Denice Santiago faz a segurança de mulheres vítimas de violência

A major de 47 anos, criou a ronda maria da penha, na Bahia, que cuida da segurança de mais de mil mulheres vítimas de violência doméstica

“Gosto da disciplina e da ordem. Sou Áries com ascendente em Escorpião”, diz Denice Santiago sobre o que a levou a prestar, aos 18 anos, a Academia de Polícia Militar da Bahia. A soteropolitana fez parte da primeira turma de mulheres policiais do estado, em 1990, depois de 165 anos em que a corporação foi exclusiva aos homens. Além de pioneira, Denice, 47 anos, ajudou a escrever a história da polícia feminina baiana. Em 2005, visitou a PM de São Paulo, que comemorava 50 anos de seu segmento feminino. “Escutei as mulheres falando sobre depressão e suicídio. Falei para uma amiga: ‘Isso vai acontecer com a gente’.”

Então, a major pediu ao seu comandante para criar um centro de referência para a mulher, até hoje o único do gênero no país.

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Nasceu em 2006 o Maria Felipa (homenagem à heroína da luta pela independência da Bahia), com a missão de melhorar as condições de trabalho das policiais, prevenindo assédio moral, sexual e instaurando uma portaria para gestantes. Antes dela, a PM grávida ficava à disposição do comandante e poderia fazer ronda até o nono mês, se ele achasse que ela deveria. Com o documento, no dia em que a gestação é confirmada, a policial deixa as ruas e segue para o trabalho administrativo. “Por ser mulher, ela precisa, sim, de um tratamento diferente em alguns casos, das especificidades dela respeitadas, mas não de privilégios.”

Em 2012, instaurou a Ronda Maria da Penha, batalhão especial que protege mais de mil mulheres vítimas de violência doméstica que já procuraram o Estado. A ronda faz visitas periódicas a elas em sua residência a fim de evitar novas agressões — um modelo trazido do Rio Grande do Sul. “Fui até lá aprender como funciona, trouxe para Salvador, coloquei um azeite de dendê e uma pimentinha.” Entre suas inovações, Denice criou um projeto de prevenção, o Ronda para Homens, que ela chama de Clube do Bolinha. Nele, PMs homens conversam com os agressores sobre violência. A iniciativa foi premiada com o Selo de Práticas Inovadoras no enfrentamento à violência contra mulher no Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Entre tudo isso, a major cursou psicologia e fez mestrado em gestão social, com tese que discutiu a discriminação racial na polícia militar. “Tenho um filho adolescente negro e preciso fazer com que a corporação reflita sobre seu posicionamento com essa população. Também precisava analisar isso nas minhas práticas.” E ainda planeja um doutorado: “Minha ideia é falar sobre essas mulheres que protejo. Entender melhor esse ciclo da violência”. Denice criou um jogo de tabuleiro, que faz com que elas reflitam sobre a violência que sofrem no cotidiano em situações hipotéticas, como o companheiro pedir para ela mandar uma selfie e sua localização toda vez que sair com as amigas. Se ela decide mandar, volta duas casas; senão, avança. Atualmente, está trabalhando com um quilombo na Bahia onde havia 20 anos a polícia não entrava. A Ronda Maria da Penha obteve permissão. Lá, conversam com homens, mulheres e crianças sobre violência doméstica, cada uma ao seu modo. “Não podem me deixar parada que eu invento coisa.”

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