O que eles pensam do trabalho delas

Mesmo enfrentando más condições, como salários baixos e falta de acesso a cargos de chefia, as mulheres continuam saindo de casa para trabalhar. Quanto aos homens, são apontados como principais responsáveis por todo esse preconceito. Será verdade?

Descubra o que os homens realmente pensam sobre as mulheres no mercado de trabalho
Foto: Getty Images

A maioria dos entrevistados, principalmente quando os problemas são colocados em relação à esposa, filha ou irmã dos outros, acha positiva a euforia da libertação entre homem e mulher. Mas do ponto de vista pessoal nem sempre é assim. De modo geral as posições se dividem. Há os raros favoráveis, inteiramente dispostos a transpor para a sua realidade a igualdade de direitos entre homens e mulheres na qual acreditam. Há os confessadamente contrários, que apontam as diferenças de natureza dos sexos como empecilho para a liberação feminina. Há aqueles que, apesar de desfavoráveis, sublimam com um profundo senso prático as suas restrições. Mais ou menos na base do “ela está feliz e, ainda por cima, trazendo dinheiro para casa. Que mais eu posso querer?”. Há por fim, os que parecem compor a maioria da classe média, cujas ideias entram involuntariamente em conflito com os sentimentos, e muitas vezes com a maneira de agir. O sociólogo CR que, como os demais entrevistados, comprometeu-se a “abrir o jogo” em troca do anonimato, é um deles: ambivalente.

À primeira vista, CR, rodeado de livros, no seu apartamento montado com muito bom gosto, parece inteiramente favorável ao trabalho feminino fora de casa. Uma prova disso podem ser as atividades – que ele considera muito importantes – da esposa professora, com a qual está casado há quatro anos. Desde mocinha, antes mesmo dos dois se conhecerem, quando ele ainda era apenas um universitário, ela já trabalhava. Agora, ela faz parte da direção de uma escola. Outra prova de ser favorável é o fato de o casal, durante certo tempo, ter morado em cidades diferentes em função do trabalho de ambos. Além disso, a maneira fluente com que disserta a respeito da discriminação de sexos em certas funções, em determinadas empresas – apesar das leis de proteção ao trabalho feminino – ajuda a dar de CR uma imagem de pessoa “evoluída”. À medida, entretanto, que a conversa prosseguee CR vai abandonando o papel de acusado que precisa defender-se a todo custo, começam a surgir os primeiros indícios de ambivalência. Isto é, a mulher tem os mesmos direitos que o homem de ter sua profissão, seu salário, o sucesso profissional. Além disso, tanto intelectual como fisicamente se equiparam, em capacidade, ao homem. No entanto, quando nessa escalada CR se sente diretamente atingido, sendo obrigado a abdicar de certos privilégios tradicionais de homem ser superior, confessa-se contrariado. Por exemplo, quando lhe aconteceu ter uma chefe mulher, acabou pedindo transferência para outro departamento. E justifica: “ela era autoritária, insegura, gostava muito de ser badalada e, às vezes, misturava problemas afetivos com o trabalho”. (Em última análise, CR acaba concordando que, no caso de um chefe homem, a avaliação não teria sido tão severa.)

Independente das posições de comando, as mulheres intelectualmente superiores a CR provocaram nele, segundo confessa, um certo espanto: “demoro a acitá-las.”

Assim como em relação à capacidade intelectual, CR gosta de citar exemplos no campo físico. Ele lembra, por exemplo, como sendo “igual à de um homem”, a resistência física das limpadoras de rua em São Paulo, a energia das catadoras de algodão da Baixa Mogiana, ou a força das mulheres que carregam pesadas vigas, numa indústria paulista. “Só que”, acrescenta, “as mulheres citadas são de outra classe social”. Para a sua própria esposa, CR é incapaz de imaginar – ainda que não lhe negue esse direito – um emprego que a obrigue a viagens, uso de hotéis etc. E ele garante que esse impedimento não tem razões moralistas, mas sim, por ele estar condicionado, no nível dos sentimentos, pela imagem da mulher frágil, indefesa.

