Mulheres ganham quase 23% a menos que homens no Brasil

E a previsão é que só iremos alcançar a igualdade econômica entre gêneros no mundo daqui a 200 anos.

É como se a partir das 16 horas seus colegas homens seguissem sendo pagos e seu trabalho parasse de ser remunerado. Nós, brasileiras, ganhamos hoje quase 23% menos do que eles. E a previsão é que só iremos alcançar a igualdade econômica entre gêneros no mundo daqui a 200 anos. Saiba o que você pode fazer para combater essa diferença e acelerar o processo.

Para refilmar algumas cenas do filme Todo o Dinheiro do Mundo, no fim do ano passado, Michelle Williams recebeu menos de mil dólares, enquanto Mark Wahlberg levou 1,5 milhão. Sim, você leu certo: pelo mesmo trabalho, ele faturou 1 500 vezes a quantia dela. Wahlberg, no calor da discussão do Time’s Up (movimento comandado por atrizes americanas contra assédio sexual), doou seu cachê ao fundo da campanha e em nome de Michelle. Hollywood não é uma exceção, mas uma amostra do que acontece pelo mundo. Segundo o The Global Gender Gap Report 2017, relatório elaborado pelo Fórum Econômico Mundial, a desigualdade de gêneros voltou a crescer no mundo após dez anos de avanços. O estudo, publicado desde 2006, analisa a paridade de 144 países em relação a quatro temas: saúde (expectativa de vida), educação (conclusão dos estados nos diversos níveis), participação econômica (ganho salarial, ocupação de cargos de chefia) e política (número de mulheres em cargos legislativos e ministeriais). Em 2017, a diferença global entre sexos foi de 68% — ou seja, faltam 32% para alcançarmos a paridade. E os quesitos em que mais precisamos progredir são economia (58%) e política (23%); já estamos quase lá em relação à saúde (96%) e à educação (95%).

No ranking geral, onde o melhor desempenho em paridade fica com a Islândia, o Brasil ocupou apenas o 90º lugar. É preocupante a nossa desigualdade na economia (65%) e na política (10%). Segundo dados da Pesquisa Nacional de Amostras de Domicílios Contínua 2016, divulgada pelo IBGE, a brasileira recebeu um salário, em média, de 1 836 reais, 22,9% menos do que os homens (2 380 reais). É como se eles trabalhassem duas horas a menos para receber o mesmo que nós, mulheres, se levarmos em consideração apenas o tempo de trabalho, e não escopo de tarefas ou produtividade.

68% é a diferença em relação ao acesso à saúde, à educação e à participação econômica e política entre os sexos.

O mesmo Global Gender Gap Report também mostra que as mulheres estão saindo do sistema educacional qualificadas, mas as indústrias estão falhando em contratá-las, mantê-las e promovê-las. No Brasil, um estudo da Fundação Getulio Vargas publicado no ano passado aponta um dado nada animador: quanto mais tempo a brasileira estuda e se prepara, maior é sua desvantagem salarial comparada a um homem que tenha a mesma formação. Já uma pesquisa da consultoria americana Korn Ferry indica que as brasileiras ocupam apenas 16% do universo total dos cargos de liderança.

A discussão sobre equidade salarial parece ainda mais delicada no atual cenário brasileiro, com a economia em crise e altos índices de desemprego, o que faz com que as pessoas fiquem receosas em levantar questões como essa. Mas é possível. Se não acelerarmos as mudanças, a igualdade salarial levará 217 anos para ser alcançada, segundo esse mesmo relatório do Fórum Econômico Mundial.

No escritório:

Diante desse cenário, uma questão prática: podemos pedir abertamente para saber quanto nosso colega que desempenha a mesma função ganha? “A remuneração de outro profissional é confidencial na maioria das organizações”, diz a coach e consultora de carreira da empresa de recrutamento e seleção Orientha, Tânia Abiko, de São Paulo. Mas aí vem outra pergunta: como vou reivindicar algo sem ter uma pista da diferença salarial? “A melhor forma é comparar sua remuneração com a do mercado”, completa. Ou seja, informe-se quanto um profissional que desempenha a mesma função que a sua recebe em outras empresas. Maíra Habimorad, colunista de carreira da COSMO e CEO da Cia de Talentos, em São Paulo, ressalta que se uma empresa não tem uma política de remuneração para seus funcionários, com faixas salariais definidas para cargos, há mais chance de haver disparidades entre homens e mulheres.

Muitas vezes acabamos descobrindo o salário superior de um colega que desempenha a mesma função que a nossa em uma happy hour ou em uma conversa no horário do almoço. E aí, o que fazer? “Vale a pena conversar com seu chefe ou com alguém do Departamento de Recursos Humanos”, diz Maíra. “Normalmente, a pessoa que descobre isso fica muito brava. A primeira coisa a fazer é respirar e organizar os argumentos.” (Leia mais no box “A Hora da Conversa”.) E é importantíssimo se preparar para essa conversa. Tente ao máximo manter uma postura construtiva e evite o papel de mulher magoada que foi reclamar. “Cada um deve cuidar da sua carreira e do seu desenvolvimento. Não se deve utilizar o argumento de que um profissional tem remuneração superior para pedir aumento”, diz Glaucia Teixeira, vice-presidente de RH da Novelis América do Sul.

Mas, se você descobrir que um homem com a mesma função, o mesmo tempo de empresa e a mesma formação acadêmica ganha mais, converse com seu chefe. “Se ele disse que seu par produz mais, você pode pedir a comparação da produtividade de acordo com o plano de metas e, aí, sim, reivindicar a equidade”, diz a presidente da consultoria de sustentabilidade e diversidade Gestão Cairos, Liliane Rocha, de São Paulo. Na conversa com o chefe, vale exemplificar empresas que estão trabalhando para resolver a desigualdade salarial, o que é uma forma de combater essa discrepância. Entre as empresas, há bons exemplos, como a Coca-Cola. A empresa possui uma diretriz global de alcançar a igualdade de gêneros em cargos de liderança até 2020. No terceiro setor, há iniciativas como a Women in Leadership in Latin America (Will), que tem o objetivo de incluir a mulher no mercado. Como outra alternativa, Tânia sugere a mudança para uma empresa que pratique a igualdade salarial entre gêneros. “Pesquise o mercado: com sua formação, perfil, experiência, desempenho, conseguiria uma remuneração maior em concorrentes?”, diz.

E você pode ser agente da mudança. Junte um grupo de mulheres de diferentes cargos e áreas e monte um grupo de discussão. “Procure o RH da empresa, pergunte se há uma política de igualdade salarial e cite exemplos de sucesso. Caso não haja nada nesse sentido, você pode cobrar um posicionamento”, diz Liliane Rocha, que também é autora do livro Como Ser um Líder Inclusivo (Scortecci). É fundamental criar o hábito de conversar e questionar sobre decisões que enfraqueçam a mulher na empresa.

Fora do escritório:

Saber o que acontece no mundo também te ajuda em qualquer argumentação. E há notícias boas. Em 1º de janeiro, entrou em vigor na Islândia uma lei que proíbe discrepâncias salariais entre gêneros. Desde o ano passado, o governo do Reino Unido obriga empresas com mais de 250 funcionários a divulgar relatórios de diferenças salariais entre sexos.

Outro dado animador: segundo estudo do Instituto Global McKinsey de 2015, 12 trilhões de dólares poderiam ser somados ao PIB global até 2025 com a equidade entre os gêneros. Fora os ganhos com habilidades, ideias e perspectivas femininas. Não há prejuízo em sermos mais igualitários.

 

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