“Vivemos anos fingindo que no Brasil não existia racismo”

A carioca Gabi Oliveira começou o canal Depretas no Youtube inspirada na pesquisa que fez sobre o papel das redes sociais na valorização da mulher negra

COMO SURGIU A IDEIA DE CRIAR O CANAL?

Ao ver a dificuldade de aceitação que ainda existe com a estética parecida com a minha: uma menina negra, de pele mais escura e traços negroides. Quando eu fiz essa pesquisa, durante a faculdade de comunicação, entendi que a gente ainda estava caminhando a passos muito lentos para compreender essa diferença. Quando perdi meu emprego na Comunicação da Petrobras, em 2015, peguei meu último salário, comprei uma câmera e comecei a filmar e compartilhar vídeos no YouTube. Desde o início pensei em abordar a estética e falar sobre como é importante meninas negras se verem representadas. Queria muito conversar sobre algumas questões raciais com as quais só tive contato na universidade, principalmente porque sei que a maioria da população negra brasileira não tem acesso ao ensino superior.

VOCÊ ACHA QUE FALAR SOBRE O RACISMO ABERTAMENTE FAZ A DIFERENÇA?

Este momento é muito significativo, principalmente falando de Brasil. Reprimimos as falas sobre questões raciais por tanto tempo… Vivemos anos fingindo que não tinha racismo e que o preconceito racial não nos afetava. Poder conversar abertamente sobre isso hoje é libertador.

COMO SE SEPARA QUEM É HATER, ALGO TÃO COMUM NA INTERNET, DE QUEM COMETE O CRIME DE RACISMO?

Ter pessoas que discordam de suas ideias não é um problema. Aliás, é superpositivo receber outros pontos de vista. Existe também quem está ali só para destilar ódio, que poderia ser direcionado a qualquer um — negro ou não. Contudo, há questões que são claramente raciais, e elas não se resumem a só ser chamada de “macaca”, o que acontece muito. Recebo comentários do tipo “Você tem que ler mais, porque a teoria tal e tal diz que, sim, negros têm QI mais baixo do que brancos”. Isso me preocupa mais do que um cara me xingando. Quem fala uma coisa dessa acredita firmemente em uma supremacia branca, e isso afeta muito mais nossa sociedade do que um cara que mal sabe escrever um xingamento.

 

VOCÊ É OTIMISTA OU PESSIMISTA QUANTO À SITUAÇÃO DAS MULHERES NEGRAS DO FUTURO?

Já fui mais otimista. Mas vejo passos importantes. Quando estudei a questão da transição capilar, percebi que muitas meninas só se descobriram negras a partir da mudança no cabelo. Antes elas se identificavam como morena (clara ou escura). Qualquer coisa menos negra. Com essa transformação, começaram também a entender outras questões de como a sociedade se estrutura e por que sentiram a rejeição estética. Isso é maravilhoso.

EDUCAÇÃO É A SAÍDA PARA ACABAR COM O RACISMO?

Estamos vivendo um grande movimento de pessoas negras entrando na faculdade por causa das cotas. Vejo que as mulheres negras estão criando filhos fortes e seguros de si. Mas, por outro lado, não vejo essa preocupação em educar as crianças de forma menos racista. Às vezes, os pais que não são negros entendem que se eles não falarem mal de pessoas que têm a cor da pele diferente automaticamente os pequenos não serão racistas. Se fosse assim, a gente não estava até hoje lutando contra. Se você não traz uma educação diferente, não mostra nossa história e fala os motivos pelos quais negros estão normalmente em cargos de serviço, a relação que aquela criança terá com pessoas de outra cor sempre será de superioridade

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