Do ponto de vista moral, os 27 anos de CR, aliados ao fato de ter escolhido uma profissão em que o número de mulheres (desde sociólogas a assistentes sociais) é significativo, concorrem para que ele, excepcionalmente, não evidencie sintomas machistas de posse. “Cantadas existem. Especialmente quando as mulheres jogam com seus dotes físicos, como certas recepcionistas e relações-públicas contratadas para amenizar o ambiente. Vi muito, por exemplo, caso de mulheres formando uma espécie de harém do chefe. Mas são, digamos, as bonecas que concordam em assumir tão papel”.

Se no momento CR nem tem chance de se preocupar com ciúmes e relação à esposa (na escola onde ela leciona só trabalham mulheres), no relacionamento doméstico, na divisão de tarefas e obrigações, entretanto, inconscientemente surgem outros conflitos. É onde ele revela traços do macho patriarca. Apesar de saber que, às vezes, sua esposa tem dificuldades em conciliar o trabalho com a casa, fica contrariado quando encontra a geladeira vazia, as roupas sem botões, meias não guardadas na gaveta. Fica irritado quando sua mulher não dá à filha de 3 anos a atenção que ela pede (que na verdade poderia ser substituída pela atenção do pai). Justifica-se, porém, afirmando que não foi acostumado com esse tipo de tarefas. Apesar das aparências, CR ainda está bem próximo da crença em que o trbalho fora de casa é uma subversão à natureza ou às funções da mulher, que “nasceu para cuidar do lar e dos filhos”. Esse é um argumento que metade dos homens contrários à profissionalização da mulher – de acordo com uma pesquisa da Marplan em 1972 – dá para justificar sua posição.

Finalmente, se do ponto de vista intelectual CR está sujeito a sentir-se inferiorizado por uma mulher, o mesmo lhe acontece quando se trata de salário. Ele lembra, por exemplo, quando sua esposa, num período em que trabalhava como instrumentadora cirúrgica, num grande hospital, ganhava mais que ele – “Eu não me sentia bem”, conta, e em seguida analisa: “a ligação da mulher com os aspectos domésticos se revela até no uso que ela faz de seu salário. Geralmente, o dinheiro que a mulher ganha é para as pequenas compras da casa, o supérfluo, o excendente, a poupança. Enquanto que o ganho masculino é para o verdadeiro sustento da casa e da família”.

O cineasta AM, que me atendeu com muito humor, entre latas e rolos de filmes, pode ser definido como um pragmático: “não tá mais no tempo da mordomia; no tempo de um trabalhar para o outro. Atualmente, todo mundo tem que produzir!”

De acordo com aquela pesquisa da Marplan (realizada com 459 homens de várias classes sócio-econômicas, e acima de 18 anos), dos 78% que se mostraram favoráveis ao trabalho profissional da mulher, 37% afirmaram que este era um meio de regularizar as finanças domésticas.

Há sete anos, isto é, antes de casar-se e ter dois filhos, a esposa de AM tinha uma profissão: enfermeira. Casada, grávida logo em seguida, largou o emprego e, sob a aprovação do marido, foi ser dona-de-casa. “Sabe como é”, explica AM, “todo cara de um certo nível e algum status acha que a esposa não deve trabalhar. E eu entrei nessa parada, mais por causa do filho que ia nascer. Hoje entendo que, fazendo isso, eu castrei minha mulher”. Há um ano ela voltou a trabalhar, novamente em setor de enfermagem. Além disso, está fazendo um curso de atualização.

Apesar de o salário da esposa de AM ser insignificante – no momento quase que empata com as despesas surgidas em função do trabalho, como empregada, roupa, sapatos e condução -, ele dá muita importância ao fato de ela estar se tornando capaz de ser economicamente independente. Ou, de acordo com sua maneira engraçada de definir o problema: “acho uma grande sacanagem o homem trabalhar e a mulher usufruir”.

