“Só podemos mesmo ter coragem”, diz amiga de Marielle Franco

Para Thais Ferreira, ativista negra e amiga de Marielle Franco, as mulheres negras têm o dever de ocupar os espaços de poder público.

A empreendedora social Thais Ferreira, 29 anos, pensava em como escreveria o dia 15 de Março de 2018. Negra, mulher, mãe de três filhos (o enteado de 6 anos, um de 4 e outro de 1 ano e meio), ela saiu de São Paulo, aonde participava de um programa de formação política, o Renova Brasil, para o enterro de sua amiga Marielle Franco, a vereadora carioca assassinada com nove tiros no centro do Rio de Janeiro na noite dessa quarta-feira (14). “Se me perguntasse hoje o que me fez despertar para a política, a resposta seria esta data”, afirma com exclusividade à Cosmo após sair do cemitério.

Thais sabe que o caminho não é fácil, mas é possível. O Brasil está em 154º lugar em participação política feminina no ranking mundial divulgado pela União Interparlarmentar. As mulheres recebem menos recursos financeiros para suas campanhas, além de não terem o apoio integral dos partidos. E, após Marielle, a certeza de que a morte pode ser uma opção para quem não aceitar as condições do crime organizado. “A morte assusta a todos e a gente naturaliza as mortes. Prefiro que a morte continue me assustando para que eu continue lutando”, diz.

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Mesmo triste pela perda da amiga (“ela era uma grande embaixadora das mulheres negras”), Thais procura ressignificar seu luto como luta e mesmo sem ainda estar filiada a algum partido político (ela tem conversado com o PSOL do Rio), já se declara como pré-candidata a deputada estadual. “Não tenho outro lugar possível que não a política. Creio que todo momento é o momento da mulher negra e essa hora só podemos mesmo ter coragem”, acredita.

thais ferreira amiga de marielle franco

 (Arquivo pessoal/Divulgação)

Thais esteve com a vereadora no dia 8 de Março durante uma roda de samba formada apenas por mulheres. A empreendedora lembra do incentivo que recebeu para fazer parte da política institucional brasileira. “Nós, mulheres negras, somos sempre o primeiro alvo. É justo que tenhamos também o primeiro ganho, que ocupemos os espaços”. Para ela, a história de Marielle já é um legado de coragem. “Antes de morrer ela perguntou quantas mais teriam que partir nesta guerra. Me faço esta pergunta agora: quantas terão que morrer e aonde estaremos para termos paz?”.

Antes de encerrar a entrevista, a empreendedora social se mostrou consciente do papel que agora lhe cabe, de honrar a luta das mulheres negras. “A Marielle sempre disse que uma subia e puxava a outra para o topo. Infelizmente foi deste modo que ela me puxou. Mas puxou”.

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