“A violência pode acontecer no segundo seguinte ao riso”

Leia o relato da jornalista paulistana Camila Caringe, 30 anos, sobre a violência que sofreu em casa, da pessoa que amava e com quem convivia diariamente.

“Foi só um arranhão. Primeiro ele me arranhou, mas foi só de leve. Ele não queria. Eu fui teimosa, ele não gostou, me pegou pelo braço, puxou, marcou um pouco, mas foi só isso. Um arranhão. Ele pediu desculpas. Estava nervoso. No outro dia foi uma mordida. Se fosse, sei lá, de um estranho, eu diria ‘Foi agressão’. Mas era ele. Meu melhor amigo, meu amor, meu namorado. A gente sempre se mordia brincando ou transando. Naquele dia foi na briga. Ele ficou bravo, me mandou embora, eu fui. Quando me virei de costas, ele pulou em cima de mim e mordeu meu ombro. Ficou a marca dos dentes. Mas eu não tinha certeza sobre o que aquilo significava. Era ele, não um estranho. Tudo bem. Foi só uma mordida. Numa noite, ele puxou meu cabelo. Mas também fazia isso quando me beijava. Era confuso. Quando tentei me afastar, ele jogou o sofá na minha frente e fechou minha passagem. Mas estava nervoso.

Lentamente, fui perdendo o referencial. O que era agressão foi ficando difuso, sem limites. Fosse um estranho, eu saberia dizer. Com ele não. Éramos amigos, depois amantes, era uma relação ímpar, uma intimidade sem precedentes, eu sentia a dor dele, ele sentia a minha, estávamos sempre juntos. A fronteira de onde terminava um e começava o outro havia sido borrada fazia tempos, quando ele sentia ciúme dos meus amigos sutilmente e orientava onde eu estaria e com quem, a que horas, pra quê. Aquele primeiro arranhão, pensando agora, inaugurou uma nova fase da nossa relação. Uma etapa na qual eu abriria a porta da cozinha e o veria riscar o próprio braço com uma das minhas facas. Meu amigo de infância, o menino dos meus olhos, foi lentamente virando meu raptor. Convivíamos desde os 9 anos de idade, crescemos juntos, mas eu não o conhecia.

Algumas pessoas acham que existe uma certa conivência ou voluntariedade na submissão em um relacionamento abusivo. Não. O que há é uma tentativa ingênua de negociação que nunca avança, porque sempre para no meio do caminho. Enxergar um homem que é capaz de atrocidades, mas também de docilidades, que se ergue e se rende como qualquer ser humano. Mas vai mais alto quando se levanta. E mais baixo quando desce.

Como sou jornalista, ele me dizia que tinha muito medo de que um dia eu contasse a nossa história, que alguém soubesse o que ele fez comigo, que isso ficasse de alguma maneira registrado na trajetória dele. Na época, claro, não havia intenção. E se conto hoje que um dia ele deslocou os ossos de três dedos da minha mão direita com um chute não é por vingança ou para afligi-lo. Mas para dizer a quem não entende o que ele gostaria que eu dissesse sobre ele: o meu agressor é capaz de gestos generosos e solidários. Ele é simpático e bem-humorado. A parte que ele não gostaria que eu contasse é que agressores não são monstros o tempo todo. E que a violência pode acontecer no segundo seguinte ao riso, sem motivo, porque o gás acabou ou porque o barulho das teclas que digito o irritou. Um homem violento pode fazer coisas boas. E fazer coisas das quais não tenho notícia nem no extremo da selvageria: bater na mulher que está esperando um filho dele.

Por mais contraditório que possa parecer, ele me ajudou quando me engravidou. O afeto que primeiro me paralisou acabou por mobilizar. Aos cinco meses de gestação, ele me jogou no chão e sentou em cima da minha barriga. Aos oito, lançou um sapato no meu rosto que deixou a marca da sola no lado esquerdo. Aos nove, arrombou a porta do banheiro para onde corri, segurou meu cabelo e bateu minha cabeça na parede seguidas vezes. Quando minha filha completou 6 meses, meu amor pela criança superou em muito minha paciência com ele. Ficou claro que eu era a chance que ela tinha de ter uma vida equilibrada, sadia. Então fiz o que precisava fazer: me separei dele.

Se ele lesse este texto antes, não aprovaria. Ele gostaria que você soubesse que ele não é uma pessoa ruim. E eu ressalto: as pessoas não se dividem em grupos de boas e más. Agressores são homens comuns, socialmente produtivos, trabalhadores, contribuintes, risonhos. O conjunto de crenças, o grau de inconsciência e as motivações que levam um homem a agredir são muitas, variáveis, complexas e imprevisíveis. Eu faço o que posso, escrevo para as mulheres. O que nos leva a um relacionamento abusivo também é difícil de explicar. Somos das mais diferentes origens, já que a violência doméstica é bastante democrática. Mas uma vez em relacionamento violento, não existem muitos caminhos. Eu diria que são dois, basicamente: a morte ou a saída. Enquanto você está viva, há saída, mesmo quando parece que não.

Admito: um dia chorei achando que pra mim não havia mais, que eu morreria sufocada pelas mãos que apertavam meu pescoço fazendo ameaças. E poderia ter morrido.

Não é por escolha que uma mulher é abusada. Mas só uma decisão firme e lúcida pode tirá-la do lugar estreito. É o que eu desejo para a nossa filha. Que ela busque lugares amplos quando se vir em um lugar estreito. É o que eu desejo para todas as mulheres. Mas para ela, especificamente, quero ser o exemplo.”

 

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