Mas, no fundo, o que esse homem (que se confessa machista e justifica, dizendo que não foi educado nem na Suíça nem na União Soviética, mas em Araraquara, no interior de São Paulo) pensa da mulher que trabalha fora de casa? Independente da possibilidade “de ser um dia sustentado por uma delas” – como explica, brincando -, acredita que em alguns setores as mulheres são mentalmente até mais resistentes do que os homens. Seria o caso das telefonistas, ou das professoras, por exemplo. No entanto, ele acredita também que, “a partir do momento em que a mulher foge do campo profissional feminino e tenta equiparar-se, em força física e mental, ao homem, acaba mostrando-se inferior. E, mais que isso, perdendo a feminilidade”.

A posição de AM, que a princípio parecia inteiramente favorável ao trabalho da mulher fora de casa, torna-se, no decorrer da entrevista, mais limitada: ele se declara um pragmático, diz que os fins (no caso, independência econômica) justificam os meios. Um pouco mais adiante, ainda revela ter noções um tanto pejorativas, a respeito das profissionais. Especialmente quando perguntamos como ele se sentiria se fosse chefiado por uma mulher. “Olhe, até que seria vantajoso, pois ela poderia ser bonita, e então nem haveria necessidade de ser competente”.

Apesar do humor e da irreverência, AM não difere, a não ser do ponto de vista prático, de pessoas como DS, nosso próximo entrevistado, que pensam e agem m função do tradicional “lugar de mulher é em casa”.

Conheço dezenas de mulheres caseiras, boas mães e donas-de-casa, que, em conversas longe do marido, revelam ser casadas com tipos como DS. Mulheres que se sentem isoladas, frustradas, mas sêm ânimo para enfrentar os preconceitos do parceiro. Mesmo assim, quando conheci DS, engenheiro de projetos de uma indústria automobilíctica, 26 anos, demorei a acreditar que ele fosse real: não só é contrário ao trabalho feminino fora de casa, como diz isso abertamente e diante da submissa noiva, com quem vai se casar daqui a alguns meses (fosse ao menos casado, teria a razoável justificativa de que o trabalho doméstico e com os filhos deve ser feito por alguém).

Se a sua noiva vai ficar frustrada por não trabalhar? Os dois não se preocupam com isso. Primeiro porque ela continuará estudando (“línguas, porque eu adoro traduzir”, me diz ela) e se ocupando com outras coisas. Assistência social, por exemplo, como faz a sua mãe. E ginástica… Não, a noiva de DS não irá trabalhar fora, porque “a gente chega cansado do serviço e ainda vai ter que ouvir reclamações do emprego dela? Mulher tem que estar em casa, quando a gente volta, para fazer um carinho, servir uma cervejinha…”

Mas como é que se formam pessoas como DS? Na verdade, ele fez um curso normalmente visto como “masculino”, tem um pai que defende igualmente a mulher doméstica, e uma irmã e que descreve como “professora por passatempo, já que tem uma profissão que não dá dinheiro, nem futuro”. Se ele conhece mulheres profissionalmente realizadas, é incapaz de lembrar agora. No departamento onde trabalha, na indústria automobilística, existem apenas duas secretárias marginalizadas por quarenta homens, que até almoçam em separado.

Além de afirmar que lugar de mulher é em casa, argumenta que profissionalmente elas não são tão capazes como os homens, na maioria das profissões: “a mulher, por natureza, é menos prática, menos objetiva, e não tem poder de tomar decisões. Numa reunião de profissionais de alto nível, por exemplo, ela não conseguiria se impor; não partiria para a agressão, ficando só na defensiva; não teria condições de virar a mesa”. E quando a mulher consegue impor-se e equiparar-se ao homem, DS não tem dúvidas: “por causa da necessidade de tomar resoluções, por causa das responsabilidades do serviço, perde a feminilidade e ganha uma postura masculina”.

