Tudo o que você precisa saber sobre a Liniker

Primeiro, Liniker fugia de rótulos. Depois, o processo rolou meio sob os holofotes, mas hoje, Liniker tem orgulho de dizer que é feminina.

Uma mulher quando começa a descobrir a força que carrega dentro de si irradia potência. Tem o viço na pele, um olhar que brilha, a fala pulsante. É isso que a gente vê quando Liniker chega a um estúdio em São Paulo, pouco mais de 8 horas da manhã de um feriado, para fazer as fotos que acompanham estas páginas. A cantora de 22 anos está cada vez mais consciente do seu lugar no mundo e nos conta de sua trajetória de ascensão — e transformação. A primeira mudança é de endereço. Ela, que já chegou a morar em república dividindo espaço com nove pessoas, agora tem um lugar só seu. Uma casa com quintal em um bairro tranquilo da zona oeste de São Paulo, onde gosta de receber, cozinhar para os amigos (é boa em fazer macarrão e estrogonofe) e ficar sozinha. “Foi uma das melhores escolhas que já fiz. Ter meu canto, minha organização. Ficar atenta à alimentação, aos exercícios. Às vezes dá uma solidão, principalmente à noite, mas é bom.”

Natural de Araraquara, interior paulista, Liniker de Barros Ferreira Campos, nome inspirado no ex-jogador de futebol inglês Gary Lineker, estourou com sua banda, Liniker e os Caramelows, em 2015, quando colocou três vídeos na internet. Com visual que misturava bigode com saia, turbante e batom, letras que falam de amor com intensidade e estilo que flerta com a soul music, Zero (12 milhões de visualizações), Louise du Brésil e Caeu viralizaram. “Estava numa fase complicada. Em uma cidade [Santo André] que não era a minha, cursando escola de teatro, passando fome, sem dinheiro para o aluguel. Aquele corpo estava muito fragilizado e sensível”, lembra.

Logo entendeu, no entanto, que sua mensagem era potente. Disse em entrevista “o que eu sei é que sou bicha, preta, pobre e estou aí, batalhando”. E começou a formar um público apaixonado. “Não imaginava que podia transformar pessoas com o que crio. Elas cantam, dedicam umas para as outras, tatuam na pele. Recebo muitos relatos. Chega coisa bem barra-pesada, como uma vez ouvi: ‘Ia me suicidar, mas uma amiga me mandou uma mensagem com uma entrevista sua e vi sentido de viver’. É muito doido.”

Usando a música como bandeira (do amor, principalmente), a cantora atualmente passa por sua maior mudança: de se entender como uma mulher trans. Quando despontou, ouviu questionamentos: é homem, mulher, travesti? “Me via numa coisa muito não binária. De me entender o Liniker, a Liniker. Dentro de mim sempre soube que era a Liniker. Vivi 18 anos condicionada à ideia de que era uma coisa, mas porque não conhecia outra. Entendia meu corpo diferente, mas não sabia o que era gênero, nunca tinha estudado. Com o tempo, fui amadurecendo, dando espaço para ser quem eu era, sem medo de nenhuma repressão, por mais que ela exista. Foi quando entendi que eu sou uma mulher.”

Liniker virou uma voz relevante quando se fala de resistência e empoderamento. No último Rock in Rio, em setembro, protagonizou com Johnny Hooker um beijo ao fim de Flutua, música feita pelos dois. Um telão mostrava os dizeres “Amar sem Temer” e falava sobre o Brasil ser o país que mais mata LGBTs no mundo. “Uma mulher trans e um homem gay se beijando com afeto, com sentimento. Esse beijo é tão deslegitimado. Por isso é tão importante resistir.” E ela faz isso ao lado de nomes como Linn da Quebrada, As Bahias e a Cozinha Mineira, Tássia Reis, Gloria Groove. “Me sinto muito feliz de fazer parte de um cenário artístico em que muitas pessoas fomentam a liberdade no punho, usando seus espaços de fala.”

O caminho para entender a transição passou menos por leituras e terapia e muito mais por conversas com amigas trans e travestis. “Foi um mergulho. De voltar para a infância, entender a depressão que passei. Tem criança que já nasce com a transgeneridade aflorada. Eu sabia, mas não tinha informação. Era outra época, outro contexto social.”

Na família, ela encontra respeito. “Minha mãe, por mais que saiba que sou mulher trans, travesti, tem dificuldade de usar o pronome feminino. Mas entendo, ela passou 18 anos achando que tinha um filho. Quando me desconstruo, desconstruo quem está junto. Vou explicando.” Da infância, aliás, as lembranças são felizes. Liniker foi criada por mãe, avó e tia junto com o irmão mais novo, Vitor, hoje com 15 anos. O pai sempre foi ausente. “A criação que minha mãe me deu foi muito importante, de pautar que a vida não era fácil, que tinha que estudar, batalhar, que esse era o único jeito que eu ia conseguir viver.”

 (Julia Rodrigues/Cosmopolitan)

No processo de se descobrir mulher, tem dias em que ela quer se montar, se maquiar, tombar. Em outros, prefere o combo jeans, camiseta branca e tênis. À parte ter deixado de ler comentários na internet por não conseguir lidar com tanta violência, Liniker está à vontade. “Tudo é muito natural. Estava tudo aqui, só tô deixando sair. Me vejo muito vaidosa, à vontade com meu corpo, com minha estrutura, meu rosto. Não preciso de mais. Talvez daqui a alguns anos queira.” A cada dois meses, ela inventa uma moda para o cabelo. Atualmente, tem a franja cacheada, coisa que nunca viu nas primas, por exemplo. “Adoro fazer do meu corpo o que eu quiser. É um processo de me olhar todo dia no espelho e ver a mulher em que tô me tornando e ter muito orgulho, de não ter medo, de saber que sou bonita pra caralho, que, sim, esse corpo me pertence.”

Claro que existe o outro lado. E nele tem preconceito, racismo, violência. “Nosso corpo é hipersexualizado, tem uma trajetória histórica violenta. De andar na rua e ser xingada, de passarem a mão achando que é público. Ser famosa não muda. Recentemente apertaram minha bunda em um show. Aquilo me corroeu, fiquei com vergonha, senti angústia. Mas consegui falar que estava cansada de ser objetificada todos os dias.”

Para o futuro, tem vontade de fazer cinema, escrever um livro, viajar por um tempo, sem data para voltar. “E também tenho vontade de ter filho, cachorro, um companheiro — ou uma companheira, de repente.” Sempre com a certeza de que as transformações são o que movem sua vida. Com a bagagem, apesar de tão pouca idade, finaliza a conversa com um conselho para quem também se encontra em meio a um turbilhão, seja de qual ordem for. “Se permita ser o que seu corpo tá propondo que você seja, o que o seu coração tá precisando ser. Troque afeto, seja afeto.”

 

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