Superação plus size: você pode ser feliz com alguns quilos a mais

A jornalista Juliana Romano achava que ser magra a tornaria uma pessoa mais querida e popular. Fez regimes radicais e chegou a vestir 36 - mas não adiantou nada. Hoje, usando tamanho 50, é uma blogueira plus size de sucesso. Leia o depoimento dela:

“‘Você estava vomitando?’, minha irmã perguntou, do lado de fora do banheiro. Não sei bem como começou, mas, quando me dei conta, não estava só vomitando, estava definhando por dentro e por fora, em uma longa jornada que só terminaria anos depois. Eu tinha 15 anos e, como toda adolescente, nutria o desejo secreto de ser magra. Achava que perder as gorduras me tornaria uma pessoa melhor, mais desejada, querida e popular. Mesmo vestindo 36 – hoje visto 50 -, queria emagrecer. Pensava que as calças e a balança estavam me enganando. O único que falava a verdade era o espelho. E nele eu estava gorda, muito gorda para ser alguém. Foi por isso que comecei a, após as refeições, correr para o banheiro com a desculpa de fazer xixi. Cheguei a um ponto em que não tinha mais nem que enfiar o cabo da escova de dentes goela abaixo para colocar para fora todo aquele sentimento de culpa por ter comido dez grãos (contados!) de arroz.

Juliana Romano chegou a comer 10 grãos contados de arroz por refeição para emagrecer. Hoje, é mais feliz com o seu corpo.

Não sei o que doía mais: o estômago se contorcendo de fome ou a frustração de não atingir nunca o meu objetivo. Essa tortura durou aproximadamente um ano, enquanto tomei um remédio para espinhas com severos efeitos colaterais. Prefiro culpar o medicamento a acreditar que estava doente. Quando o tratamento terminou, minha vida foi aos poucos voltando ao normal – parei de vomitar e de me entupir de laxantes. Mas, claro, como toda mulher, a neurose de ter o corpo perfeito e irretocável continuava lá, no meu subconsciente. Continuei evitando ao máximo qualquer alimento.

Recaída

Nesse tempo, conheci meu primeiro namorado. Eu estava melhorando – ser amada ajuda muito a enxergar suas próprias qualidades. Foi então que surgiu uma viagem para a praia, com todos os colegas de turma, e entrei em desespero. Como eu poderia fazer meu namorado tão perfeito aparecer ao lado de uma coisa gorda como eu? O que as pessoas iriam pensar? Eu tinha só um mês pela frente e era muito pouco perto do tanto que deveria emagrecer. Apelei para um remedinho, hoje proibido, cuja função é tirar o apetite e acelerar o metabolismo. Duas bolinhas por dia e muitos quilos a menos em um mês. Comecei a tomar sem me preocupar com o efeito na minha saúde.

Em 30 dias emagreci oito quilos sem esforço. Minhas olheiras chegavam à metade das minhas bochechas, eu não conseguia ficar mais de cinco minutos concentrada nas aulas e, mesmo sentindo que meu corpo precisava descansar, passava de duas a três horas caminhando na esteira. Eu estava enlouquecida. Fiquei magra, psicologicamente abalada, triste e absolutamente nada mudou – a não ser o tamanho das minhas calças. Quem gostava de mim continuou me amando. Quem não gostava continuava me odiando. E quem nunca tinha notado a minha existência nem ligou. Meu namorado perfeito? Acabou me traindo, anos depois, com uma mulher mais gorda que eu.

A terapia

Precisei de quatro anos e muitas sessões de terapia para entender quanto tinha maltratado meu corpo e minha mente em busca de um ideal inexistente. Depois de todo esse sofrimento, finalmente percebi quanto eu tinha me agredido, interna e externamente, em busca de um padrão de beleza inatingível. Parece clichê, mas é verdade.

Minha terapeuta me fez olhar a situação de fora e racionalizar todos aqueles sentimentos de culpa, vontade de pertencer a um grupo, de querer ser desejada e muitos outros que a gente acredita que virão junto com a magreza e com se encaixar nos padrões. Finalmente entendi que cada pessoa tem seu nicho. E, quando acha outras pessoas que têm a ver com você, se torna alguém muito mais legal.

Superação

Foi na faculdade que encontrei minha turma de verdade, aquela que tinha buscado tanto. Eram pessoas sem preconceitos e com uma vontade de viver imensa. Cada um era de um jeito e todos se respeitavam. Foi nessa fase, quando realmente descobri do que gostava e quem era, que fiz mais sucesso com os homens. Comecei a engordar de novo e mal notei, de tanto assédio nas festas e baladas. Descobri que o problema não é o corpo que você tem, mas o que tem dentro da sua cabeça. Me sentia linda, segura, sabia quem eu queria, o que eu queria e como eu queria. Por algum motivo, essa segurança atrai as pessoas.

Hoje, dez anos depois do episódio do banheiro, visto 50, tenho exames ótimos, amigos maravilhosos, um namorado perfeito para mim e o emprego dos sonhos.

Escrevo um blog desde 2009 (o Entre Topetes e Vinis, blog parceiro de NOVA) com dicas de moda, beleza e comportamento para mulheres que são ou que já foram como eu. O tema, com certeza, gera muita curiosidade: são em média 500 mil views por mês.

Com o tempo, aprendi a ter jogo de cintura com piadinhas, indiretas e indelicadezas sobre o meu corpo. Sempre penso que ninguém é obrigado a me achar bonita, da mesma forma que não sou obrigada a achar ninguém bonito. Por que a opinião dos outros deveria ser mais importante que a minha? Esse é meu corpo, com cada celulite e dobrinha, é ele que faz de mim quem eu sou, e o que tenho por fora é muito pouco perto da mulher que existe aqui dentro. Se alguém acha que eu deveria mudar, acho que o que deveria mudar é a mentalidade dessa pessoa.”

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