Marielle, presente!

Em texto exclusivo para a COSMO, integrantes da Idánimo Comunicação, consultoria negra, feminista e LGBTQ+, refletem sobre o assassinato da vereadora

A morte de Marielle Franco carrega algumas simbologias e é muito importante que a gente preste atenção a elas. O fato da Marielle ser mulher, negra e da periferia são demarcadores sociais, não meras características aleatórias. Mais que física, foi uma morte simbólica. Uma tentativa de executar tudo o que ela representava.

Menos de vinte e quatro horas após seu assassinato, alguns grupos já afirmam que ser mulher negra e periférica não tem nada a ver com a sua execução. Para entender que tem sim, muito a ver, vamos começar do princípio. Quem era Marielle?

Marielle Franco, 38 anos, negra e nascida na Maré, foi a quinta vereadora mais votada da cidade do Rio de Janeiro. Suas pautas eram explicitamente em defesa da população mais pobre, das mulheres e dos negros – denunciar o genocídio do povo negro foi o que a levou à política. Ela se opunha com veemência à presença das Forças Armadas nas favelas do Rio e se tornou, em 28 de fevereiro, relatora da comissão de acompanhamento da Intervenção Federal. No dia 11 de março, quatro dias antes de ser morta, fez uma denúncia sobre abusos policiais na favela de Acari, com operações do 41o Batalhão da Polícia Militar, considerada a mais letal do estado. A PM de Acari matou, nos últimos 6 anos, 430 pessoas durante as suas ações policiais. Dentre elas, Maria Eduarda, enquanto estava na escola. Para efeito de comparação, sete policiais do 41o batalhão foram mortos no mesmo período. Em 14 de março, Marielle foi brutalmente assassinada.

Esta situação independe de achismos, é uma fotografia dos fatos: existiu uma cronologia de acontecimentos desde as ações de Marielle até a sua morte.

Nas últimas horas que se passaram, desde a morte de Marielle, acompanhamos pelos feeds do Facebook pessoas dizendo que estamos voltando para a época da ditadura. Desde a escravidão, a população negra não sabe exatamente o que é um período de paz. Após a época do trabalho forçado, após a abolição, negros não tiveram seus direitos assegurados. Trabalho, moradia e educação eram direitos garantidos pelo Estado apenas aos chamados “cidadãos de bem” – na época, ser um cidadão de bem significava ser branco. Enquanto a imigrantes estrangeiros eram concedidos benefícios que facilitariam uma estabilidade em terras brasileiras, negros foram proposital e literalmente esquecidos, em um projeto que deliberadamente propunha o embranquecimento da população, com pauta no forte racismo científico que pregava que negros eram intelectualmente inferiores.

E as mulheres negras foram e continuam sendo as que mais sofrem dentro de um estado racista e de uma sociedade claramente e veladamente racista. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2016, a cada 120 minutos, uma mulher é assassinada no Brasi. 65,7% dessas mulheres são negras. Nos últimos 10 anos, houve um aumento de 22% neste índice.

As pautas negras são históricas. Ao contrário do que prega o senso comum, não é vitimismo ou modismo. Marielle Franco representava e lutava pela população negra em busca do cumprimento dos direitos básicos daqueles que estão em situação de vulnerabilidade.

Parafraseando Marielle: quantas mais mulheres negras vão precisar morrer para que você não mais se cale? Enquanto toda a sociedade não se sentir responsável e furar a sua bolha, enquanto as vozes inconformadas de mulheres negras continuarem sendo silenciadas, enquanto os nossos corpos negros continuarem servindo de escudo para a manutenção de seus privilégios, Marielles, Eduardas e tantas outras continuarão a existir.

 

Helaine Martins

Jornalista há 14 anos, especialista em conteúdo com impacto social, principalmente sobre gênero, raça, educação e cidadania. Criadora do projeto Entreviste um Negro e cofundadora da Idánimo Consultoria de Comunicação. Vem falando sobre racismo e diversidade no jornalismo em lugares como Rede Globo e Festival Colaboramérica e Festival Path.

Gabriela Moura

Possui mais de 10 anos de experiência em comunicação e atua em movimentos sociais. É co-fundadora da organização Não Me Kahlo, pelos direitos das mulheres, e coautora do livro #MeuAmigoSecreto.

Joana Mendes

Rondoniense, é redatora publicitária há 13 anos. Vem falando sobre feminismo, raça e publicidade em lugares como: Festival Share, Campus Party, ESPM, Mackenzie e Publicis.

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