que desde cedo os meninos são instigados e cobrados a se afirmar pela violência, com lutinhas, com super-heróis. Não quero isso pra ele. Quero que saiba se defender de outra forma. Ao mesmo tempo, vejo que a delicadeza e as emoções não são muito trabalhadas com os meninos. Tento fazer com que o meu filho saiba que ele pode dar vazão aos sentimentos. Também quero ensiná-lo a cuidar — porque em geral ensina-se a menina a cuidar e o menino a ser cuidado. Comprei um boneco desses “neném” pra ele e, na hora de comer, enquanto eu dou comida para o Martin, meu filho dá comida para o neném. Além disso, ele tem esse exemplo dentro de casa. O pai é muito presente, faz tudo que eu faço. Então, se um dia o Martin escolher ser pai, já vai ter esse “preparo”.

Como foi voltar ao trabalho depoisdo nascimento do Martin?

Eu fiz uma minissérie, Edifício Paraíso, em São Paulo, quando ele tinha 5 meses e meio. Daí, a família toda veio para São Paulo. Como o Henrique [Sauer, marido da atriz e diretor de novelas da Globo] sempre emendou um trabalho no outro, ele conseguiu tirar uma licença de quase seis meses quando o Martin nasceu e, no início, éramos só nós três o tempo todo. Durante as gravações da série, ele ficava no camarim com o Martin e entre uma cena e outra eu ia lá amamentar. Gostei de voltar a trabalhar. Respeito a mulher que opta por ficar em casa, mas eu não consigo. Gosto de sair e fazer as minhas coisas. E tenho uma filosofia: mãe feliz, filho feliz.

Você também vive a culpa materna por deixá-lo com a babá?

Às vezes, quando estou saindo, ele gruda na minha perna e chora. Fico com o coração partido. Mas tento trabalhar essa culpa, porque eu tenho uma vida, sou um indivíduo, ele também, e temos que respeitar a individualidade um do outro. Até porque, quando crescer, é ele quem vai dar tchau pra mim.

Você é uma otimista?

Sou. Acho que a gente pode dar dois passos pra frente e um pra trás, já que a humanidade pulsa, ela não caminha em linha reta. Se você pensar que as sufragistas [movimento feminista que começou no fim do século 19] estavam pedindo permissão pra sair de casa sem autorização do marido, já avançamos muito. Por isso sou otimista. Acho que o mundo caminha para a liberdade. O que pode nos prejudicar é a degradação ambiental, que está piorando muito. E aí é onde a moral e a civilização podem cair por terra. No momento em que a escassez for muito grande, tudo que a gente conquistou de moral some, porque o que manda é o instinto de sobrevivência. Experimente um blecaute de três dias em São Paulo e você vai entender do que estou falando. Nesse ponto, sou bem pessimista. A civilização é muito frágil, temos que cuidar dela.

Quais seus próximos passos?

Em 2018, a escritora Hilda Hilst vai ser a homenageada da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), e eu tenho uma relação de admiração profunda por ela. Adquiri os direitos de fazer a cinebiografia dela, mas esse projeto está um pouco parado. Tenho o plano de apresentar alguma coisa na Flip sobre ela. Também comecei um documentário sobre a artista Berna Reale. Gravei uma primeira entrevista com ela e comecei a montar na ilha de edição que temos em casa. Gosto muito de falar dessas mulheres complexas. As pessoas estão acostumadas a colocar rótulos nas mulheres e quero mostrar que não somos tão facilmente catalogadas, temos complexidades e contradições.

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