Se profissões como as de professoras, secretária, relações-públicas não chegam a ameaçar as funções tradicionalmente reservadas aos homens, por outro lado DS as considera insignificantes: “não se justificam como forma de ganhar dinheiro, nem em termos de possibilidades futuras… Então para quê? Melhor cuidar da casa e dos filhos…

O psicólogo LG, 37 anos, é dessas pessoas que estão levando às últimas consequências a certeza de que a mulher não só dee trabalhar fora de casa, realizar-se como profissional e ser economicamente independente, como também de que ela deve ter toda a liberdade de ação, associada às necessidades de trabalho. LG pensa e vive assim, ainda que às custas de certo sofrimento: “quando algum colega de trabalho da minha mulher telefona para ela, eu às vezes sinto vontade de quebrar tudo à minha volta”. Sentimentos para ele positivos, porque o ajudam a entender-se e a entender os condicionamentos a que ele e a mulher estão sujeitos. O próprio LG conta como ele e sua esposa decidiram-se pela experiência de viver a dois sem se impor limitação alguma: “quando conheci S, ela vivia todos os conflitos emocionais gerados por uma educação que pretende fazer da mulher um ser frágil, sem afoitismo (passa a ser incapaz de procurar o que ela quer fazer, aprender). Além disso, tanto S como eu viemos de família protestantes, extremamente religiosas. Nesse meio a Igreja tem um poder neurótico controlador. Todo mundo controla todo mundo, até o ponto que S tinha um analista também protestante. Isso tudo me fez pensar que a gente podia viver mais satisfatoriamente se não nos impuséssemos limitações. Sabe, tantas coisas são tão difíceis que, pelo menos, acho que não devíamos amolar com mesquinharias a pessoa que está mais próxima de você”.

No início LG sentiu medo. Medo parecido, em intensidade, com o que sentiu quando, vinte anos atrás, um tio seu lhe disse que na União Soviética “as mulheres lavam as ruas!” A verdade é que a mulher, na cabeça de LG, estava muito mais próxima de um ser-mãe que protege, alimenta, cuida do homem. Não alguém que trabalha fora e recebe remuneração por isso, e que, enfim, como S, se propõe seguir carreira universitária.

– Pessoalmente admito que minha mulher tem que trabalhar porque optou por isso, e eu não me sentiria bem se ela não o fizesse. No nível emocional, acredito também que, não trabalhando, ela iria aumentar a minha responsabilidade de mantê-la. Isto é, eu assumiria um encargo que me deixa atemorizado: posso morrer ou ficar, um dia, incapaz! Além disso, acho que um homem não pode ser “aberto” pela metade. Se ele admite que a mulher trabalhe fora, tem que admitir, também, que ela seja solicitada de uma maneira global (que deve comprar suas coisas, estipular seus horários, ter amigos associados ao trabalho). As relações dos dois continuam sendo de marido e mulher, mas ela tem um novo universo de preocupações.

Apesar de acreditar que as relações marido-mulher tradicionais implicam um quase esmagamento da personalidade da esposa, por outro lado ele tem consciência de que o processo pelo qual ele e sua mulher estão passando corre um sério risco: o de ambos se tornarem tão auto-suficientes que se torne ridículo morarem sob um mesmo teto. LG conheceu um casal que chegou a isso. No que toca a ele e à mulher, entretanto, acha que este risco é menor, pelo fato de os dois estarem sempre trocando experiências como pessoas.

De certa forma LG, como o sociólogo CR, ainda tem alguns traços de ambivalência. Entretanto, nota-se claramente que ele não se prende ao fato de ter sido, durante tantos anos, condicionado pelos papéis tradicionais do homem e da mulher. LG não se submete aos conflitos, mas tenta ultrapassá-los. Um exemplo disso é ao relacionamento que mantém com suas colegas de trabalho – numerosas, como no caso de CR. “Já tentei”, diz ele, “ser com elas, sedutor; já tentei ser assexuado, mas hoje aprendi que devo deixar o barco correr, ser apenas eficiente. Apesar de me colocar sempre como homem e de encará-las como mulheres. Porque a verdade é que nós somos com o nosso sexo, e não independente dele”.

Conversar com LG é enriquecedor. Ele mostra o que está além da luta contra a segregação profissional da mulher. Isto é, coloca o que as leis sozinhas jamais serão capazes de realizar, porque implica uma mudança que os homens ainda não estão preparados para aceitar: a integração plena da mulher – como mulher e ao lado do homem – no trabalho e na vida da sociedade.

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