Uma mulher que contraiu HIV diz por que você tem que se preocupar

Leia o depoimento de Manuela Estolano, 27 anos, de Olinda (PE) que convive com a doença.

“ Aquela vez não teve como. Na empolgação do momento, que é quando você precisa ter cabeça fria, não consegui segurar a onda. Aliás, não conseguimos, porque eu não estava sozinha!

Nunca pensei que fosse acontecer comigo. Ninguém pensa, né? Principalmente as mulheres que usam métodos contraceptivos para não engravidar, mas parece que nem se lembram dos vírus ou das DSTs. Ele era meu namorado havia cinco meses e do mesmo círculo de amigos.

Como eu ia pegar AIDS de uma pessoa em quem confiava tanto? Nenhum de nós teve culpa. Ele também não sabia que tinha o vírus. Tanto que, quando descobri, já estávamos separados e mesmo assim fui avisá-lo. As pessoas achavam estranho, esperavam que eu guardasse raiva dele. Jamais. A relação foi consensual. Ele não me obrigou a nada!

Descobri que estava infectada em abril de 2012. Devia fazer uns três meses porque era doadora de sangue, e os últimos exames não acusavam nada. Fiquei sabendo porque ia fazer uma cirurgia de redução de estômago e precisei fazer os exames pré-operatórios. Quando saíram os resultados, a ginecologista me chamou no consultório dela para uma conversa privada. Nunca pensei que pudesse ser isso. Nunca sequer passou pela minha cabeça. E nunca pensei também que alguém pudesse ser tão seca dando a notícia. Ela me chamou e falou que eu estava com aids. Assim, sem nem me preparar. Nunca vou esquecer que ela ficava repetindo “Não chore, não” enquanto eu me acabava na frente dela.

Cheguei em casa abalada. Não sei como a minha mãe não enfartou na hora. Ainda por cima, ao sair do hospital, fui assaltada, então estava com um corte no braço. Quando cheguei em casa, aos prantos, minha mãe não sabia se era do corte ou de outra coisa, ela não imaginava o que estava acontecendo. Nem deu tempo de pensar como eu ia contar, em que momento, nem nada. Já soltei um “Tô com aids!” Me tranquei no quarto e chorei por três horas seguidas. Depois disso, minha mãe pegou um cigarro e pediu que eu explicasse tudo direitinho. Ela me deu um superapoio. Nunca chorou na minha frente, mas a ouvi várias vezes triste pelos cantos e falando com meu tio, que é muito próximo da nossa família, perguntando “Por que com a minha filha?”

arvitalya/Thinkstock/Getty Images
É curioso porque sempre li bastante sobre o assunto. Durante muito tempo fiz trabalho voluntário em uma penitenciária em Caruaru [PE], e lá havia muitas oficinas de tatuagem que partilhavam seringas. Para poder passar a informação, eu tinha que ler muito sobre os perigos de usar a mesma agulha, e um deles era a aids. Eu era muito bem informada. O choque foi momentâneo, depois me recompus e me preocupei em cuidar de mim mesma, do meu tratamento e de aprender a viver uma vida controlada e com algumas restrições. Nem cheguei a fazer terapia. Acho que a aceitação é a melhor terapia que se pode ter, e entender que você pode, sim, levar uma vida normal é o primeiro passo.

Quando comecei a atuar na área – sou coordenadora da Rede Nacional de Adolescentes e Jovens Vivendo com HIV e Aids -, também melhorei muito. Gosto de saber que sendo ativista dou voz a tantos outros jovens que possuem a doença mas não contam a ninguém ou não lidam com isso abertamente ou que temem a discriminação. Porque ela ainda existe, viu? Muitos amigos se afastaram depois de descobrir que eu estava infectada. Acho que tiveram medo ou não souberam lidar com a situação. Não sinto raiva deles. Sinto pena pela falta de informação. Raiva eu senti de mim mesma. Por isso também decidi contar a todo mundo. Eu precisava compartilhar, sair do meu isolamento, ver que tinha por aí gente infectada com uma vida normal. Encontrar outras pessoas iguais a mim, com quem rolasse uma identificação, sabe?

Hoje a minha vida é completamente diferente. Antigamente eu tinha a casa sempre cheia de amigos e frequentava a casa deles com frequência. Hoje eu me isolo muito, fico muitas vezes em casa, lendo. Me sinto só mesmo, de verdade. Sinto falta dos meus amigos, da agitação.

 

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No trabalho foi mais fácil. Eu trabalhava com produção de eventos. Contei primeiro ao meu chefe e depois a uma pessoa do financeiro, os dois são os meus amigos mais próximos hoje em dia. Aos poucos fui contando às outras pessoas. Todo mundo sabia, até porque eu saía muitas vezes para fazer exames e faltava ao trabalho por causa dos efeitos colaterais dos medicamentos. Ninguém me discriminou, pelo contrário! Sempre pude contar com o apoio de todo mundo. Quando saía uma coisa nova na internet ou quando ia passar uma reportagem na TV, eles me avisavam.

Depois do diagnóstico, já tive outros relacionamentos. Uns mais sérios, outros menos. Normalmente, quando são só “ficantes”, eu não abro o jogo para não me expor. Vai que o cara surta no meio do bar, me humilha, é agressivo… Só conto quando eu vejo que o relacionamento vai ser mais duradouro ou que vai rolar sexo. As dúvidas que eles têm são as dúvidas normais, e eu gosto de explicar tudo. Sempre uso camisinha. Eu já usava em todas as minhas relações – menos naquela fatídica. Mas a maior parte dos jovens que eu conheço e até dos meus amigos da época não usa. O número de casos tem aumentado muito nos últimos tempos. As pessoas estão banalizando a camisinha e, pior, estão olhando para a aids como uma doença para a qual você só precisa tomar uma medicação – que agora é gratuita – e pronto.

O que esquecem é que ela afeta a sua vida toda. Tem que acompanhar a imunidade e tomar os medicamentos de forma correta, tem que controlar a alimentação, tem que parar de ir à balada… Não é só uma doença. É uma nova consciência, uma nova vida. Nunca li o livro da Valéria, mas conheço a história dela e me inspiro muito. Foi isso que me fez dar voz e rosto a uma campanha nacional, em dezembro de 2012, oito meses depois de descobrir que era soropositiva. Eu nunca pensei em morte. Daqui a dez anos, quero me sentir melhor comigo mesma. Quero fazer novos amigos. Quero ser mãe. Tenho muitos sonhos, e vou persegui-los um a um.”

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